A carta do Syriza aos donos da Europa

Em Fevereiro  Alexis Tsipras, dirigente do Syriza, endereçou uma carta aos chefes dos estados-membros do Eurogrupo, ao presidente da Comissão Europeia, ao presidente do Conselho Europeu,  e ao presidente do Parlamento Europeu, explicando muito bem ao que vinha e que o governo da ND/PASOK e outros não tinha legitimidade democrática para assinar compromissos internacionais.

Hoje andam a fazer de conta que não leram. A democracia quando é contra nós é uma coisa muito aborrecida.

A Carta de Alexis Tsipras

Excelentíssimos senhores e senhoras,

Envio-vos esta carta para alertar-vos para uma questão de ordem democrática de urgente importância para a Grécia. Tem a ver com o compromisso assumido nos últimos dois dias pelo governo Papademos, chefiado pelo sr. Lucas Papademos. Permitam-me que vos recorde que se trata de um governo não-eleito, que não tem apoio popular e atuou consistente e conscientemente contra a vontade do povo grego. Este governo não tem legitimidade democrática para comprometer este país e o seu povo nos próximos anos e as próximas gerações. Este défice de legitimidade está em conflito com a rica tradição democrática dos vossos próprios países. A manter-se desta forma, tornar-se-á um mau precedente para a Grécia e para o conjunto da Europa, que, acima de tudo, têm uma herança comum de tradições políticas e democráticas que precisam ser respeitadas. Por maior que possa ser a gravidade das circunstâncias atuais – em relação às quais há espaço para divergência de opiniões – elas não podem de forma alguma cancelar a democracia.

A falta de legitimidade democrática do governo Papademos deriva dos seguintes factos:

– Os dois partidos políticos que apoiam o governo e participam nele não têm mandato popular para comprometer a Grécia com tratados e acordos desta natureza. Os seus representantes foram eleitos nas últimas eleições de outubro de 2009, baseados em programas políticos totalmente contrários às políticas que foram seguidas pelo anterior governo de Papandreu, bem como às que estão a ser negociadas hoje com a UE, a troika e o FMI pelo atual governo. Os dois partidos que hoje constituem o atual governo têm um registo histórico de pilhagem dos recursos públicos e são responsáveis pela atual situação económica.

– O povo grego foi sistematicamente desinformado e enganado sobre a intensidade e a duração das medidas de austeridade, desde a sua primeira implementação em 2010. Consequentemente, retirou a confiança no sistema político grego. Mais ainda, o amplamente admitido – dentro do nosso país e no exterior – fracasso óbvio destas medidas para enfrentar com sucesso os problemas fiscais que supostamente resolveriam nestes últimos dois anos e no período de cinco anos de aprofundamento constante da recessão, legitimou mais ainda a exigência de uma mudança de política, de forma a restaurar um crescimento socialmente justo e, assim, a perspetiva de uma racionalização fiscal.

– Mais especificamente: o governo não-eleito de Papademos apenas fornece um mínimo de informação, às vezes mesmo enganadora, no que diz respeito ao acordo que secretamente negoceia. Não iniciou, nem permitiu que começasse qualquer discussão informativa e pública acerca dos compromissos de longo prazo extremamente graves que se seguem. A Democracia Grega foi assim privada do direito, protegido constitucionalmente, de fazer uma avaliação detalhada das consequências do acordo assinado. O chamado “segundo resgate” foi votado através de processo ultra-expedito de emergência, no quadro de uma sessão parlamentar num domingo. O principal objetivo desta sessão foi a exigência, feita pelo governo, de uma autorização que é uma carta branca para assinar documentos quase em branco, que vão comprometer o país nos anos vindouros.

– Apesar do nível de falta de informação sobre estes acordos, o seu conteúdo parece ser tal que compromete o povo grego para as gerações vindouras. Para um tal compromisso, qualquer governo deveria pelo menos pedir um claro e renovado mandato.

– Apesar do nível de falta de informação sobre os movimentos do governo, a vontade do povo grego, expressa numa multitude e variedade de formas, é quase unânime em se opor a eles. Especificamente, durante os últimos dois anos, o povo da Grécia, por todo o país, demonstrou a sua oposição às políticas do governo, através de, entre outros meios, repetidas greves gerais e manifestações, ocupações, envio de cartas e mensagens eletrónicas, e outras formas de comunicação pessoal com os deputados. O governo grego não só escolheu ignorar a voz do seu povo, como também tentou mesmo sufocá-la, por vezes até de forma violenta, para dar continuidade, de forma antidemocrática, às políticas que se demonstraram desastrosas para a sociedade e a economia gregas.

Por todos os motivos acima expostos, notifico-vos que o povo grego, assim que restaurar o direito de exprimir democraticamente a sua vontade e reconquistar o controlo sobre as instituições democráticas, irá com toda a probabilidade reservar o seu reconhecimento ou o cumprimento destes acordos que o atual governo planeia aceitar. Especificamente, o povo grego não aceitará qualquer perda de soberania, o envolvimento estrangeiro em assuntos internos da Grécia ou a venda em larga-escala das empresas públicas, da terra e de outros bens que o atual governo se prepara para aceitar.

Alexis Tsipras

Presidente do grupo parlamentar do Syriza

Tradução do esquerda.net

Comments

  1. maria celeste ramos says:

    Soares anda prá í a dar em terrorita – confusamente – joão jardim ao lado de soares (rtp informação 21:45 H- 8 maio 2012-investigação às contas da madeira)+ programa vice-versa sobre o caos grego-CDS a grécia é democracia e não tem de haver paternalismo e não há boa ou má escolha e se há pulvezição vai dar preocupão na europa e instabilidade na europa + Antº Filipe PCP – os partidos destroçados neste acto eleitoral são os do poder-consequência sociais e políticas e se os mandantes da UE têm de assumir responsabilidade e se Dragui e Merkel pensam que é só consequência na Grécia e é impossível conservar tudo isto até aqui – estão a brincar com o fogo – estou farto de falar de política de crescimento sem crescimemto-CDS a política de sócrates não deu crescimento – o que nos impede de crescer é a justiça – 2º obstáculo é burocracia e não vamos crescer só porque merkozy é MerkHollande – vamos esperar pelo debate amanhã que tem de ser sério e falar no abuso de posição dominante em sectores do mercado – temos de ir à essência dos probelas que deu o estado a que se chegou – PS diz que a iniciativa PSD é hipócrita e e inconsequente e música celestial e com juros usurários é impossível falar em crescimento e emprego – desde o início do euro quese não há crescimento – são só palavras – desde 2008 já cairam 19 governos europeus e nenhum resiste – berlusconi – zapatero – holanda – sócrates – o momento em que se está mostra a falência clamorosa destas políticas – TVi24H-22:25H-Augusto Santos Siva – os cortes são uma solução fácil-o nosso 1º não pode estar am dissintonia com Durão e o sócrates não +e culpado por não se ter feito o TGV – não podemos ser acusados de faltar ao tratado -fim

  2. Paulo says:

    Interrogação: tendo em conta quão poucos gregos e portugueses falam com correctamente ambas as línguas, afinal este texto em que medida está fiel ao original?

    P.S.: Que poucos são os capazes de fazer uma tradução correcta tenho eu a experiência prática e é importante saber o quão fiel ao texto em grego está esta que aqui lemos. Obrigado.


  3. Eu diria que o original não estará em grego, mas em inglês, ou que foi traduzido por profissionais. Basta ver os destinatários da carta, também não me consta que dominem o grego.


  4. Os “Merkozi” e a “Troika” andaram apressados a colocar um governo fantoche na Grécia, e agora é bem feito levarem com esta nas ventas. O governo não era eleito!

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