AntiDeuteronomio II

  (adão cruz)

AntiDeuteronómio II

No tempo em que as sardinheiras das varandas dos pobres faziam parte dos nossos sonhos florindo em poemas de sol e de cor no tempo em que as andorinhas teciam grinaldas de vida nos beirais no tempo em que os rios bordavam a terra de areia branca no tempo em que a brisa sussurrava por entre as flores e as fontes murmuravam seus amores a aurora da nossa inquietação tinha o cheiro a maçãs e o pulsar das coisa vivas e o levíssimo sorriso dos jardins do paraíso tudo amávamos em nobre sentimento de exaltação

O mundo era transparente e fácil de amar e cheirava a feno a razão ondulava a frágil seara um suave alento na quietude universal da liberdade como harmoniosa mulher suspirando ao vento

Tão inocente amor tanta alegria quem pensaria que os rios de pranto haveriam de chegar um dia em negra nuvem de calado voo

Não podemos deixar que a nuvem negra se abata sobre nós e o pensamento… e o pensamento nos agarre o desértico silêncio sentados ao vento no falso sol da varanda da ilusão e da erosão da consciência adormecida

Não podemos deixar que a todos nos transforme em filhos da morte filhos de nenhum lugar e de toda a parte figuras do vale das sombras esgueirando-se nas sombras de outras sombras sonâmbulos fantasmas sem gestos de vida que nos façam acordar

E quando for dia de sol bem alto porque haverá sempre um dia a rasgar a deuteronómica nuvem negra que ameaça os campos do futuro e o sereno assombro das pedras e os peixes verdes dos poemas e os rubros sorrisos que cheiram a mar e os passos dos que aprendem a andar e os rios que correm nos olhos de uma criança e a memória sem tempo e a terra sem chão mapeada de esperança e os desejos que nos abraçam e o amor excelso e fecundo não mais a noite dos homens apagará as estrelas do céu com todas as bombas do mundo

Comments

  1. Céu Mota says:

    Não podemos deixar que a nuvem negra se abata sobre nós. Adão, Gostei muito! E parabéns pelos seus quadros

  2. adão cruz says:

    Obrigado Céu Mota. É sempre bom ouvir palavras destas.

  3. maria celeste ramos says:

    que lindo dizer

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