Benjamim Niputa, ou uma estória de Natal (1)

A memória prega-nos algumas partidas, há que assumir, sobretudo quando a idade, dizem ou nós sabemos, nos traz mais depressa recordações de antanho do que as mais recentes. Há um nome científico para isso, mas não estou para ir pesquisar, não importa para a estória.

Imaginem, então, que, por entre iluminações natalícias nas ruas, as lojas abertas até mais tarde, o costumeiro bulício de gente apressada, vos vem à memória um Natal com 38 anos de idade.

E quem é Benjamim Niputa? Hoje, não sei quem é, se existe ainda, o que fez nas últimas quase quatro décadas. Se está vivo, se foi morto por um animal selvagem ou vítima de uma bala perdida numa guerra civil que o atropelou, se é feliz, se tem – ou não – filhos, se seguiu a carreira militar, se é polícia, se abraçou o apelo das suas mãos prendadas para a arte e hoje é um pacato artesão de um país africano de língua oficial portuguesa.

Há 38 anos, era um soldado negro, adstrito a uma unidade regular da tropa portuguesa aquartelada no Dondo, perto da Beira. Este macua, de gestos calmos, porventura ponderados, que sorria por tudo e por nada como se toda a sua vida se circunscrevesse e essas duas fronteiras abstractas, e fosse feliz por ser assim, veio ter comigo e disse-me que gostaria de ser ele a fazer o presépio do quartel.

Que sim, porque não?

Foi à arrecadação, trouxe um enorme pano de tenda camuflado, prendeu-o à parede da caserna que ficava em frente à porta de armas, esticou-o e ali construiu a sua oficina, preservando-a dos olhares. Durante dias, acarretou tralhas diversas: tinta, fios eléctricos, uma catana, uma faca, esferovite, lâmpadas, sei lá o que mais. Cumpridas as formalidades castrenses, refugiava-se na oficina e ali ficava horas na mais completa privacidade. Foi lá que começou a dormir. Até que, no dia 8 de Dezembro, um domingo, em honra de Nossa Senhora da Conceição – nossa Mãe, dizia ele – considerou que a obra estava pronta, poderia o comandante da Unidade descerrar o presépio.

O tenente-coronel era um homem sem grandes trejeitos militares, temente a Deus e às armas do inimigo, mas de trato fácil, comedido, apenas avesso a cabelos que tivessem um milímetro a mais da norma. E, porque as armas do inimigo estavam longe, tinham sido armazenadas em virtude do acordo assinado na Conferência de Lusaca, Deus era, por esses dias, o seu único temor. Adorá-lo era preciso, mas, de preferência, reduzido à pequenez de um presépio construído por um preto simpático, dos que não davam problemas. Além do mais, tinha um netinho pequeno, e esse Jesus far-lhe-ia lembrar, mais tarde, o último Natal sem ele. O último! E um deus bebé não nos causa qualquer temor, infunde-nos até ternura, afecto, valores que o comandante escondia por dever de ofício, mas mantinha num cantinho do peito, reservado aos avós.

Reuniu o batalhão na formatura da noite, sem ordem unida, e caminhou resoluto para a sede do Natal. Mandou apagar as luzes que fosse possível apagar, reduzindo o perímetro a um estranho lugar quase às escuras, com cinco companhias de pé, em silêncio, à espera.

Puxou o fio. Fê-lo com solenidade e reverência. Consolidando a subida da cortina improvisada, aumentavam as interjeições. Quando o presépio se mostrou, inteiro, uma salva de palmas irrompeu: a obra era soberba. Sobre um fundo iluminado, três figuras de esferovite, pintadas a negro, de perfil, representando a Sagrada família, apareceram aos olhos de todos, alguns rostos reflectindo a saudade em lágrimas furtivas, encomendadas por uma emoção irreprimível. Todos nós tínhamos mulheres, namoradas, amigas, pais, mães, avôs, avós, irmãos, amigos, um mundo à nossa espera na Europa, e estávamos longe. Muito longe.

(Continua)

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Comments

  1. palavrossavrvs says:

    Do melhor que tenho lido. Bravo.


  2. Acho que o “ni” cai com o Acordo. bom domingo

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