O Rebuliço

Acordo para a semi-escuridão do quarto. Só umas quantas barras da persiana estão descerradas, e pouca luz deixam entrar. O meu quarto é ao fundo do corredor, e todos os sons da casa parecem viajar até à minha porta entreaberta, acidentalmente amplificados por um qualquer jogo de pingue-pongue que persistem em jogar paredes fora pelo caminho. Foi isso que me acordou, em vez do habitual chamamento da minha mãe, São sete horas, anda, levanta-te, ao mesmo tempo que ergue a persiana para deixar entrar as manhãs. Fico por momentos a observar os pontinhos de luz na parede, em fileirinhas alinhadas e bem comportadas, e a tentar decifrar o que se estará a passar. Olho para o meu relógio: o ponteiro ainda nem sequer bateu nas sete.

O bulício desusado chega-me em sussurros e passadas, para cá e para lá e de lá para cá, os chinelos arrastados do meu pai, as chinelitas apressadas da minha mãe, o raspar de dedos na porta da rua que se fecha e se abre de mansinho. Vozes. A primeira coisa que me lembra é que a minha avó terá morrido. Só pode ter sido coisa qualquer assim.

Aproximo-me devagar, corredor fora. É o vizinho de cima. A porta abre-se e fecha-se outra vez. Detenho-me antes de virar a esquina. Reviro as palavras que ouço, sacudo-as e espremo-as, exijo-lhes sentido, respostas. Já sou suficientemente grande para perceber. Há muito tempo que percebo muita coisa, a bem dizer. E fico-me por ali, naquele canto, encostada à parede, especada. Não tanto menina marota a ouvir a conversa dos adultos, quanto jovem estupefacta a tentar fazer sentido da realidade.

Do que eu me lembro melhor desde sempre é do medo. Medo em tudo, como que a pingar das coisas, das palavras, dos gestos, das paredes. Medo da própria voz, do próprio coração, da própria mão. Das sombras. Ali encostada àquele canto do corredor, lembro-me dos dias e das noites dos tempos da aldeia, o velho rádio que o tio-avô sintonizava pacientemente, e mais tarde a pequenina televisão em segunda mão que o meu pai trouxera da cidade. Funcionava, o mais das vezes, à força de palmadinhas nas costas, que a tia dava e o tio troçava, pois que até o aparelhómetro, enfim.

Lembro-me daqueles infindáveis róis de mensagens, para a minha senhora mãe, meu pai, a minha irmã, irmãos, a minha madrinha, a minha mulher, para as minhas filhas, os meus filhos, a minha noiva, para os meus pais, para a minha família, a comadre e o compadre, os vizinhos, estou bem.

E nós por cá todos bem.

E lembro-me depois dos infindáveis róis dos ‘desaparecidos’. E dos outros. Dos nomes que um dia se ouviam a dizer que estavam bem, e no outro dia se viam, letras sem vida, no pequeno écran. Quantos homens com o mesmo nome exactamente pode uma aldeia ter na mesma guerra, quisera eu um dia saber. Quantos? Vivos hoje, mortos amanhã. A menina tem razão, ó Zita… Fora assim que eu aprendera o que era uma guerra. E o que era aquela guerra.

E no Natal era cem vezes pior. Sobretudo naqueles anos em que nos calhou a nós a vez de sermos os irmãos, pais, tios, sobrinhos, afilhados, padrinhos, madrinhas. De olhos longos e morosos e corações nas mãos.

Foram os militares que se sublevaram outra vez, diz o vizinho. Talvez seja desta, diz o meu pai. Pelo tom de voz da minha mãe, vejo-lhe o característico encolher do ombro, quase imperceptível, aquele jeito ímpar que ela tinha quando não concordava com qualquer coisa. Ou talvez seja o mesmo outra vez; como no mês passado. Ouço o clique-cloque do botãozito do rádio. Deixo-me ficar encostada à parede. A fazer sentido das coisas.

Lembro-me de uma aldeia povoada sobretudo de mulheres vestidas de negro e de velhos e criançada. De campos deixados a mato, porque partiam os homens a salto, fugidos à guerra e à pobreza. Lembro-me das candeias do que quer que fosse a que se deitasse a mão que ardesse no pavio, e da luz amarelenta e mal cheirosa. Lembro-me das mulheres com os enormes cântaros da água à cabeça e as enormes trouxas da roupa, de pontas atadas como orelhas de coelho, vindas da fonte ao cair do dia.

Lembro-me do barulho das botas no empedrado quando tinham vindo prender o rapaz que o padre denunciara. Lembro-me das sopas de grão com gorgulho e massa negra; e do leite da Cáritas, distribuído por um energúmeno qualquer empoleirado no tabuleiro de uma camionete, sob a direcção de uma mulher adunca e retesada e austera e igualmente vestida de negro, a quem a avó chamava “a coruja da Acção Católica”. Eu olhava-lhe para a cara, e achava que ela se pareceria mais com um corvo, ou até mesmo uma ave de rapina qualquer. Um martaranho dos que vinham apanhar as galinhas e os cordeiritos. Mas o medo. Como não lembrar o medo que se aprende de tão cedo, de tão pequeno? Vai-se à missa? E a menina, almoça na escola? E vai à catequese? E aceita-se o leite e a farinha? E se não se vai, não se come, não se aceita, não se faz, não se parece? O medo, sempre. Porque o que importa à mulher de César é ter a aparência. De inocente. De não dar nas vistas. De pouca esperteza e menor sabedoria. Nas aparências, ensinam-me, reside em grande parte a segurança.

E lembro-me, à noite, da porta da salita fechada de encontro ao escuro e ao silêncio da noite. De encontro aos ouvidos das paredes. Porque nunca se sabe. Ó menina, essas coisas não se dizem assim de alto, que ainda lhe chamam bolchevique e aí é que a porca torce o rabo. Lembro-me da voz de veludo do locutor da BBC. Lembro-me de como o volume se baixava, por precaução, e das conversas depois dos noticiários. Lembro-me de como as vozes se baixavam, de dia também e a condizer com o rádio à noite, de como as frases se deixavam a meio, as coisas subentendidas no meio de olhares nos olhos uns dos outros. O medo. Porque até o empedrado das ruas tem ouvidos. E nunca se sabe o que está do outro lado das paredes. Qual o diabo por detrás das portas. E os chinelos do meu pai, como que a adivinharem-me as memórias, arrastam-se até à porta da rua. Ouve-se o elevador.

E agora o que fazemos? Os vizinhos voltam. A conversa reabre-se. Os militares fizeram a revolução. Não é uma revolução, é um golpe de estado. É um golpe militar. Golpes militares eram má ideia. De que lado? De que cor? Ninguém percebe bem. Mas os militares, e o governo. Será o Spínola? Depois dos últimos meses? É o Spínola de certeza. Ou o Costa Gomes, é que ele também… E isso é coisa boa ou coisa má? Mas o nome dele não se ouve. Seja lá o que for, dizem finalmente, o regime foi deposto. Parece. Ao que tudo indica. Ai, que eles não se hão-de deixar ir, assim tão facilmente… Ainda há-de sair uma qualquer outra unidade de artilharia pesada, e começar tudo aos tiros. Contam-se pelos dedos as unidades de cada arma. Especula-se. E sempre o medo. Mas são os militares. E não se sabe bem o que é que estes tipos querem. Oh, é tudo a ver com a guerra em África… Silêncio. Não é nada, diz uma das raparigas, é político, cantaram o Grândola. E a rádio. E…

E o medo, sempre. Pois, é que são os militares, diz o pai dela para o meu. Acabamos noutra ditadura, outra junta. E agora o que fazemos? Dizem que fiquemos em casa. Isso é só para Lisboa, diz a minha mãe. Outros dizem para continuar como ‘normalmente’. O que é o ‘normal’? Já há mais notícias? E a televisão? Fazem-se perguntas, anseiam-se respostas. E o medo. As raparigas do andar de cima decidem ir à universidade, como se nada fosse e não soubessem de nada. Ver como as coisas param. Como paira a revolução. Mas vocês acham que os tanques chegam cá? Mas e o quartel, não está envolvido? Não. Sim. Não? Ná. Quem sabe.

No meu canto, eu vou-me lembrando das coisas, enquanto ninguém se lembra de mim. Decerto que seja o que for que está a acontecer, vai pôr fim a todas estas coisas de que me lembro tão bem. Houve uns anos que tivemos hóspedes. Raparigas universitárias. Para uma delas aquela manhã de Abril chegou tarde demais. Foi ela em quem pensei primeiro. De como costumava trazer os panfletos ‘subversivos’ dobrados em quadradinhos minúsculos escondidos no soutien, ou no forro do cano das botas altas, ou no do casaco, ou no bocadinho descosido na cintura das calças de bombazine que usava. De como, gelosias cerradas contra olhares indiscretos, os folhetos se desembrulhavam de 64 dobras para pequenas folhas coloridas que se alisavam de encontro ao balcão da cozinha, as cabeças que convergiam como que em pinha cerrada, para logo logo serem incinerados na pia e as cinzas lavadas ralo abaixo.

Lembra-me das coisas que ela me ensinara, de mansinho, e por entre o pentear dos meus cabelos e o pintar-me as unhas dos dedos mindinhos das cores dos rebuçados. As cantigas do Zeca Afonso que me ensinara a cantar e me explicara o que queriam dizer, enquanto me ensinava como se punha sombra nos olhos, batom nos lábios. Dos protestos, que eu era demasiado pequena para ‘essas coisas’ e para maquilhagem e vernizes também, e do ‘Que disparate!’ dela, que de pequenino é que se começa a torcer o pepino. Acho que fora nessa noite, a noite do Zeca Afonso, a última vez que a víramos. Lembro-me da agitação e da excitação, coisa grossa andava pelo ar. Esperavam carga policial. E a ‘pide’.

Lembro-me de ela sair numa noite, nessa noite por força e tanto quanto eu sei, airosa e desenvolta, destemida, a deixar como sempre o longo cabelo loiro perfumado para trás. Acho que sim, digo-me encostada à parede, fora numa noite em que algo importante estava para acontecer, uma noite em que se havia respirado o mesmo sobressalto que andava nessa manhã pelo ar. E para uma coisa tão grande como uma jovem mulher desaparecer para sempre, só mesmo uma noite de importância mítica poderá servir. O poder das mitologias é grande: as deles, e as nossas, para não morrermos de desalento. Mas tanta coisa acontecia sempre de repente, e mesmo se esperada. E sempre tanto medo. Mas talvez agora a Gracinha voltasse. Talvez a soltassem. Foi o que as raparigas de cima disseram, não foi, que iam soltar todos os presos políticos e… Só muito mais tarde, anos passados, soube o que lhe haviam feito, e que ela não conseguira finalmente viver com isso.

Acho melhor ela não ir ao liceu hoje. E foi nesse momento que eu me desencostei da parede e virei a esquina. Mas porquê? Quis saber, insistentemente. Porquê? Não dizem para se continuar como normalmente? Mas ninguém me respondeu. O que é o ‘normal’, naquele dia, a partir daí? Na sala, a conversa e as considerações giram em torno de quem ficaria em casa nesse dia, e quem sairia à rua. O que cada uma dessas escolhas significaria. Que mensagem transmitiria. Se ainda haverá quem aponte e reporte. Oh, que eles ainda hão-de andar por aí! Diz alguém. Hão-de ser todos presos! Exclama uma das raparigas. Isso é se se souber quem são, ‘pides’ e ‘bufos’ e… Calam-se todos. Há-de-se saber… mais dia menos dia, há-de-se vir a saber, e nesse dia... A rapariga rompe de novo o silêncio. Nove anos, ter-me-ei dito de mim para mim, e a história sempre a mesma: vai à missa não vai, aceita-se o leite não se aceita, o que acharão quem dessas coisas se ocupa de se fazer, e o que para eles significará o não ser feito? Ai, sempre este medo, e até as sombras nas paredes têm ouvidos.

Sento-me com os adultos, de volta da rádio e dos jornais que os vizinhos e as filhas tinham trazido. Vão-se colando retalhos a fios, alinhavando detalhes uns aos outros, adivinhando se haverá palavras escondidas nos entrelinhas, construindo uma imagem. Vai-se finalmente poder falar livremente, diz uma das raparigas, e levanta-se para se ir embora. A outra segue-a. Eu tenho de ficar em casa, está decidido. Com anginas. Caso o perigo espreite pelas esquinas, ou eu não saiba manter a boca fechada. E o debate continua.

Mas que irão pensar, mantê-la assim em casa? E se se seguir como nada se passa, como é que será visto? Apoio à revolução? Confiança que o regime voltará a esmagar? Quem fica em casa e quem sai à rua num dia como o de hoje? Será que os fascistas te vão pensar um revolucionário? Que os revolucionários te vão pensar um fascista? E depois, ninguém sabe se ‘pegará’. O regime é demasiado forte. Olhem só a história das Caldas. E depois, bom, melhor será lembrar que são os militares, e os militares… Os militares estão fartos do regime. Isto é a sério, alguém acrescenta. Seja como for, é melhor ela ficar em casa.

Sinto-me defraudada. Está a acontecer a revolução, metade já aconteceu durante a noite enquanto eu dormia, e eu não posso nem sequer ir ver. Não há direito. E eu que tenho tanto a certeza que andarão tanques também pelas ruas da minha cidade, e eu que terei de passar por eles para atravessar a ponte… Que fixe.

Vou à varanda espreitar, e descubro um dia igual aos outros. Decepção. E depois lembro-me dos cavalos nas escadas dos cartazes, e dos estudantes espezinhados pelos degraus, esmagados de encontro às paredes. Talvez voltem a sair. A Gracinha chamava-lhes ‘as bestas de choque’. Talvez voltem à rua e a fazer o mesmo, com os escudos e aquelas coisas nas pernas e as maças e os cacetes e…

De repente, talvez ficar em casa não seja de todo muito má ideia. Mas não. O que eu quero mesmo é ir ver. Lembro-me do pânico no olho líquido e enorme do cavalo, mesmo à frente do meu nariz. Talvez os cavalos os atirem finalmente ao chão, aos polícias. Talvez eles façam a sua própria revolução. Que se revoltem de assim serem usados, aterrorizados. E depois, há os tanques. Dizem que Lisboa está cheia deles. Dizem que mais avançam. Para onde? Quem? Amigo ou inimigo? Para quê? Para se juntarem, ou para reprimirem tudo num ‘reina de novo a ordem’? E cá? Será que vêm a caminho? Eu quero ir ver.

Volta meia volta o meu pai acerca-se da porta de entrada e escuta. Como se estivesse alguém do outro lado. Sempre que o elevador se ouve, vai espreitar. Nunca se sabe quem poderá estar a ouvir. É a rotina habitual. O medo, sempre o medo. Os vizinhos vão e voltam, as portas abrem-se e fecham-se silenciosamente, os dedos apenas a raspar ao de leve, por sinal e em vez de batidela. Dizem que o vizinho do quarto andar é da União Nacional. Demasiada comoção dá nas vistas, e sabe-se lá. Consta que já informou, em tempos. Às tantas está é aflito a fazer as malas! Diz uma das raparigas.Que eu se fosse a ele punha-me é a andar e quanto antes…

E de repente vão-se todos embora. Ficamos os três, eu e o meu pai e a minha mãe, sozinhos, juntos mas solitários, de encontro ao dia que começa a passar. Vai dar tudo em nada. Tal e qual o levantamento das Caldas. A voz da minha mãe é rasa e sem emoção enquanto se afasta em direcção à cozinha. Chega o cheiro a café fresco. E a café com leite e pão torrado. Antes do fim do dia, teremos outra Conversa em Família e outro ‘reina a ordem em todo o país’, vocês vão ver. O meu pai acha que não. Que talvez desta seja de vez. E no entretanto, as dúvidas, e os medos. Sempre os medos. As vozes que se não erguem acima do sussurro. A minha insistência torna-se, ela também, em guerra aberta e ainda mais rebuliço: mas eu quero ir às aulas! Leia-se, e eles leram, eu quero ir para a rua ver.

Exaspero-me. Mas estes de hoje não estão a ver-se livres dos do regime? Então e isso não quer dizer que há liberdade? Que se pode falar? Fazer o que se quer? Sempre cuidadosos e semi-apagados, os meus pais transpiram cautela. Ai, o medo, sempre o medo. É que nunca se sabe no que vai dar, continuam a repetir. Golpe ou revolução, não se sabe quem vem de entrada, dizem-me. Isto da política é uma porta giratória, saem uns e entram outros e nunca se sabe bem quem está do lado de fora da porta, à espera para entrar. É necessária ainda a cautela de sempre. Porque, como o meu pai tanto gostou de dizer toda a vida, homem sarcástico e desbocado como só ele, só mudam mesmo as moscas, porque a merda é sempre a mesma. Durante a maior parte do dia, lembro-me de se esperar que o regime ainda vingasse. Talvez porque ninguém ousasse já esperar, de tanto se desejar e desesperar.

Soubesse eu nesse dia o que sei hoje, e teria visto o hábito do medo tão habilmente cultivado pelo regime. Aprendido tão bem que se tornara, para a maioria das pessoas, segunda natureza. É essa a coroa de glória das ditaduras, fazer com que te policies, te auto-censures, mesmo depois de um outro amanhecer. Porque nada é nunca certo. É demasiado cedo para nos sentirmos seguros. E parecera ser esse, essa manhã, o veredicto final.

Portas abrem-se e fecham-se, ecoam pelas escadas do prédio. Os elevadores andam abaixo e acima. A porta da rua bate, uma vez e outra e outra. Ouvem-se os passos apressados das pessoas, o chiar dos travões do autocarro a parar na paragem atrás do prédio. E de repente já só restamos eu e o meu pai. Ele diz que há menos gente nas ruas. E eu digo que nem admira, porque até a mim me fazem ficar em casa. Mas eu não abro a boca, prometo, deixa-me ir à escola. Tento de novo. Nem o meu pai se comove.

April Revolution 7

Pela hora de almoço recomeça o rebuliço. Volta a minha mãe, voltam as raparigas, e voltam os pais delas. Mais fragmentos, jornais, peças para o quebra-cabeças que se tem vindo a construir, a decifrar. O medo é menor, o respirar mais seguro, os sussurros menos estacados. Lembro-me, ao olhar hoje para esse dia, de como se desconfiava de tudo o que se ouvia, prática dos anos de não se poder acreditar em nada. De como se vivia de rumores. De como se viveram anos dos rumores que estaria para cair. De como, nessa primavera sobretudo, os olhos se haviam tornado ténue desafio e se dizia, estava para acontecer, preso por um fio. E depois voltam todos a sair outra vez.

A nossa porta de entrada continua em revolução contínua – só que agora já se toca a campainha, e já se não roda a maçaneta com mil cuidados. Abre-se e fecha-se, simplesmente. À medida que o dia corre, as pessoas dizem cada vez menos e menos. Lembro-me de como achei isso um contra-senso, um paradoxo: decerto deveríamos estar a jubilar, a gritar a plenos pulmões, armar o maior rebuliço de felicidade? Decerto os ‘pides’ já andavam ao vento, a salto como tinham obrigado tantos a fazer? Decerto que agora se pode falar?

jornal República 25 Abril 1974

Pelo fim do dia, já se lhe chama só revolução. O povo saiu à rua, é revolução. Foi um golpe militar. Mas o povo. O Povo. Tem de ser revolução. As páginas do República e do A Capital passam de mãos em mãos. Alguém me mandara a certa altura ir buscá-los, as enésimas edições, as anginas miraculosamente curadas (ah! as anginas, que antes nunca haviam impedido de ser despachada para a escola fosse como fosse), os outros jornais todos esquecidos em cima da mesa. Olhamos boquiabertos, a apreensão ainda a tolher as asas à euforia. Ouvimos os anúncios na televisão. As comunicações. As imagens. E a cautela ainda, medo esbatido e desbotado, mas medo ainda. Porque nunca se sabe para que lado é que as coisas caiem. Pergunto-me se a cautela desse dia seria a mesma que presidira a tantos autos-de-fé dos panfletos da ‘propaganda subversiva’, pela calada dos fins de serão. Ou se teria tido outro cheiro diferente.

Para minha grande desilusão, os tanques nunca chegaram a vir. Reinava aparentemente a normalidade, diziam, em toda a cidade. Portugal é Lisboa e o resto é paisagem. Mas enfim, as revoluções fazem-se efectivamente pelas capitais, onde as hierarquias do poder tomam assento. Na minha família, reinava ainda um medo inexplicável. É só mesmo as moscas que mudam, porque a merda continua sempre a mesma. Tanto que guerreei com o meu pai, tanto que lhe atirei ‘democracia’, ‘liberdade’, ‘igualdade’, ‘fraternidade’, tanto que ele me chamou D. Quixote e me atirou moinhos de vento. Nunca mais nos acertámos politicamente, desde aquele dia, por mais que eu vergasse e tentasse.

Telefono nessa noite à minha avó e à minha tia. Pergunto-lhes se estão a ver a televisão, e se não estão excitadas. Respondem-me que, feitas as contas, o céu continuaria exactamente no mesmo sítio, e o sol lá pendurado a brilhar como de costume. És nova, tens muito a aprender. As duas haviam visto um regicídio e uma república, duas grandes guerras, e uma ditadura. Haviam talvez adquirido o direito a tanta indiferença e incredulidade. Eu é que ainda não. Inconformava-me: em poucos dias, tudo parecia ter voltado ao mesmo de sempre. Para que serve uma revolução, perguntara-me eu, se é para tudo ficar como dantes?

Quando finalmente me haviam soltado de volta aos novos dias, sentira-me ainda mais defraudada. A luz era a mesma, as paredes iguais, as sombras nos mesmos cantos. As pessoas tinham as mesmas caras de sempre, e as mesmas caras viam-se nos mesmos sítios, autocarros, cafés, lojas, ruas. Será que não haveria informantes, entre nenhuns deles? Como é que podiam ter assim desaparecido de um dia para o outro, de tão ubíquos e omnipresentes que tinham sido, fundidos com as paredes e as pedras das calçadas? Estariam ainda?

Não havia tanques, também, nem multidões; não havia cordões de gente de mãos e braços dados. Não havia efervescência. Não havia cravos por todo o lado. O tempo era o mesmo vagar vazio de sempre, as ruas ainda cinzentas. À excepção da televisão, nada parecia estar a acontecer. Vivia-se a revolução, parecia-me, de um viver apenas vicário. Olhava à minha volta desconcertada, e não via nada que iluminasse os olhos das pessoas e deles fizesse sóis, ou lhes fizesse vibrar a pele em música. No liceu, o contínuo que diziam ser ‘bufo’ continuava lá, de sorriso obsceno a espreitar as curvas às raparigas. O professor que diziam ‘ter cartão’ lá estava também, tão cruel e arrogante como sempre, e sem qualquer sombra de medo.

Naquele fim de dia, sentados na sala com os vizinhos por companhia, esperávamos qualquer coisa. Um rebuliço maior. Algo que fosse onda, ou mar. Eu queria-nos a todos na rua. Olhávamos a televisão, a ver o que quer que fosse que se temia mais mas que nunca veio. A Conversa em Família nunca veio. Nem nunca veio um novo ‘reina a ordem por todo o país’. Hoje olho para trás e vejo que afinal, quarenta anos e no fim das contas todas bem feitas, nem mesmo a Democracia, a do D grande, alguma vez veio para ficar. Talvez fosse de todo aquele medo.

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