O problema da História

O problema de se escrever sobre História, ou de se realizar um filme sobre um qualquer tema ou personagem Histórica é quase sempre a questão da fidelidade aos factos. Muito poucos filmes ou mesmo livros (Wolf Hall grita-me uma vozinha no meu cérebro) são acurados. Isto acontece por muitas razões e parece-me que a primeira é que muitas vezes a realidade não é tão excitante como a ficção. E isso não é condenável, uma obra de arte não tem que factual. Podemos depois falar em puro desconhecimento de factos por parte de escritores ou realizadores ou mesmo diferentes interpretações deles.

O que salta à vista é uma questão que acaba por estar acima de tudo isto: Nem sempre, na História, é possível saber-se tudo. Mesmo que se saiba muito sobre um assunto e mesmo que haja factos que estejam mais que provados, há sempre outros factos e aspectos e pormenores que não se sabem, ora porque não há fontes ou porque elas são muito problemáticas ou por outra razão qualquer. Por outro lado, também há certezas na História. Quando se diz que os nazis mataram 6 milhões de judeus, isto é um facto não há volta a dar.

O problema é que nem toda a gente consegue encarar estes aspectos. A ideia de que há coisas que são muito certas ou muito incertas, não é fácil de engolir. Os historiadores têm que lidar com isto. E quem escreve um livro, um romance histórico ou faz um filme baseado em factos históricos tem também que o encarar. O problema é que muitos não o fazem. Quer dizer, ainda hoje Dan Brown está plenamente convencido das suas teorias e Hilary Mantel também continua a achar que o Thomas Cromwell era boa pessoa. É óbvio que toda a gente tem direito ás suas teorias, mas não as podem impingir como verdade histórica, lá porque leram uns livros e interpretaram uns factos.

O problema de Oliver Stone é um bocado este. Ele lê umas coisas, cria uns padrões na sua cabeça, e depois faz encaixar os factos nas suas próprias ideias. Isto seria aceitável quando se trata de ficção, mas não é o tipo de coisa que vai sair imprimido nos manuais de História. Lá porque Stone acha que quando Nixon dá aquele entrevista, manda umas indirectas em relação à morte do Kennedy, e que “everything is connected to everything”, não quer dizer que assim seja.

Esta entrevista é o perfeito exemplo disso. Stone crítica os historiadores porque eles o criticam e eu compreendo isso. Os Historiadores, parece-me, têm pouca paciência para pessoas que acham que a História não é aquilo que eles dizem, mas a critica de Stone é injusta.

Stone diz:

I think there’s a sort of pomposity, a solemnity, that historians carry about with them. They feel they are in possession of the facts and the truth as though they were the chief priests in ancient Egypt caring for the sacred innards. You know, the prophecies belong to them. But from what I know about history – not only from my personal experience of it in France and Russia and America, in Vietnam and Asia, but also from reading – I know that many of these subjects are ambivalent.

A História pode ser ambivalente, como aliás, as ciências sociais, mas isso não quer dizer que seja tudo subjectivo, porque os factos e estão sempre lá. Pode depender a maneira como os interpretamos.

(…)

“We read most everything there was on Nixon: books from the left, from the right, from the center – the so-called center. And at the end of the day, not one of the historians who wrote those books – except possibly Fawn Brodie, whom I would call a psychohistorian – none of them tried to gain a deeper understanding of what the man was thinking and feeling, what kind of human being he was”

A questão de se adoptar piscologia à História, é uma questão antiga, e por um lado muito tentadora. Sim, seria fascinante usar um perfil psicológico de Hitler, de Napoleão, de César, ou – para pegar na minha área preferida – Thomas More. Sim, a mim dava-me realmente jeito saber se ele tinha uma sexualidade reprimida ou não, mas o problema é que tendo em conta que ele já morreu há 500 aos será um bocado difícil traçar-se um perfil psicológico com base nas cartas do Erasmus e no “Diálogo do conforto contra a Tribulação”, entre outros. Para Hitler, talvez fosse mais fácil. É mais recente, há mais documentação. Aliás, um dos melhores exemplos, é o livro de Lothar Machtan, “The Hidden Hitler”. Nele, o historiador defendia que Hitler era homossexual, apesar das provas serem quase nada. Por outras palavras, a psicologia nunca foi excluída da História e não há razão para crer que vá ser. Só que é algo que tem que ser utilizado com cuidado, porque tem que se ter um conhecimento vasto (e para conhecimento tem que haver documentação) de quem se está a estudar, para se conseguir traçar um perfil psicológico dessa pessoa. Com pessoas que viveram há centenas de anos, este exercício torna-se bastante difícil.

Agora, Oliver Stone decidiu fazer um filme sobre Hitler. Segundo ele, Hitler foi “um bode expiatório fácil, do qual se abusou” ao longo da História, e que “não podemos julgar as pessoas apenas como sendo “más” ou “boas”. [Hitler] é o produto de uma série de acções. É uma relação de causa e efeito. Muitos americanos não entendem a relação entre a I e a II Guerras Mundiais“.

Se eu quisesse ser convencida, diria que o que os americanos não entendem daria para escrever vários livros. Mas não vou dizer, até porque sei que não é assim. Vou apenas focar-me naquilo que Stone disse.

É evidente que Hitler foi um produto de uma série de acontecimentos. Hitler é um produto de tudo, é um produto do tempo em que vivia, da situação económica, social e cultural, é um produto da educação que teve e do passado que teve. Mas dizer que Hitler é um “bode expiatório fácil do qual se abusou” é absurdo. É arriscado, errado até, dizer que se não fosse Hitler a surgir teria sido outro qualquer. Não podemos dizer isto, porque não sabemos. Havia o crescimento dos nacionalismos? Havia. Havia o crescimento de ideologias de extrema-direita? Havia. Havia o crescimento da violência? Sim. Mas isso fazia prever o aparecimento de um Hitler? Não necessariamente. Na Itália, apareceu Mussolini. Se calhar, se não fosse Mussolini, ninguém teria organizado aqueles arruaceiros, ninguém lhes tinha dado uma ideologia. Quem garante que se não fosse Hitler, outra pessoa teria escrito o Mein Kempf?

Hitler foi um produto de muita coisa. E houve muitos que se aproveitaram da chegada dele ao poder para fazerem florescer a sua própria violência e ódio e ainda outros interesses, nomeadamente económicos. Mas Hitler não pode ser designado apenas como um bode expiatório. Ele foi muito mais que isto é quase ofensivo para todos os que morreram ou pior, dizer isto. Foi um louco, um louco inteligente. Hitler soube ver os sinais, e soube aproveitar-se deles. Podemos dizer que ele foi, simultaneamente, alguém que foi o produto de uma época, mas que também serviu como produtor de algo.

Ainda não vi o filme por isso baseio-me apenas nas declarações dele. Penso, além disso, que é louvável que Stone queira, de certa maneira, educar as pessoas. Não duvido que haja muita gente que não enquadre Hitler e Estaline e todos os outros. Mas é preciso chamar as coisas pelos nomes, e não ser redutor ou simplista. Porque a História e os acontecimentos não são simples, e não podemos querer fazê-los simples só porque é mais fácil para o público geral perceber.

Comments

  1. maria monteiro says:

    eu que não sou Oliver Stone, nem faço filmes, por exemplo não entendo porque é que há gente que teima que Pio XII tenha que virar santo… Ainda esta semana, sem ter ido ao cinema assisti ao filme Santana Lopes.
    Quanto a Hitler foi pena não lhe terem dado valor como artista….

  2. Luis Moreira says:

    Belo texto Daniela, “o homem e as suas circuntâncias”…

  3. Adão Cruz says:

    Dentro desses milhões não eram só judeus Daniela, e os judeus que morreram eram os judeus pobres. Os ricos fugiram e safaram-se. Eram também alemães, ciganos, deficientes físicos e mentais, comunistas, intelectuais de esquerda etc.


  4. não gostei de nenhun

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