Há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não

Hugo Ferreira

Tomada de posse como membro do Conselho Fiscal da AAC Janeiro de 2011

Na semana em que toda a gente fala de praxe, lembrei-me do meu primeiro dia de aulas na Faculdade (2006).

Aula de Direito Romano e História do Direito Português, Professor Santos Justo, sala cheia. Subitamente, e ainda antes da chegada do Professor, uma data de histéricos invade a sala ao berros, insultando tudo e todos, exigindo que saíssemos da sala para ir para a praxe.

Os primeiros berros só intimidaram os mais frágeis e a sala permaneceu cheia. Depois vieram as ameaças: “Suas bestas, vamos ficar à porta da sala a recolher os nomes de quem não vier à praxe! Não vão ter amigos em Coimbra! Não vão usar o traje e se o usarem nós vamos rasgá-lo!”.

Aí a sala esvaziou. Fiquei eu e mais uns dois ou três colegas. Não houve aula.

À saída cercaram-me e exigiram que me identificasse para sentir na pele “as consequências dos meus actos“. Como acontece sempre que alguém não lhes baixa a cabeça, sentiram-se vexados quando questionei o seu poder e autoridade – de onde vinha? que fundamento tinha? em que valores assentava? – e quando lhes disse, cara a cara, que por mais longínqua e patética que fosse a sua tradição, não tinham legitimidade nenhuma para tratar alguém daquela forma.

Deram-me a resposta que espelha “instituição-praxe“: “és caloiro, nós somos doutores e fazes o que nós mandarmos”. Percebi que a praxe é o melhor instrumento para educar gente inteligente e qualificada – como os estudantes universitários – a obedecer, sejam quais forem as ordens, venham elas de quem vierem. Percebi que o poder nas universidades – nas academias, nos núcleos, nas associações estudantis – provém, na sua maioria, da praxe e das suas redes de contacto.Empurrei quem tinha de empurrar, quebrei o cerco, não me identifiquei e segui o meu percurso. Fiz grandes amigos na faculdade, não foi necessário rasgarem-me o traje, porque nunca senti vontade de o vestir. Nunca participei na praxe. Sempre a combati e combaterei, apesar de já não ser estudante.

Nesta fotografia, um momento pessoal de triunfo (glória?), senti o êxtase desse combate. Modéstia à parte, ela é também a prova que é possível vencer o fascismo ínsito da praxe e, simultaneamente, manter a nossa dignidade.

(publicado originalmente no Facebook, editado com autorização do autor)

Comments


  1. ora aqui está a praxe vivida ‘por dentro’. Não sei, mas acho que servirá para calar alguns defensores acérrimos da praxe de quem tive de ler comentários, digamos, pouco simpáticos ali no meu próprio post sobre a praxe. Obrigada Hugo e belo exemplo de resistência à imbecilidade de tudo isto.


    • Elisabete, eu apenas comentei o seu post relativamente às praxes por saber que mais tempo menos tempo elas vão terminar, o que me deixa verdadeiramente triste. Por causa de pessoas sem princípios e sem extremos, acaba uma tradição de anos, tradição esta que é uma forma imensa de incorporar os novos estudantes na cidade e escola para que foram estudar. O convívio da própria praxe é excelente, a união que nasce entre os próprios caloiros devido ao dito “medo/respeito” aos superiores faz com que haja maior união da turma, por exemplo.
      Igualmente, de uma certa forma, aprendemos a respeitar os mais velhos, situação que hoje em dia pouco se verifica.
      Enfim, é a minha opinião, da mesma forma que tem a sua. Tentar estabelecer novas regras no código de praxe seria uma possibilidade de diminuir situações menos próprias, mas sempre conscientes que, independentemente das possíveis alterações, na universidade existem todo o tipo de pessoas.

  2. Pedro Carvalho says:

    Sem dúvidas imbecil a forma como alguns querem impor a “sua” praxe. Mas o foto de alguém sem traje no meio de um grande grupo de estudantes trajados revela mais do que isso. É que antes de 1979 um estudante trajado não conseguiria estar, só, no meio de um grupo de estudantes contra a praxe. Nem numa sala, nem na Praça, nem a passear na alta.


    • Entrei para a Universidade em 1980 e já cá tinha nascido. Gozados eram, mas circulavam na Praça e nas aulas.

      • Pedro Carvalho says:

        por isso digo antes de 1979. Depois disso, e em 80 é a primeira queima pós luto académico, uma boa parte assumiu as tradições (incluindo a praxe) e os incidentes foram diminuindo . É bem verdade que a praxe e as tradições não justificam os abusos, mas estes são felizmente residuais num universo de milhares de alunos. A minha filha entrou este ano e no entusiasmo das actividades de praxe nunca falou nem de “obrigação” nem de “humilhação”. Terá tido uma integração diferente daquela que nós tivemos nos anos 80. Para mim pareceu-me melhor (na 1ª semana os antigos alunos estiveram exclusivamente dedicados a ajudar e só na 2ª semana tiveram actividades de praxe). Mas sobretudo liberdade de escolha (que antes de 1979 não tínhamos porque a hipótese tradições/praxe não existia)


  3. Bem – então imagine quem quiser o que era a “universidade” em 1954 onde só os meninos entravam não apenas só na universidade em geral mas em curso só do masculino e o feminino que por la vagueava andava a procura de marido rico – as meninas deviam ir para Farmácia ou para Letras (ou tocar piano e falar francês) e até medicina era grande atrevimento e até os prof na 1ª aula do 1º dia perguntava quem era a “família” coisa que não esqueço e ainda vejo aquele Vasconcellos (com 2 LL não escrever mal o nome) – e Praxe só havia em Coimbra que me lembre e, a que tive, foi absolutamente pacífica e sem andar de “negro” que só se generalizou mais tarde e nem sei quando – A xenofobia sociocultural era mais do que evidente e eu, felizmente, só percebi tarde, e ainda bem, senão teria ido para “letras” ou ficava com piores memórias daquelas que se gravam de tal forma que esquecer é impossível – Mesmo assim não “havia lugar” onde queria trabalhar pois era para os “meninos” e apenas para os meninos, pelo que fiz a vontade à sociedade que havia e, já com trabalho mesmo de que não gostava, mas tinha que ser porque eu queria que fosse, voltei à escolinha dos anormais e só então fiz o que quiz (o que não quer dizer que não houvesse, até da parte de meninas muito bem, um olhar de “mas quem vem aqui” ?? a brutalidade de hoje “evoluiu” mas não acabou – Há grande diferença entre pessoas e pessoas – creio no entanto que já há gerações que nada têm a ver com a minha e muitas outras – mas sejam o que quiserem e não me xateiem

  4. Adriana Bastos says:

    Há praxes óptimas! Cada academia tem a sua. Por isso acho de péssimo tom criticar o geral, quando só se conhece uma em particular. A praxe é sem dúvida das melhores épocas do primeiro ano, tem é que ser vivida com o espirito certo e o temperamento correcto. Tive dois anos de praxe, em academias diferentes, e consegui perceber que as tais ditas humilhações depende inteiramente do sitio onde estamos. Sou fã da praxe,, e aconselho todos a passarem por ela, desde que seja muito bem feita.


    • Há praxes óptimas? quais? onde? e porquê?
      Eu vejo praxes idiotas, e no fundo é a sua natureza: insuflar a autoridade, a submissão e a humilhação. As boas devem fazê-las lá em casa.

  5. coimbrão says:

    Fui estudante de Direito em Coimbra, onde me licenciei nos idos 1970. A praxe finou-se com o luto académico e só por obra de um bando de marginais ressuscitou. Contrariamente ao que se afirma, a praxe não une, desune e é uma actividade boçal. Como prática elitista, de classe e, por tal fascista, deverá ser erradicada e proibida expressamente por lei. Aliás, a praxe consubstancia, por via de regra o crime e, consequentemente, como tal deverá ser aferida pelos Tribunais.É algo que notoriamente atinge a dignidade humana, pelas suas práticas abjectas. Quem louvar a praxe como actividade salutar, só pode estar doente e não ter a noção do bom senso….

  6. Pedro Lopes says:

    Gosto, sempre, quando há alguém que resiste, quando há sempre alguém que diz não. Sintoma de inteligência, de verticalidade e sobretudo sintoma de Gente Livre.


  7. na covilhã o chefe da praxe tem 35 anos e 15 matriculas.querem mais?

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