Para que servem os professores?

A Educação no Portugal democrático sempre foi um edifício em mau estado. Nos últimos sete anos, os três governos PS/PSD/CDS conseguiram o milagre de fragilizar ainda mais os frágeis alicerces desse edifício, limitando-se a disfarçar o mau estado do imóvel com uns painéis publicitários e outras manobras de marketing.

A partir do ano que vem, entre mega-agrupamentos, turmas com mais alunos e a dispensa irresponsável de milhares de professores contratados, o triste edifício ameaçará a ruína absoluta.

Em sete anos de políticas ruinosas, os professores souberam fazer três manifestações gigantescas e várias greves, mas não conseguiram e continuam a não conseguir travar a destruição quotidiana da Educação. Intoxicada por anos de inveja social, alimentada pelas máquinas de comunicação partidária, a opinião pública limita-se a olhar para os professores como uma corporação preocupada apenas com os seus privilégios.

Resta saber até que ponto esta visão será justa. Há pouco tempo, um amigo e colega defendia a necessidade de que os professores soubessem unir-se para protestar contra tudo aquilo que está mal na Educação e não apenas por razões relacionadas com questões corporativas.

A verdade é que podemos encontrar demasiados exemplos de pessoas mais preocupadas com a vidinha do que uma classe cuja principal preocupação deveria estar centrada na Educação: efectivos que se manifestaram em Lisboa e foram a correr entregar objectivos mínimos, sindicatos muitas vezes mais preocupados com domínio do território, professores que acatam acriticamente qualquer novidade, directores que se deixam transformar em fantoches do Ministério da Educação e muitos outros exemplos que não ficam bem na fotografia de profissionais qualificados que se deixam desqualificar todos os dias.

Os professores continuam, assim, a ser cúmplices da destruição da Escola e, portanto, indignos de uma das profissões mais nobres que se pode desempenhar. Há muito para pensar e há muito para pôr em causa, o que inclui formas e razões de luta. Enquanto isso não acontecer, os professores servem para muito pouco.

Comments


  1. Fotografia bem tirada.Retrato bem pintado.

  2. eyelash says:

    Por muito que me custe, tenho de concordar!


  3. Só devemos escrever quando sabemos do que estamos a falar. A emissão de opiniões sobre educação e sobre os professores exige ter conhecimentos sobre as matérias em questão, caso contrário, corre-se o risco de produzir afirmações, cujo conteúdo é duvidoso. Por outro lado, não devemos fazer processos de intenção, mas a informação sobre a temática em causa deverá integrar as preocupações daqueles que gostam de abordar esta problemática

    • António Fernando Nabais says:

      Não se iniba de explicar quais são as afirmações de carácter duvidoso. Quanto a esta ser uma temática que integra as minhas preocupações, bastará dar uma vista de olhos aos textos que já escrevi no Aventar e não só. Para sua ilustração, fique a saber que assino sempre com o meu nome e que sou professor do Básico e do Secundário há muitos anos. Dito isto, argumente.


      • Sou professora do ensino secundário há tempo suficiente para saber que devemos tratar com objectividade e seriedade todo o processo. Não foram razões de cariz ideológico que me levaram a fazer um comentário, ao que foi escrito, sobre uma classe profissional que desempenha um papel primordial na sociedade e deve ser respeitada. É perigoso generalizar. Não devemos fazer processos de intenção. Fico perplexa com o que foi escrito, dado que a maioria dos professores, ao longo do seu percurso profissional, têm colocado os alunos no centro da sua atenção, pois estes são a razão da sua existência enquanto profissionais da Educação. Um professor não deve fazer juízos precipitados, deve ponderar e ser justo na avaliação que faz.
        Não posso estar de acordo quando escreve que os professores estão mais preocupados com a sua “vidinha, são indignos e cúmplices da destruição da Escola”. A classe profissional a que pertence com certeza merece-lhe respeito.

        • António Fernando Nabais says:

          Em primeiro lugar, criticar e desrespeitar não são a mesma coisa. Era o que faltava que os professores, como a selecção nacional de futebol, não pudessem ser criticados.
          Esclareçamos, então: não posso nem quero negar que tenho encontrado uma maioria de profissionais dedicados e competentes nas escolas por onde tenho passado. Não nego, portanto, que a maioria dos professores tenha colocado os alunos no centro da sua atenção. Não há, aliás, nada no meu texto que contradiga isso.
          Releia, com atenção, o que escrevi: “A verdade é que podemos encontrar demasiados exemplos de pessoas mais preocupadas com a vidinha do que uma classe cuja principal preocupação deveria estar centrada na Educação”. Note-se: há demasiados exemplos, o que não significa que seja uma maioria. O facto de haver demasiados exemplos já é mau.
          No entanto, a circunstância de sermos um grupo profissional constituído por uma maioria de gente competente e dedicada não fez e não faz de nós uma classe.
          O texto é uma (auto)crítica, um apelo à reflexão e nem sequer contém ideias originais. Os professores servem, obviamente, para ensinar, mas a sua responsabilidade deve ir além disso: quando a Escola está ser destruída, a classe docente não se pode limitar a ensinar. Quanto mais não seja, porque, se tudo continuar assim, os professores não terão possibilidade de continuar a ensinar.


          • Não há dúvida que é escrevendo, ou dialogando que tudo é esclarecido. Algumas medidas que estão a ser tomadas pelo Ministério da Educação não podem merecer a concordância dos professores, quer em relação aos alunos, quer em relação ao processo de ensino e aprendizagem. O ministro, contrariamente ao expectável, não tem adoptado as políticas mais adequadas, a começar pela propagada reforma curricular, que, na prática, se traduz numa revisão da matriz curricular.
            Os termos que utilizou pareceram-me agressivos, mas fiquei mais satisfeita com o teor da sua última argumentação, que considero ser mais rigoroso.

          • António Fernando Nabais says:

            Os termos que utilizei são agressivos e pretenderam sê-lo. De resto, se reparou, não retirei uma palavra ao texto.

    • MAGRIÇO says:

      Quer-me parecer que os argumentos da Maria Amélia lhe assentam a ela própria como uma luva! É o que acontece quando se é demasiadamente voluntarioso na defesa das nossas preferências ideológicas…

      • Pedro Marques says:

        Pois, mas se as políticas dos 3 partidos governantes pós governos provisórios só destruíram o ensino em Portugal e se há professores que concordam, estão em contradição com a sua profissão que é ensinar. E que o ensino deve ser para todos e gratuito!


      • A minha resposta dirige-se a quem fala em preferências ideológicas e considera que os meus argumentos me assentam com uma luva. Certamente apressou-se a tirar conclusões e escreveu com alguma leviandade, uma vez que o meu comentário não lhe dava indicadores nesse sentido. Há que fundamentar o que se escreve.

        • MAGRIÇO says:

          Fundamentemos então, começando pela leviandade: ao contrário do que, certamente por distração, afirma, as considerações que faz no seu primeiro comentário insinuando que o autor do texto não tem conhecimentos de causa para opinar sobre um assunto que, a seu ver, só a Maria Amélia tem legitimidade para fazer, é precisamente pôr em prática aquilo de que acusa o autor quando diz que “Só devemos escrever quando sabemos do que estamos a falar”, o que, desde logo, configura alguma leviandade de presunção. Aqui, entre nós, vou revelar-lhe um segredo: a Maria Amélia não é a única a dedicar-se ao ensino! Tem milhares de colegas, oficiais do mesmo ofício, que têm tanta legitimidade à sua opinião como a que reclama para si. E, considerando não só o conteúdo como a forma do seu texto, legítimo é inferir-se que não fica muito feliz com os protestos dos seus colegas de profissão, logo, apoia as políticas de ensino decretadas. Como a maioria as acha execráveis, só quem está em sintonia com o poder instituído é que normalmente as defende. Sabe, é que “à mulher de César não basta ser séria: tem de parecer que o é.”


          • Pensei que tinha percebido que os processos de intenção são perigiosos e conduzem-nos a caminhos escorregadios. Acresce o facto, que tirou, mais uma vez, conclusões precipitadas, ou por ter feito uma leitura apressada, ou porque a interpretação se desviou da essência implícita nos argumentos.
            Não deixa de ser estranho que tivesse concluído que sou a única pessoa que me dedico ao ensino. Só alguém por estupidez, ou ignorância poderia ter tal ousadia.
            Todos têm legitimidade para expressar as suas ideias, mas a massa crítica não deve ser extinta. Penso que não será defensor de um pensamento único.
            Aproveito e, pegando nas suas palavras, para “lhe revelar-lhe um segredo”: sou professora do ensino secundário, e sempre lutei pela dignificação do ensino e da classe profissional a que, orgulhosamente, pertenço; critiquei e critico, em momentos cruciais, as políticas educativas, independentemente das forças partidárias que estão no poder, mas não apoio, por apoiar, tudo o que se escreve, ou diz sobre os professores e a Educação. Há que ser rigoroso. e criterioso.
            O actual ministro da Educação, como deve calcular, não tem correspondido às expectativas da maioria dos professores, onde me incluo. Poderia citar vários exemplos, mas vou referir apenas um: a reforma curricular de que tanto se fala, de reforma não tem nada, pois qualquer professor sabe que o ministro se limitou à gestão curricular.
            Viver em democracia presupõe exercer os direitos de cidadania, ser plural, responsável, solidário, e tolerante.
            A última frase da sua resposta está descontextualizada, não passa de um “cliché”.
            Sem querer ser presunçosa, vou dar-lhe uma sugestão, não um conselho, que seria excessivo da minha parte e não quero nem gosto de abrir “frentes de batalha”. Quando lemos algo, cujo conteúdo ou forma não merece a nossa concordância, se reagirmos de imediato poderemos ser injustos. Acontece a todos, faz parte da natureza humana. Assim, para que possamos ser mais justos na nossa avaliação, é melhor deixarmos passar algum tempo, por mais pequeno que seja, dado que a nossa inteligência emocional permitir-nos-á fazer análises com mais lucidez

          • MAGRIÇO says:

            A Maria Amélia até pode ser uma excelente professora, mas deixe-me dizer-lhe que quanto a capacidade argumentativa deixa um pouco a desejar, assim como denuncia alguma dificuldade em interpretar o que lê. A sua afirmação de que eu teria concluído
            ser a única a dedicar-se ao ensino é a prova disso. Possivelmente nunca ouviu falar em ironia. Mas a sua característica mais fascinante é que as recomendações que tem feito aos outros continuam a servir-lhe como uma luva: relativamente ao seu último parágrafo, se comparar os tempos de resposta que medeiam as nossas intervenções decerto perceberá o que quero dizer. E siga o seu próprio conselho: deixe espaço para uma mais cuidada reflexão antes de emitir mais um dos seus doutos conselhos. Mas não se iniba, que eu estou sempre pronto a aprender com quem sabe mais.


  4. Subscrevo cabalmente este artigo.


    • Parabéns. Conseguiu encontrar algo de fascinante em mim. Tardou, mas chegou lá. Não há nada como ser persistente. Pelo menos temos um ponto em comum. Outra característica fascinante que tenho é a determinação, não a teimosia, por estranho que lhe possa parecer.
      Como tenho pouco trabalho, só agora tive oportunidade de ver a sua resposta, mas penso que ainda vou a tempo de lhe ensinar o que tanto gosta de aprender. Não dou conselhos, todos os serviços têm um custo, mas como se deu ao trabalho de ler o que escrevi, vou fazer uma excepção: caso precise de alguma informação que possa partilhar consigo, basta pedir, estou ao dispor
      Atenção! Este texto não está escrito de acordo com as novas regras ortográficas.
      .

  5. joão says:

    Uma classe do “caraças”, difícil de se unir e de agir.

    Uma classe que, consciente ou inconscientemente, arranja sempre argumentos para ficar quieta – desde os argumentos compreensíveis às desculpas mais esfarrapadas.

    Não há muito a fazer e, olhando para o futuro, a coisa ainda piora.

    E não era suposto ser assim, antes pelo contrário.

  6. maria celeste ramos says:

    Se os professores fossem assim tão bons e profissionais em vez de empregados do ensino, se não reivindicassem a 90% salários & outras, será que os alunos seriam tão maus ?? mesmo que o ministério da educação seja uma aberração – mas entendo que são TODOS a maior aberração
    Ser peofessor não é também ser educador ?? Problemas há de certeza já que de todos os profissionais os que estão em 1º lugar em “faltas” por distúrbios psíquicos” até são os professores
    Porquê – os meninos são todos ANORMAIS?? Nasceram de repente todos anormais e violentos ??? e são todos burros ?? Então porque há cada vez mais alunos premiados dentro e fora do país e a dada altura são dos melhores investigadores europeus ?? Será que meia dúzia de professores estraga a classe inteira – uma maçã podre estraga o cêsto ? Mas o mesmo dizem os meus amiguinhos alunos universitários que coitados já vêm de trás tão mal preparados e sabem isso e dizem-no – Quem prepara ?? Será que os professores tem conhecimentos e grau cultural à altura da sua função e missão ??? Creio bem que não – fui professora em 3 graus de ensino e criei a 1ª escola profissional do país ?? e fiz os curricula de 2 cursos em discussão com o min de educação na 24 de Julgo – Pois foi, e vi o melhor de professores (escola profissional) e o pior (de universidade privada) – Se calhar ninguém sabe o que há-de fazer à vida e não tem capacidade auto-crítica – hoje o “emprego” é mais importante do que a profissão e é pena – Claro que os alunos cada vez sabem menos e copiam mais e lutam pelo “atestado de incompetância” mais do que pelo saber – Mas quem os ensina a ser de outro modo ?? Se calhar passarão os alunos a ensinar os prof ?? E que só estudam para t texto nas vésperas em vez de aprendizagem contínua !! E o prof só faz “prova” nas datas caliztas ??? e obrigatórias – Não terão também de discutir novos processos de saber quem é quem e o que sabe e vai aprendendo ??? Só dizer mal não chega – só queixarem-se também não – se o país encravou não vejo razão para tudo encravar embora hoje cada “serviço” público seja um verdadeiro desastre pois que muitos aproveitam para “encravar” – não faz sentido – só resta futebol e telenovelas – mas que infelicidade

    • penseantesdeescrever says:

      “Só dizer mal não chega” serve também como resposta ao que escreveu. E, já agora, aproveito para lhe sugerir que releia sempre o que escreve antes de publicar qualquer coisa, sob pena de, não o fazendo, deixar uma quantidade incrível de gralhas…

  7. chatice says:

    “Quem cala consente” … bom artigo, coloca o dedo na ferida, claro.


  8. Maria Celeste Ramos,não volte a dizer que foi professora!
    Os professores agradecem.


  9. A Educação é um problema demasiado sério para se perder tempo e energia em pequenas disputas individualistas. As consequências deste estado caótico só se mostrarão a longo prazo… Depois, será tarde demais para alterar o estado da nação, Desprezem os professores, não se preocupem com o seu bem estar e com a sua motivação intrínseca e verão no futuro as consequências destas decisões tomadas de forma precipitada. Poupar na educação é hipotecar o futuro!

Trackbacks


  1. […] Para que servem os professores? Para o presente do país! 27/06/2012 Por João Paulo Deixe um Comentário Andei uns dias com a pergunta na cabeça: “Para que servem os professores?“ […]

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.