Nessie e o caquesseitão

Se acordarem a meio da noite com um pesadelo terrível, o coração aos pulos, o pijama encharcado em suor, o lençol enrolado entre pernas e braços, depois de terem sido perseguidos por um animal horrendo, aposto convosco que esse animal não era leão nem cobra nem jacaré. Era, sim, com toda a certeza, um caquesseitão.

É pouco provável, porém, que eu tenha pesadelos com essas criaturas, para minha grande fortuna, porque, aqui me confesso, tenho uma paixão por monstros mitológicos, criaturas nascidas dos confins dos medos e vencidas pela força da narrativa.

Aqui entre nós, eu poderia ter sido criptozoóloga, profissão que já me teria deixado morrer à fome por esta altura, mas que talvez me desse algumas alegrias, como deve ter dado a quem conseguiu provar que o dragão-de-komodo não era invenção de meia dúzia de cabeças delirantes, como por muito tempo se pensou, mas criatura de carne e osso, cuja existência bonacheirona, livre de predadores, em certas ilhas indonésias, possibilitou um crescimento tão formidável. Por outro lado, descobrir a existência real de uma criatura que se pensava mitológica também pode ser frustrante e limitador. Se a biologia é fascinante, os mitos… ah, nem vos conto.

A recente notícia de que o Nessie – a tímida e cordata criatura que há anos habita o lago Ness, fugidia às câmaras, esperta o suficiente para escapar até ao maior detective de todos os tempos, mas inocente de qualquer tentativa de abocanhamento de um turista bazofeiro, ou de silenciar a algazarra de escoceses bêbedos com um golpe da sua cauda pré-histórica – não foi avistado durante todo o ano de 2013 faz-me temer o pior. Porque um criptozoólogo, ainda que amador, não precisa de avistar as espécies a que se dedica para senti-las tão suas quanto o são o cão ou o gato que tem lá em casa. Suas não porque lhe pertençam, mas por reconhecer a sua prodigiosa, inexplicável, incerta, e por isso mesmo palpitante, existência fabulada.

Como criptozoóloga amadora, tenho as minhas preferências e não são inconfessáveis. Interessam-me o Basilisco, que mata com o olhar venenoso, e de quem Voltaire disse que apenas podia ser tocado por mulheres; o Dragão da Cólquida, cujo exemplar mais ilustre foi Ladão, que tinha cem cabeças e cada uma falava uma língua diferente; o Grifo, inimigo do Basilisco, símbolo de justiça e inteligência. Isto já não para falar de criaturas mais próximas do humano, como o estupendo Golem, criatura a que o Rabino Loew deu vida através do poder cabalístico da palavra, ou até o Trasgo transmontano, nossa versão benigna de monstro, que se limita a fazer asneiras e a pregar partidas, e que é conhecido pelo seu gorro vermelho. Mas nem por isso desdenho ciclopes, sereias, unicórnios, elfos, o Pé-Grande ou o Chupa-cabras.

Sem notícias de Nessie, nós, os criptozoólogos amadores, imaginamos o pior. E é certo que, tal como os animais de cuja existência ninguém duvida, também os mitológicos podem extinguir-se, habitualmente por falta de imaginação de quem partilha habitat com eles, ou por cansaço de serem descridos por longos anos.  Isto aconteceu, de resto, com o caquesseitão, de que há tempos se falou, a propósito de mais um fragmento da nossa história comum vendida a coleccionadores estrangeiros. É criatura com muito menos notoriedade que as anteriores, é certo, mas muito nossa, porque a descrição que dele conhecemos irrompeu do génio criativo, ouso dizer que mais aficionado ao mito do que à biologia, que foi Fernão Mendes Pinto, e que dele contou, a propósito da sua passagem pela ilha de Samatra:

Vimos aqui também uma muito nova maneira, e estranha feição de bichos, a que os naturais da terra chamam caquesseitão, do tamanho de uma grande pata, muito pretos, conchados pelas costas, com uma ordem de espinhos pelo fio do lombo, do comprimento de uma pena de escrever, e com asas da feição das do morcego, com pescoço de cobra, e uma unha a modo de esporão de galo na testa, com o rabo muito comprido, pintado de verde e preto, como são os lagartos desta terra.

O caquesseitão é introduzido no capítulo XIV da Peregrinação e quase passa despercebido, porque por essa altura já nada nos parece estranho. Mas, curiosamente, depois de Fernão Mendes Pinto não parece ter havido mais avistamentos desta estranha feição de bicho, ao contrário do que acontece com o Nessie, que já foi visto, fotografado, filmado, convertido em personagem de livros e filmes. Por isso imagino que a existência do caquesseitão se remete agora aos pesadelos de que não nos sobra mais, ao acordar, do que um rumor de folhagem a agitar-se, um ramo partido sob uma pata, uma sombra a abater-se sobre nós, e o terrífico assombro que nos faz despertar. Aos monstros míticos em que deixamos de acreditar apenas resta essa existência crepuscular, não mais do que matéria dos sonhos onde, é sabido, não se morre, e onde se pode desfrutar, sem freios, do medo profundo, porque se sabe que o dia o esconjurará.

Já do Nessie, com o seu perfil meditativo e gosto pelo recolhimento, hei-de ter saudades.

Comments

  1. Caralhota says:

    Mas temos um excelentíssimo cavaquesseitão.

  2. José Meireles Graça says:

    Nas dobras do texto há uma tese, e essa não compro. Mas como a Carla escreve muitíssimo bem, e isso é raro, decerto não lhe desagradará saber que tem admiradores – pelo menos este – que com frequência partilham os seus textos.


    • Fico com curiosidade acerca da tese, admito que sim, mas deixo-lhe o espaço a que tem direito para interpretar estas linhas como entender. E agradeço a partilha, claro.

  3. Maria de Almeida says:

    Começa a ser repetitivo dizer que escreves muito bem e que o texto está excelente. Mas digo na mesma 🙂

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