Elas são cinco milhões…*

… quinhentas e quinze mil quinhentas e setenta e oito, segundo os últimos dados do Instituto Nacional de Estatística (2011). Elas, onde me incluo, são as mulheres portuguesas. Representam já quase metade da população activa nacional. Sempre representaram o sustentáculo da reprodução social e económica através do trabalho que desempenham no interior da família. e que está longe de ser reconhecido ou valorizado tanto em termos económicos como sociais.

A propósito da condição feminina, há cerca de 40 anos, Maria Velho da Costa escreveu um texto notável que começava justamente por focar esse trabalho invisível que a maior parte de nós desenvolve. Dizia então: “Elas são quatro milhões, o dia nasce, elas acendem o lume. Elas cortam o pão e aquecem o café. Elas picam cebolas e descascam batatas. Elas chamam ainda escuro os homens e os animais e as crianças (…)”. E continuava, passando para o labor de reprodução da força de trabalho e o determinismo biológico que tem moldado a situação social da mulher em toda a parte do mundo – a maternidade: “Elas vão à parteira que lhes diz que já vai adiantado. Elas alargam o cós das saias. Elas choram a vomitar na pia. Elas limpam a pia. Elas talham cueiros. (…)”.

Este texto magnífico termina com a referência ao papel da mulher na esfera do trabalho visível, i.e., no âmbito da produção económica: “Elas sobem para cima de um caixote, que ainda são pequenas para chegar à bancada de escamar o peixe. (…). Elas acertam em duzentos casacos a postura da manga onde cravar o botão (…). Elas carregam no botão da caixa e fazem quinhentos trocos miúdos (…). Elas picam bilhetes metidas numa caixa de vidro. Elas batem à máquina palavras que não entendem. Elas arquivam por ordem alfabética duas mil”.

Desde há 30 ou 40 anos, a condição feminina em Portugal alterou-se, embora não substancialmente. Ainda nos revemos no texto que citei. As tarefas domésticas e as características do emprego feminino mantêm-se em grande medida. Os paradoxos da situação social da mulher também. Se em termos do enquadramento jurídico-constitucional da condição feminina vivemos hoje num dos países mais avançados do mundo, em termos da materialização desse quadro permanecemos entre os mais atrasados. À força da lei sobrepõe-se a força dos valores e dos comportamentos que, lamentavelmente, não se modificam apenas por decreto.

Isto mesmo é demonstrado por um trabalho das sociólogas Karin Wall e Lígia Amâncio (2007) em que, entre outros aspectos reveladores das persistentes desigualdades sexuais, é referido que as mulheres portuguesas gastam o triplo do tempo (por comparação com os homens) no desempenho das tarefas domésticas. Também a socióloga Virgínia Ferreira, num trabalho de 2004, enfatiza a condição paradoxal da mulher portuguesa, que não se esgota na dicotomia entre o quadro legal e a realidade quotidiana, mas que a ultrapassa nas mais diversas esferas em que a mulher actua. Desde logo em termos da formação escolar, do mercado de trabalho e das características do emprego. Somos hoje um dos países da Europa com maior feminização do ensino superior. As mulheres ultrapassam já os homens na frequência dos cursos superiores, mesmo em áreas tradicionalmente consideradas um reduto masculino. Isto supõe que as mulheres detêm maiores qualificações que os homens. Somos igualmente um dos países europeus com actividade feminina mais elevada. No entanto, em Portugal uma boa parte da população activa feminina emprega-se em actividades menos valorizadas socialmente. Eis o primeiro paradoxo.

O segundo paradoxo, relacionado intimamente com o anterior, associa-se à segregação profissional, sendo que o factor que mais parece contribuir para esta situação assenta nas diferenças salariais entre homens e mulheres. Segundo dados do Eurostat, Portugal é um dos países da UE onde se verifica maior diferença salarial entre a força de trabalho masculina e feminina. Em Portugal as mulheres auferem cerca de 30% menos que os trabalhadores do sexo masculino. Esta situação está também relacionada com a maior percentagem de mulheres que têm uma actividade a tempo parcial. Se observarmos a estrutura do emprego feminino em Portugal (apesar de se observar uma grande e crescente feminização nas profissões técnico-científicas, cerca de 20% das mulheres que trabalham são empregadas domésticas ou porteiras, 25% são trabalhadoras indiferenciadas da indústria e cerca de 15% trabalham na agricultura) compreendemos melhor as razões da sua segregação profissional e da maior precariedade do seu emprego.

Se por um lado, é legítimo afirmar que a crescente entrada da mulher no mercado de trabalho representa um significativo avanço no processo de emancipação, esse avanço está, por outro lado, comprometido pelo facto de o trabalho feminino se realizar, em boa parte dos casos, a tempo parcial, possuir um carácter precário e uma natureza informal. Se o trabalho tem contribuído parcialmente para a emancipação feminina, ele também concorre para a fragilização da condição da mulher. Especificamente em períodos de crise económica, como aquele que vivemos, as mulheres são uma das principais categorias de risco de pobreza e exclusão social.

Estes aspectos, a par com muitos outros de diversas naturezas, demonstram que a igualdade sexual à luz da lei não é suficiente para garantir a igualdade de facto, à luz do quotidiano. É sobretudo por estas e por todas as outras razões que não cabem nesta crónica (algumas delas inadmissíveis do ponto de vista dos direitos humanos) que a luta das mulheres não pode ser uma tarefa para recordar num só dia e para ser assinalada apenas com flores. Como no belo poema, de 1911, de James  Oppenheim, intitulado ‘Bread and Roses’: ‘the rising of the women means the rising of us all’. **

* mais um texto adaptado de uma crónica em tempos escrita para o Diário de Aveiro, atualizada agora.

** Uma das adaptações musicais deste poema pode ser ouvida aqui

Comments


  1. Passando aqui na minha terra ou quando vou a Lisboa ou a um grande shopping diria que devem ser muito mais de 50% (80%?) se olharmos a quantidade de lojas de roupas, sapatos, joias,cabeleireiros.. que vejo para homem e mulher.Não me passa pela cabeça que os lojistas sejam todos masoquistas.


  2. acho que o INE vai passar a usar esse critério, muito mais objetivo….


  3. Isso é cá dentro, mas aqui ao lado há mais.


  4. Os homens continuam a negar o óbvio – vá a um supermercado BELMIRO e veja que está atrás de um balcão e nas caixas – as mulheres até tiveram de recorrer a conduzir TIR e a serem estivadoras e mesmo bombeiras – as “fr
    ágeis” mulheres que quando na guerra colonial e lhe morreram irmãos e pais e maridos tiveram de ir para a rua trabalhar e, aí sim, começaram a não ter mêdo de confrontar os homens – eles coitadinhos é que têm tanto mêdo – mas para ser como a ministra da justiçasse e presidente da R e ministra da agricultura já agora odeio galinhas – mas não encontro gestoras de Bancos nem Directoras de Hospitais nem sequer de jornais diários – nem chefes de divisão de repartição pública e muito menos Directoras-gerais – têm de dizer aos homens para aprender a parir e limpar o pó e passar a ferro as camisas e calças a não ser que tenham dinheiro para ir ao cinqu’à sec – ah mas são grandes cozinheiros do Guiness e gestoras de grandes Fábricas – pois é – ando muito enganada – o que me vale é que toco piano e falo francês e bordados e renda e mesmo tapetes de Arraiolos – senão estava lixada – grande escritores e grandes TUDO – grandes “educadores” e dão mama aos nascidos e quando berram à noite lá estão a dar de mamar


  5. AH esqueci que não me recordo de mulher DIRECTORA da ONU e não sei se há alguma Reitora em alguma universidade pública ou privada mas é claro que trabalham em fábricas de armamento militar para os homens fazerem guerras – não as vejo DIRECTORAS de televisão nem Rádio – pois não há mulheres que chegue – nunca vi nenhum homem mulher-dias e de limpeza de lojas – ai tanta coisa que não vi ainda – nem terei tempo de ver – não conheço nenhuma maestrina a não ser a Carneiro filha de eis ministro educação – não conheço muitas presidentes de Cãmara – mas já há juízas vá lá – e no entanto há mais de 50% de mulheres no mundo – cada vez há mais meninas nas universidades do que rapazolas e depois de diplomadas não sei onde se empregam se é que empregam – etc – primeira ministra só me lembro da Pintassilgo e não ficou lá mais de 100 dias e deram cabo dela e morreu à volta dos 50 anos – não conheço presidenta a não ser a odiosa Dilma Roussef – etc – não sei se há mulheres generalas (ainda em pois não gosto de guerra de matadores) mas conheço muitas psiquiatras e sociólogas para tratar (também) homens pirados até pela guerra dos seus iguais em género – não inventem celebrar o DIA DO HOMEM já agora tvi24H-02:00H- 09 março 2014- estou a ver o programa e a descrção de malformações congénitas e cancros em Falujah devido a vestígios de urânio empobrecido das armas americanas – boa é de HOMEM – cérebros mal desenvolvidos e coronários – Robert Fisk jornalista há 30 anos cobre as desgraças provocadas pelos USA nas populações e matam os bebés à nascença com tais cancros – coitados dos USA – um congressista relata que os militares fazem relatórios e OMITEM o que viram e fazem e sabem – bem agora vem a revolução de Atenas – chega – homens coitadecos não deixam viver nem ar que se possa respirar – os falcões do mundo miseráveis – são MULHERES ?? segue algo interessante que creio já vi a dificuldade de chineses arranjarem mulher – vou a uma feira as mês e levam foto do filhinho que não sabe nem arranjar mulher – e india é o mesmo já vi – para mais homens anormais bastam os do governo do Meu pais – mas andam a comprar a europa – e daqui já comeram muito com paciência de xinês trouxeram “a loja dos 300” agora a TAP e EDP e Condomínios ricos de Lisboa – PORREIRO PÁ

    • Grrr... says:

      Não percebi se a Sra. pensa por sêr “Mulher” que tem mais direitos que os outros, ou se quer apenas e só expor a sua dôr, da qual eu nada tenho a vêr até porque acredito numa sociedade Igualitária, mas em que todos vão ao W.C. sozinhos! 🙂
      Se a Sra. por outro lado quiser calçar as “calças”, eu pouco ou nada posso fazêr. O que referiu é verdade, mas não toda, pois o facto de sêr mulher não lhe confere qualidades além daquelas que a Sra. bem sabe, e que me escuso de enunciar.

      Posto isto, sem a Minha mãe eu não tinha nascido, mas sem o meu Pai era o mesmo.
      Pelo respeito que possuo pelo papel das mulheres, escuso-me a rebatêr o resto.
      Igualdade sim, mas não te metas em saltos altos… 🙂


  6. Ainda bem que escrevo mal – assim a raiva vai saindo sem me maltratar o fígado – os aventares devem estar com uma raiva dos diabos com o que escrevo – pois bem homens – eduquem os “amigos”

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