Pequenas Correcções (II)

Ao contrário do que o Pedro Marques Lopes afirma, os bancos podem, sem qualquer problema, falir. O papel do estado nessa circunstância é garantir que o processo decorre sem pânico e circunscrevendo os efeitos secundários o máximo possível.


 

O grande argumento a favor dos resgates dos bancos, são os depósitos das pessoas. Esse argumento é falso e não põe problemas de maior. Em caso de falência os depositantes dos bancos são os primeiros credores, se os activos não chegarem para cobrir os depósitos então acciona-se o fundo de garantia bancária, se o fundo tiver problemas em cumprir, então o estado deve dar a sua garantia. Mais do que isso, o estado não deve fazer.

Notar que o fundo de garantia bancária foi instituído exactamente para defender os depositantes da incompetência dos administradores dos bancos (que levaram à falência não apenas um ou outro banco, mas todo um sector).

Em vez disto, o estado está a garantir a recapitalização dos bancos, sem pedir nada em troca. O estado está a assumir o risco de falência destas instituições e, o pior de tudo, os bancos continuam sem fornecer à economia o crédito que esta necessita. Não é à toa que se chama ao crédito o “sangue da economia”, sem haver crédito a economia morre, estamos a assistir a isso mesmo.

E porque não há crédito?

Um exemplo simples: um banco faz um empréstimo a um construtor para este fazer um prédio. Esse empréstimo é garantido pelo edifício que foi construído mais o terreno. Imaginem que o crédito foi de 10 milhões de euros. O banco vai inscrever no seu balanço, 10 milhões em activos, por esta operação. No entanto, tendo em conta que o mercado imobiliário está parado, não há forma de vender o prédio por mais de seis milhões. Isto vai gerar o que se chama eufemisticamente uma imparidade, na realidade o construtor faliu e o banco ficou com o menino nos braços. Sendo forçado a perder dinheiro.

Outro exemplo clássico na nossa praça, é o seguinte: imaginem um pato bravo que tem algum dinheiro. Imaginem um gestor de conta qualquer num banco, ávido em ganhar comissões. E prolongando o esforço de imaginação mais um pouco, pensem numa administração à qual interessa que as acções do próprio banco vendam bastante (para o banco se livrar de acções próprias, para eles, administradores, venderem também, etc). Juntando estes três ingredientes ficamos com os elementos necessários para os bancos emprestarem a clientes crédulos e de uma forma geral mal formados a nível financeiro, dinheiro para comprarem acções dos próprios bancos, usando como garantia desses empréstimos as próprias acções que compraram. Se observarem o gráfico das cotações de um banco qualquer da nossa praça, vão ver como isto correu bem:

É de situações como esta e ainda piores, que surgem as necessidades de recapitalização.

Todo o dinheiro que está a entrar nos bancos é usado para criar almofadas de capital. À medida que os bancos vão sendo obrigados a reavaliar os respectivos activos, as necessidades de capital vão sendo cada vez maiores. Assim nunca sobra dinheiro para o que realmente interessa: a economia.

E que culpa têm os portugueses de ter administradores incompetentes nos bancos? Que não sabem avaliar o risco apesar de todas as evidências? Ou que sabem à priori que os políticos, ainda mais corruptos, os ajudarão? Os portugueses não têm, naturalmente, culpa nenhuma.

Já falei várias vezes nesta hipótese, a primeira obrigação do estado em relação à economia é assegurar um ambiente favorável aos negócios, à criação de riqueza, à criação de emprego. O estado está a fazer exactamente o contrário. Se em vez de ajudar bancos falidos e corruptos, o estado tivesse usado o dinheiro da Troika para criar um novo banco, este teria dinheiro mais do que suficiente para alimentar a economia, inclusive para a fazer crescer.

Por aqui se pode ter uma ideia da magnitude do poder do sector bancário.

Comments

  1. Jaime Grilo says:

    (o meu comentário anterior tem algumas incorrecções, por isso, fica sem efeito e é substituído por este)Apaguei o seu comentário anterior – HG

    Excelentes estes 2 textos do Hélder Guerreiro.
    No entanto, permita-me só fazer uma pequeníssima correcção: quando o banco empresta 10 milhões ao construtor e depois vende o prédio por 6 milhões, na realidade, não perde dinheiro.
    Quando o banco inscreve 10 milhões no seu balanço, na realidade, só tem que ter uma reserva desse valor (admitamos que são 10%). Ou seja, o banco empresta 1 milhão real e 9 milhões fictícios.
    Ao vender por 6 milhões, na realidade, ganhou 5 milhões, independentemente de inscrever um prejuízo de 4 milhões.
    Isto parece brincadeira, mas é a realidade…

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