Os mercados estão a reagir bem

O único momento do dia em que ouço notícias sobre mercados, taxas de juro e bolsas é quando estou a tentar encontrar o sabonete com os olhos cheios da espuma do champô e não consigo mudar de estação de rádio. Mas tem sido suficiente para dar-me conta de que o jargão jornalístico para explicar as coisas inexplicáveis que se passam nesse campo passa pela sua humanização. Há dias em que “os mercados estão a reagir bem”, e se eu estiver ainda ensonada quase que me alegro, como se fosse um doente a quem sigo com apreensão. Outras vezes informam-me que “na Europa, o sentimento é misto”. Ora isto, sendo vago, transmite uma certa angústia e convoca a solidariedade, ou não fosse tão humano isso de alimentar sentimentos mistos em relação a uma mesma coisa.

Às vezes preocupam-me desnecessariamente porque me dizem que “os indicadores económicos alimentam receios”, mas não me dizem de quem nem porquê. Tão vagos que outras vezes se ficam por um “lá fora [onde?], “as notícias são desanimadoras e aumentam a cautela”. E eu, que ainda nem saí lá fora, só por causa disto já olho para onde ponho os pés molhados ao sair do duche, que a vida de repente parece-me uma coisa perigosa.

Mas talvez o que mais tenha ouvido até agora, e que todos os dias me faz evocar imagens de naufrágios (eu fui uma grande consumidora de filmes de piratas), é o catastrófico “Lisboa perde mais de 1% arrastada pela banca”. Penso sempre no cais das colunas a afundar-se nas águas, arrastado pela corda de um Titanic monstruoso, com o símbolo do euro pintado no deque. E são estas coisas que me levam a pensar que os noticiários de economia não são para pessoas como eu.

Por outro lado, para quem gosta de inventar histórias, é muito atractiva essa tentativa de humanização. Quando ouço que as taxas Euribor a três meses são um “barómetro do apetite da banca pelo risco”, imagino a banca, essa entidade imprecisa, como um Jabba the Hutt (filmes de piratas e de cavaleiros Jedi, sim, agora já sabem) de boca voraz, a salivar por cima do risco com a língua pegajosa de taxas de juro.

E a piada disto, qual é, afinal? É que enquanto se humanizam os mercados, com adjectivos e verbos carinhosamente escolhidos, eufemizam-se -se os dramas humanos, e estou a falar de dramas a sério – desemprego, fome, suicídio – chamando-lhes ajustamentos, calibragens, e até, havendo engenho e arte, inconseguimentos. De brincar com palavras eu também gosto, mas isto parece-me feio, mais feio que o Jabba.

Comments

  1. L. Rodrigues says:

    É um dos fenómenos ignorados e insidiosos do media. Não há noticiário que não nos dê conta das oscilações das bolsas. Como se isso tivesse alguma relevância para 99,9% das pessoas. Ou pior, como se boas notícias para meia dúzia de accionistas não signifiquem frequentemente más notícias para milhares de famílias, dadas sempre como se fosse uma coisa do catatau.

  2. portela says:

    São os deuses da modernidade. Mas enquanto os da idade média cobravam o dízimo, estes levam couro e cabelo. E se estás mal emigra, diz o senhor reinante.

  3. No Ao says:

    Genial Carla, genial !!! É isso mesmo. 🙂
    ( A Personificação dos Mercados, a personificação das empresas… Tem tudo a vêr com o estatuto “Empresa”, em que a empresa assume os mesmos direitos que “Humanos”. )
    Com dores e tudo! 🙂

  4. doorstep says:

    Texto magistral!

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