Expor ao vento. Arejar. Segurar pelas ventas. Farejar, pressentir, suspeitar. Chegar.
Acordo para a semi-escuridão do quarto. Só umas quantas barras da persiana estão descerradas, e pouca luz deixam entrar. O meu quarto é ao fundo do corredor, e todos os sons da casa parecem viajar até à minha porta entreaberta, acidentalmente amplificados por um qualquer jogo de pingue-pongue que persistem em jogar paredes fora pelo caminho. Foi isso que me acordou, em vez do habitual chamamento da minha mãe, São sete horas, anda, levanta-te, ao mesmo tempo que ergue a persiana para deixar entrar as manhãs. Fico por momentos a observar os pontinhos de luz na parede, em fileirinhas alinhadas e bem comportadas, e a tentar decifrar o que se estará a passar. Olho para o meu relógio: o ponteiro ainda nem sequer bateu nas sete.
O bulício desusado chega-me em sussurros e passadas, para cá e para lá e de lá para cá, os chinelos arrastados do meu pai, as chinelitas apressadas da minha mãe, o raspar de dedos na porta da rua que se fecha e se abre de mansinho. Vozes. A primeira coisa que me lembra é que a minha avó terá morrido. Só pode ter sido coisa qualquer assim.
Aproximo-me devagar, corredor fora. É o vizinho de cima. A porta abre-se e fecha-se outra vez. Detenho-me antes de virar a esquina. Reviro as palavras que ouço, sacudo-as e espremo-as, exijo-lhes sentido, respostas. Já sou suficientemente grande para perceber. Há muito tempo que percebo muita coisa, a bem dizer. E fico-me por ali, naquele canto, encostada à parede, especada. Não tanto menina marota a ouvir a conversa dos adultos, quanto jovem estupefacta a tentar fazer sentido da realidade.
Ela era linda. Morena, como ainda convém hoje aos meus olhos, fiéis a esse tom de pele inultrapassável e absoluto. Tinha 17 anos; eu, 23. Partilhávamos ao jantar a mesma sala, as mesmas mesas (uma em frente da outra) e trocávamos olhares desde o primeiro dia em que entrei na Tubuci para uma das especialidades da sua cozinha. Eu estava fardado, ela vestia de negro. Quando a via de negro, deixando faiscar os seus incríveis olhos verdes num contraste de sonho, todo eu me derramava por dentro e deixava que a minha energia voasse pela sala ao seu encontro.
Decidimos namorar aí por finais de Fevereiro. Exacto, nos meus anos. Ia buscá-la ao liceu, ficávamos a semear beijos e a cultivar a ternura até quase à hora de jantar. Depois, chegavam os meus camaradas de mesa, ela ia deixar os livros ao quarto e descia.
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(na morte de João Rocha)
Em 1975 Portugal era um manicómio sem gerência: cada qual agia como lhe dava na gana. O PC, que sobre ser ditatorial e estalinista, não tem senso de humor nem graça nenhuma, gastava as 24 horas do dia a fazer ensaios, mais ou menos violentos, da revolução bolchevique (com que ainda sonha). Levava a coisa tão à séria que até Cunhal, quando desembarcou em Lisboa, se empoleirou numa chaimite com um um soldado de dum lado, um marinheiro do outro, à Lenine. Transposto no tempo e em Portugal, ficou um quadro de revista a que não faltava o folclore, entre colorido e foleiro, daquele colar de missangas a que se convencionou chamar de extrema esquerda. O país não comunista, que era a maior parte, gastava as mesmas 24 horas do dia a trocar as voltas aos de obediência soviética e a inventar tudo quando os pudesse avacalhar. A resistência foi sofrida e dura, mas feita com ar de riso e cantigas (como agora). [Read more…]
Mascagni Cavaleria Rosticana Intermezzo
Parece-me que todo ser humano devia dizer e pensar esta frase. Há dois factos na vida que sempre andam ao pé de nos: o involuntário facto de nascer, o involuntário facto de falecer.
O começo da vida acontece em época incerta, pela vontade, amor e carinho que os nossos
Bigene
Bigene, no norte da Guiné, perto da fronteira do Senegal, foi a minha segunda e definitiva estadia. Como disse em artigo anterior, uma Dornier fora buscar-me a Canquelifá, trazendo-me para Bigene, onde a última companhia de farda branca aguardava a rendição.
A despeito das más recordações que esta companhia deixou, em termos de crimes sobre a população nativa, consegui fazer alguns bons amigos. E foram esses amigos que me contaram as atrocidades cometidas, especialmente por um capitão cujo nome não vejo necessidade de revelar, sobretudo a tantos anos de distância. Apenas refiro que era denominado “o assassino” de Bigene, e era, infelizmente, acolitado pelo médico.
Residia na povoação um comerciante de Braga, o Sr. Hilário, e um senhor já de alguma idade, Sr. Reis Pires, pai de dois rapazes atletas do Benfica. Ambos estes homens me contaram coisas de bradar aos céus que eu evito relatar. Apenas dois pequenos pormenores, que darão ideia da dimensão dos restantes crimes. Pouco depois de chegar, abeirou-se de mim um furriel com um colar de orelhas ao pescoço. O outro pormenor decorreu do facto de resolvermos cavar algumas trincheiras, após a saída da companhia, a fim de ligarmos os abrigos às casernas, aos quartos e à enfermaria, e encontrarmos restos humanos nas escavações, alguns deles só parcialmente decompostos.
Quando chegou a 1547, a minha companhia de origem, comandada pelo capitão Vasconcelos, um homem culto e bem formado, com o curso de Germânicas, de quem me tornei grande amigo, outra vida nasceu naquela gente e naquela povoação. Irei contando algumas coisas desta nossa vivência em Bigene, sector de Farim, coisas que me pareçam com algum interesse, mas sem preocupações cronológicas. [Read more…]
O velho Uíge atracou em Bissau no dia 13 de Maio de 1966. Entrámos dentro do forno da cidade. Aí aguardei um mês até ao meu destacamento para o mato. Eu e o meu colega e amigo Gomes Pedro, hoje professor catedrático da Faculdade de Medicina de Lisboa e Director do Serviço de Pediatria do hospital de Santa Maria. Ele seguiu para Cuntima, no norte da Guiné, perto da fronteira do Senegal, e eu embarquei para Canquelifá, no leste, próximo da fronteira com a Guiné-Conackry.
Um velho Dakota levou-me até Bafatá. Dentro do avião, além de mim, ia o piloto, o co-piloto que tinha meia cara feita numa cicatriz, uma mulher negra sentada sobre o caixão do filho e um capitão que eu não conhecia de lado nenhum. Este capitão desembarcara momentos antes no aeroporto de Bissalanca, vindo do Porto, e seguia directamente para o mato. Confessou-me que transportava consigo alguma angústia, pois deixara para trás mulher e nove filhos. Três meses depois encontrámo-nos em Bigene, no norte. Reconhecêmo-nos e tornámo-nos muito amigos. Era o capitão Brito e Faro. [Read more…]

Construido nos anos 70, hoje são mais de quatro prédos imensos
Convidado pelo Instituto de Ciências da Fundação Gulbenkian, apareci em Portugal, pela primeira vez na minha vida, em Dezembro de 1980. Vinha da Universidade de Cambridge, onde fiz os meus graus, até ser Doutor e Agregado. Ainda sou membro do Senado dessa Britânica Universidade, na qual, actualmente, trabalham a minha filha mais nova e o seu marido. Não sabia Português, mas conhecia profundamente o Galego. Tentei falar em língua luso-galaica, mal entendida entre luso – portugueses. Mudei de imediato para o inglês, a minha melhor língua, por estar relacionado com a Grã-bretanha desde os meus vinte anos (sou casado com uma inglesa e as minhas filhas são britânicas).
Mal soube o ISCTE da minha visita, vários membros do Instituo Gulbenkian, também docentes no ISCTE, convidaram-me para a “Escola”, como era chamado, e ali proferi uma conferência, no único anfiteatro dos anos 80 do Século passado. Foi necessário falar em luso-galaico e castelhano: os discentes não sabiam inglês, como vários docentes. As minhas palestras versavam sobre a vida rural; a Antropologia Social e histórias de povos denominados primitivos, elo da nossa ciência, especialmente sobre os seus mitos e ritos. O auditório ficou, penso eu, fascinado ao ouvir falar de povos estranhos (não africanos) e dos seus costumes, comparados com povos europeus que eu tinha analisado, durante anos, na Escócia, em França, na Galiza e os nativos do Chile. Enquanto contava histórias, ia teorizando. Os cientistas sociais gostaram da minha análise da família, todos Sociólogos, Advogados ou Gestores, para estes últimos referi especialmente como eram feitas as contas, pesos e medidas, entre etnias como os Tallensi, os Lo-Dagaba e os Lo-Wiili da antiga Costa do Ouro, hoje Ghana, e as dos Incas do Peru que para contarem fazem nós numa corda, enquanto os Mapuche do Chile [Read more…]

Um longo monólogo, com muitos gestos e fundo musical E o colega com bichinhos carpinteiros. As perguntas que já não se fazem, colocam-se. Uma confusão de pessoas e de nomes. No afã de interromper e de falar por cima, quase saía um cinquenta por cento, em vez de trinta.

O governo da República Portuguesa publica uma nota sobre Educação utilizando uma fotografia de um suposto professor em suposto ambiente de suposta sala de aula com um quadro e giz.
Há quantas décadas desapareceram os quadros e giz das salas de aula na república portuguesa…?
Descobri na passada terça-feira que este vídeo deveria ter saído no dia 22 de Setembro de 2024, às 23h30. Pronto, ei-lo.

Segundo EUA e Israel, o Irão está militarmente obliterado. Na realidade, há mísseis iranianos a atingir localidades de Israel (que tem das melhores defesas aéreas do mundo), além da península arábica.
Falta pouco para Trump dizer que acaba esta guerra com um telefonema.
Subida exponencial do preço do petróleo, aumento da inflação e das taxas de juro, perda de poder de compra, perigo de incumprimento nos créditos bancários, tudo em ambiente de forte especulação e de bolha imobiliária. Onde é que eu já vi isto?!
diz Santana Lopes. Pois. Mas só uma pessoa escreveu «agora “facto” é igual a fato (de roupa)». Uma.
Vinícius Jr. “incluiu a Seleção Nacional no lote de favoritos à conquista do Mundial 2026“. Lembrete: ‘selecção’ ≠ ‘seleção’.
Efectivamente, no Expresso: “Enfermeiro nomeado para coordenador da Estrutura de Missão para as Energias Renováveis deixou o cargo quatro dias depois da nomeação ter sido publicada“.
É possível lermos, num artigo de Jorge Pinto, “um partido que defende a política assente na ciência e nos dados” e a indicação “O autor escreve segundo o acordo ortográfico de 1990“? É.
“uma constatação de factos“. Factos? Com /k/? Estranho. Então e o “agora facto é igual a fato (de roupa)“?
“o nosso sentimento e as nossas condolências para com as famílias daqueles que não evitaram a trágica consequência de perder a vida”. Sacanas das pessoas, culpadas de não terem evitado morrer.
Não é Trump always *chicken out (00:31). O verbo é to chicken out, conjugado na terceira pessoa do singular (presente do indicativo), logo, aquele s faz imensa falta. Oh yeah!
Por lá, pó branco, só se for gelo. Como sabemos, o combate à droga é a motivação destas movimentações. A libertação de Hernández foi uma armadilha extremamente inteligente para apanhar os barões da droga desprevenidos.
Oferecer um calendário ou uma agenda a Mourinho. O jogo é na terça…

« Mais vous avez tout à fait raison, monsieur le Premier ministre ! » (1988). Mas, prontos. Voilà. Efectivamente.
Existe uma semelhança entre as pianadas do Lennon no Something e do Tommy Lee no Home Sweet Home.
Moreira, mandatário de Mendes, admite que avanço de Cotrim o levou a não ser candidato a Belém. Júdice, mandatário de Cotrim, votará Seguro na segunda volta.
O “cartel da banca” termina com um perdão de 225 milhões de euros aos 11 bancos acusados de conluio pelo Tribunal da Concorrência. Nada temam!
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