As linhas que nos separam deles

Linha que separa

Há uma linha que separa a mentira da verdade. Que separa a merda da dignidade. Que separa os direitos adquiridos do “sistema” dos direitos facilmente suprimidos da “plebe”. Que separa a propaganda do mundo real. A imagem que ilustra este post poderá ferir susceptibilidades. Ela representa mais um exemplo que retrata a forma como este governo gere as poucas moedas que afirma ter, cortando rendimentos aos “segmentos” sem “poder negocial” enquanto mantém privilégios totalmente incoerentes com a fanática narrativa da austeridade.

Fazendo uso dessa mesma narrativa, se o país não tem dinheiro para “viver acima das suas possibilidades”, o que será que torna a elite dirigente imune à sua própria receita? Será que continua a fazer sentido manter todas as ajudas de custo e outros benefícios que os seus salários, já muito acima da média, podem perfeitamente cobrir e continuar a garantir-lhes um elevado nível de vida? Será que faz sentido que um governante ou deputado, que nunca ganha abaixo dos 3000€, seja subsidiado para viver em Lisboa, regressar a casa, andar de carro, almoçar em restaurantes que não são o da diária a 3,5€ e dormir em hotéis que não são o Ibis ou uma qualquer “pensão estrela”?

A mim parece-me que há aqui algo errado. Já que andamos numa de fazer referendos de brincar, podíamos sugerir outro, desta vez para questionar os portugueses sobre a manutenção destes e de tantos outros privilégios, que não só não se justificam como em alguns casos chegam a ser obscenos. Um exemplo recente? Agostinho Branquinho, o “experiente” deputado do lobby da saúde, promovido recentemente a secretário de Estado da Segurança Social, aufere um salário que rondará os 4500 euros, recebe uma imensidão de ajudas de custo, tem viatura/combustível pago e, como se não fosse suficiente, ainda tem uma mesada do tio Passos para viver em Lisboa: 753 míseros euros. E não estamos propriamente a falar de uma excepção. O que não falta em Lisboa são “funcionários públicos” de luxo.

Existem muitas linhas que separam muitas coisas em Portugal. Mas a que separa o país real da elite política que o comanda, e que representa a negação daquilo que exige ao país, é uma das faces do “sistema”, algo que ninguém sabe muito bem o que é mas do qual conhece algumas caras e “procedimentos”. Essa linha revela-nos duas tristes realidades, cada vez mais óbvias: por um lado, e apesar de toda a informação de que dispomos, somos uma sociedade apática, onde a abstenção pode ganhar qualquer eleição mas onde os brandos costumes nos prendem ao protesto do sofá, por muita escumalha corrupta que se passeie alegremente por aí com o nosso dinheiro no bolso. Por outro lado, o nível de pouca vergonha atingiu já um limite tal, que muitos começam a assimilá-la como algo normal e, pior, “aceitável”. O que é ainda mais assustador. É o caminhar voluntariamente para os braços de um novo modelo de ditadura, travestido de democracia representativa, onde a imposição pela força é substituída pela mais simples e consentida submissão. Parece que já não podemos regressar “à ilusão do antes“. Será este “o fim da história e o último homem”?

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