Os Açores, Kissinger e velhos projectos


Parece existir uma certa surpresa pela notícia hoje divulgada pelo Público e que se refere a um projecto de ocupação dos Açores pelos EUA, durante o auge do PREC de 1975.

Esta possibilidade existe há perto de 120 anos e a primeira vez que dela se ouviu falar nas chancelarias europeias, foi nos finais do século XIX, quando após uma rápida guerra de surpresa contra a Espanha, os americanos arrebataram Porto Rico, Guam e as Filipinas, ao mesmo tempo que estabeleciam um protectorado em Cuba. A Doutrina de Mahan, bem alicerçada naquela outra que serviu e ainda se faz valer no Hemisfério Ocidental, impôs a ascensão dos Estados Unidos à condição de grande potência naval. A aquisição de bases que servissem como perímetro de defesa, foi talvez a primeira consequência da vitória sobre os espanhóis, também impedindo aquilo que já se tornara num princípio básico do sucesso de qualquer esquadra em batalha: a logística e o controlo das rotas marítimas intercontinentais. De facto, a distância que separava as armadas europeias dos seus portos metropolitanos, consistia no problema que durante séculos obcecou todas as potências marítimas, tendo sido Portugal, a primeira delas a construir um rosário de pontos de apoio costeiros e insulares que pontilharam o Atlântico, Índico e Pacífico ocidental. A Inglaterra compreendeu o conceito e estendeu o seu domínio a Gibraltar, malta, o Chipre, Suez, Freetown, Golfo da Guiné, Santa Helena, Ascensão, ao Cabo, Zanzinbar, o Hadramaut, Bahrein, Ceilão, Penang, Singapura e Hong-Kong.

Mahan compreendeu o aspecto vital que o comércio marítimo representava para a Europa e os estrategas de Washington desde cedo encararam os Açores como uma base absolutamente essencial à intercepção das rotas que uniam o velho continente às suas possessões no além-mar. Numa época em que a Royal Navy era a incontestável soberana de todos os oceanos, o princípio britânico de possuir uma esquadra “second to none”, impunha a garantia da utilização de portos amigos, ou directamente controlados por Londres. Os primeiros-ministros ingleses tinham como ponto fundamental da sua agenda internacional, o princípio de Lisboa ter forçosamente de ser, uma base amiga da Grã-Bretanha. A partir daqui, a própria política externa da Monarquia Portuguesa pós-Ultimatum, sentiu-se com a confiança reforçada para o grande e oneroso projecto daquilo a que se designou de Campanhas de Pacificação em África, antes de tudo tendo como objecto, a garantia e alargamento das fronteiras das colónias que a Inglaterra tinha condescendido em deixar ao dependente aliado português. A vantagem do “Estado tampão” que para mais era aliado e importante parceiro comercial, foi um dos aspectos mais notáveis do espantoso sucesso da permanência portuguesa na África austral, hoje a parte de leão dos PALOP, detendo pontos estrategicamente tão relevantes como Lourenço Marques, a Beira, a desembocadura do Zambeze, a partilha da soberania do Rovuma e do Lago Niassa com a Alemanha, e os territórios que hoje fazendo parte de Angola, se encontram sobranceiros à foz do Rio Congo.

Nos finais do século XIX, correram rumores acerca de um possível confronto naval anglo-americano e os Açores estavam de imediato, na possível linha da frente do conflito, servindo como esteio essencial a ambas as armadas. Os ingleses jamais permitiriam contra Portugal, qualquer aventura bélica ao estilo canhoneiro de Theodore Roosevelt. Isso significaria o desencadear de acontecimentos de consequências desastrosas, desde a perda dos arquipélagos atlânticos – Açores, Madeira, Cabo Verde -, até a uma forçosa partilha das colónias da África austral, levando a Alemanha de Guilherme II até ao Zambeze e à absorção de uma boa parte de Angola, alargando o então Sudoeste Africano Alemão. A Visita Régia que D. Carlos I e a Rainha Dª Amélia efectuaram em Julho de 1901 aos Açores e à Madeira, inseriu-se nessa política de manifestação da soberania portuguesa, aliás acompanhada pela presença de unidades navais britânicas que prestaram as devidas honras às Majestades, aproveitando para enviar um forte sinal a espanhóis, alemães e americanos.

A I Guerra Mundial demonstraria a importância do arquipélago, no momento em que a arma submarina manifestava toda a sua potencialidade como factor de disrupção do comércio marítimo. A construção de uma base americana ficou decidida e bem serviu durante um breve período, pois o conflito terminou em 1918. Os anos imediatos transferiram a atenção dos EUA para o Pacífico, onde um Japão em ascensão imperial ameaçava os interesses coloniais e comerciais norte-americanos, desde a China às Filipinas e Pacífico central.

Em plena II Guerra Mundial e mesmo antes do ataque a Pearl Harbour – quase reeditando desta vez contra os EUA, os acontecimentos de Cavite e de Santiago de Cuba (1898) – , os Açores parece terem sido uma constante preocupação por parte dos ingleses e durante algum tempo, aventou-se a hipótese de a célebre surtida do Bismarck e do Prinz Eugen, ter sido gizada como um primeiro indício de uma ocupação preventiva do arquipélago. O chamado “buraco negro do Atlântico” acabaria por ser colmatado quando do acordo, via Londres, entre Portugal e os Estados Unidos da América. Evitou-se assim, aquilo que a belicosa e impaciente administração Roosevelt pensava seriamente realizar, quanto a uma simples e total ocupação sem declaração de guerra. Após 1945, os Açores consistiram numa das principais bases aeronavais americanas e até hoje assim se mantêm, tendo desempenhado um importantíssimo papel durante os conflitos israelo-árabes e no período da Guerra Fria, quando os russos finalmente criaram uma enorme esquadra de alto mar e estenderam a sua influência a Cuba e a numerosos países africanos.

Os EUA jamais pensaram poder perder os Açores e qualquer acto irreflectido por parte de Lisboa, ou a possibilidade do desaparecimento de Portugal como Estado independente, significarão a imediata secessão, ou a anexação da sentinela atlântica. Desta forma, os Açores são para todos os efeitos, um importante pilar da independência de Portugal, país marítimo por vocação ditada pela geografia e pela história. Toda a política de alianças, deverá sempre ter este evidente aspecto em boa conta, pois tal como na Londres de 1890, Washington jamais suportaria a hipótese de um dia, Lisboa e Ponta Delgada serem portos hostis. Tal não acontecerá, mesmo que qualquer aventureiro transitoriamente instalado em Belém ou S. Bento e imitando 1975, consulte miraculosos oráculos ou xamãs.

*Na foto, D. Carlos e Dª Amélia nos Açores, em Julho de 1901

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