Eu já tinha dito que Camus morreu há 50 anos?

Maria veio buscar-me à noite e perguntou-me se eu queria casar com ela. Respondi que tanto me fazia, mas que se ela de facto queria casar, estava bem. Quis então saber se eu gostava dela. Respondi, como aliás respondera já uma vez, que isso nada queria dizer, mas que julgava não a amar. “Nesse caso, porquê casar comigo?”, disse ela. Respondi que isso não tinha importância e que, se ela quisesse, nos podíamos casar. Era ela, aliás, quem o perguntava, e eu contentava-me em dizer que sim. Maria observou então que o casamento era uma coisa muito séria. Respondi: “Não”. Maria calou-se durante uns instantes e olhou-me em silêncio. Depois, falou. Queria simplesmente saber se, vinda de outra mulher com a qual estivesse relacionado do mesmo modo, eu teria aceite uma proposta semelhante. Respondi: “Possìvelmente”. Perguntou então de si para si se gostaria de mim, mas sobre esse ponto, como poderia eu saber alguma coisa? Depois de uns instantes de silêncio, murmurou que eu era uma pessoas estranha, que gostava de mim se calhar por isso mesmo, mas que um dia, pelos mesmos motivos, era capaz de passar aos sentimentos contrários. Como eu me calasse, por não ter nada a acrescentar, tomou-me o braço a sorrir e declarou que queria casar comigo. Respondi que sim, desde que ela quisesse. Falei-lhe então na proposta do chefe e Maria disse-me que gostaria de conhecer Paris. Contei-lhe que lá vivera durante algum tempo e ela perguntou-me como era a cidade. Respondi: “É suja. Há pombas e pátios escuros. As pessoas têm a pele muito branca”.
Albert Camus, O Estrangeiro, trad. António Quadros, ortografia da edição original.

E estão a ver como com um parágrafo se abordam dois temas da actualidade, e se ouve a melhor canção dos The Cure?

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