Uma moedinha por favor

(Pormenor de quadro de Adão Cruz)

O homem subia a Rua da Restauração, a qual, apesar do nome, nada restaurava, antes o desconjuntava ainda mais com a subida íngreme. Apoiado numa bengala arrastava a perna direita, desacertada por um AVC. Passava-se isto perto do Bairro Ignês, o bairro dos Erasmus, junto à casa abandonada do velho médico dos olhos, onde eu esperava os meus netos para a festa do primeiro aniversário da Carmen.

Filhos da puta enfiaram-me no banco de trás do carro, lá no fundo da rua, e disseram Ó meu, passa para cá o carcanhol. Limparam-me dezoito euros e deixaram-me aqui. O velho dirigia-se a mim fazendo esforços para lacrimejar. [Read more…]

De Tanto Olhar

De tanto olhar

Tanto olhar

Olhos perdidos

Na lonjura das águas

Vejo-me nos tempos idos

E recordo as minhas mágoas

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De tanto olhar

Tanto olhar

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(Poema e fotografia da exposição “Água e Palavras”)

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De memórias somos feitos

Lá estava o seu rosto velho e sulcado, arranhado do mundo e da vida, meio escondido na barba espessa e negra que o ninho havia impregnado de pequenas arestas de palha. Já quase não vivia, no magro sentido biológico. Apenas pensava. Por isso algumas vezes o julgaram morto quando ele verdadeiramente vivia. Outros apelidaram-no de filósofo.

Os olhos esquecidos por detrás das pálpebras negras e sujas não paravam nem por escassos instantes no rosto de alguém. Apenas um relance veloz como o raio constituía a única manifestação vital desse corpo, quando, frente a ele, alguém detinha ou abrandava o passo.

Todas as vezes que o vi me pareceu ver o meu retrato, mas sempre muito distante, muito longe. Um capote gasto e roto como a pouca vida que o mantinha ainda à flor da terra caía-lhe dos ombros magros como uma cruzeta. Há anos, muitos anos, que tal veste fora nova e de um castanho torrado como o cair da folha. Nunca deixara de cobrir aquele corpo, pois a ele o haviam cosido as mãos da miséria.

O próprio cachorro, cuja idade lhe comia no lombo grandes tufos de pelo, não reconheceria o dono sem capote, o dono cindido em dois. Cão e mendigo, esqueléticos e mudos, parados como um pântano, pousavam para o mundo, para a grande tela da vida. Constituíam os dois uma só peça, uma única escultura cinzelada numa só pedra.

Não falavam. Apenas de hora a hora gemiam. Se era a goela a queixar-se, mexia-se a mão apergaminhada e ossuda do velho a acariciar-lhe tremulamente o focinho esguio. Se o gemido nascia do peito humano, brandamente o cachorro se aconchegava a ele, lambendo-lhe os olhos e a boca, como se quisesse mostrar-lhe quanto valia o amor de um cão perante a pobreza do mundo. E o coração do pobre velho sorria sobre um mar de tristeza. [Read more…]

Homem velho e mulher nova filhos até à cova

Sempre se viu homens mais velhos apaixonarem-se e darem um piparote na vida, largarem tudo, por amor a uma mulher mais nova.

 

Uma das mulheres mais bonitas que vi estava casada com um homem muito mais velho (conhecido por ter belos programas de educação física na TV) e tinham duas belas crianças. felizmente parecidas com a mãe.

 

A primeira reação para quem na altura tinha trinta e cinco anos, foi de incompreensão, ciúme, o que lhe queiram chamar, mas o tipo apesar da idade era bem parecido e culto.

 

Outro caso muito conhecido, entre outros foi o de Sofia Lauren e a de Carlo Ponti, ela era só uma das mais belas mulheres e ele era baixote, gordo e careca.

 

Mas o que vos quero contar é o caso de um dos políticos mais conhecidos de Espanha, poderoso, banqueiro, economista e que tinha uma bela família com filhos, um palacete e uma mulher que era só dele. Um belo dia deixou tudo para se casar com uma mulher que ía no terceiro casamento, com filhos de dois homens, cheia de plásticas apesar de muito mais nova, uma cabecita tonta mas muito bela.

 

Alguém se interrogou na sua frente sobre tal decisão, e o poderoso devia estar na fase do desencanto e respondeu : "é como estar na última estação, a ver passar o último comboio e a decidir se agarro ou não a última carruagem."

 

Eu por mim, dou comigo a ver as "teens" na Guerra Junqueiro e a justificar-me. No amor tambem alguem tem que ser capaz de se mexer.

 

Ora…