Alternativas, alternadeiras e alternadores

Chema Madoz

Imaginemos alguém numa sala completamente às escuras. Na mão tem uma lanterna acesa. Mas essa lanterna está apenas a meio centímetro da parede. Como se pode adivinhar, esse alguém não vê a ponta de um corno à frente do nariz apesar de ter uma lanterna na mão. Pois bem, este é um exemplo de alguém que pergunta “qual é a alternativa? Que outro caminho existe para sairmos da crise senão empobrecer, cortar, cortar?”

A resposta é tão simples que até dói. Primeiro: dar uns passos atrás. O círculo de luz da lanterna vai ficando maior. Cada vez maior. A sala começa a ganhar os seus contornos, vemos os objectos, os móveis, quase tudo. E se apontarmos a lanterna para o tecto no meio da sala tudo se revela. Simples, não?

Como o Estado foi desmantelado, destruído, para além dos impostos não tem outras fontes de rendimento. Daí o “colossal aumento”. Mas, como não resultou, tivemos o inconsequente corte nos salários e nas pensões. Qualquer merceeiro faria isto. É o método das alternadeiras.

Então, recuemos uns passos para aumentar o círculo de luz. A alternativa é recuperar o património roubado (ou em novilíngua, privatizado). Um exemplo apenas. Lembremo-nos dos alternadores. E se a EDP voltasse para as mãos do Estado? Dá para imaginar a enorme fonte de receita?

O que ganhámos com a privatização da EDP? Nada. Espera, ganhámos a electricidade mais cara da Europa. Sim, que é para não pensarem que somos pobres. O tanas que somos! Daí o “temos de empobrecer!”. A Europa e o mundo inteiro que não pensem que somos pobres, pá. Temos a factura da luz para o provar.

O último roubo, quer dizer, “privatização”, deu-se nos correios. Nem os EUA, pátria da Sarah Palin (Maçães, ó p’ra mim a lembrar a tua guru), foram tão longe. No ano passado deu um lucro de 45 milhões. O que faz o grupo dos ganapos? Entrega aos amigos. Ou ao patrão, se nos lembrarmos do Moedas.

Andava o Goldman pela rua Augusta quando se cruza, por coincidência, com o Carlitos. Atenção, foi pura coincidência, repito.

– Então, sr. Goldman, por aqui?
– Olá Carlitos, sim, vim aqui à baixa fazer umas comprinhas. Que recomendas?
– Olhe, ouvi dizer que os CTT estão a um bom preço. Parece-me um bom negócio. O saco do sr. Goldman vai ficar cheio. Garanto-lhe.
– Oh Carlitos, obrigado pelo conselho. Foste sempre um dos meus funcionários preferidos. Quando deixares de estar no coiso, como é que se chama aquilo?
– Governo?
– Isso. Quando deixares o governo, já sabes, liga aqui ao sr. Goldman. Entendido?
– Sim, chefe, será a primeira pessoa a quem ligarei.

Ainda não foi há muito tempo que o crime de lesa-pátria tinha como sentença a pena capital. Mas a memória é curta. Aliás, basta olhar para as últimas sondagens para perceber isso.

[imagem: Chema Madoz]

Comments

  1. portela says:

    É o que dá pôr a lanterna na mão, de quem não sabe o que fazer com ela.
    .
    Alguém lhe faça chegar que: candeia que vai à frente alumia duas vezes.
    .
    Não adianta nada, mas enfim.

    • portela says:

      Com tanto malandro à solta.
      Mas que mal teria feito a tesoura?

      • portela says:

        A propósito de geradores de corrente elétrica, permita-me que recorde o Dinamotor, era dínamo e alternador. Foi utilizado nas centrais telefónicas electremecânicas de selectores de coordenadas tipo 5005 da Plessey AEP.
        Recebiam 50 volts CC e forneciam 75 AC de 25 cps. Era esta corrente que fazia tocar os telefones dos assinantes dos CTT/TLP, nas últimas décadas do século XX.
        Bons tempos.


    • A tesoura andou a cortar o que não devia 😉


  2. Muito pensamento positivo da sua parte… Aquele grupo de radicais não tem competência para raciocínios muito elaborados. Aquilo é gente que só anda num sentido e todos atrás uns dos outros. Mandaram-nos ir em frente e eles vão. Sistematicamente batem com a cabeça na parede mas não retiram conclusões disso. Dão um passo atrás e atiram-se de novo contra a parede. E vão estar nisto até ao fim, a parede já toda escavacada e eles sem perceberem porquê.

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