Estratégia de sobrevivência política

Não se percebe bem, se é que existe, a estratégia de António José Seguro. Por um lado pede eleições antecipadas, várias vezes tem desafiado o primeiro ministro a demitir-se para ouvir os portugueses, na passada sexta-feira votou uma moção de censura na A.R. que se aprovada implicaria a queda do executivo. Por outro, desafiado, recusa ouvir os militantes do próprio partido, refugiando-se numa legitimidade estatutária, que embora exista, não é menos legítima que a do governo continuar em funções até às próximas legislativas. Como referi aqui, a vitória escassa do PS não fazia prever a tempestade que se levantou, mas o líder da oposição revelou-se completamente incapaz de gerir a crise interna, num primeiro momento entrincheirando-se no aparelho do partido, depois disparando em todas as direcções. Por princípio sou favorável à proposta para redução para 180 deputados e introdução de círculos uninominais. Mas como isso se aplica? Será para eleger à primeira volta ou será necessária uma segunda? Serão permitidas candidaturas independentes nos círculos uninominais? Quer-me parecer que uma reforma do sistema político requer tempo, debate público, negociação. Não creio que exista qualquer negociata concluída com os partidos da maioria, que tenha por objectivo criar entraves à entrada dos pequenos partidos no parlamento, ou diminuir a representação parlamentar dos existentes. Para começar o CDS/PP é ele próprio um pequeno partido, várias vezes ao longo do anos teve que lutar pela sobrevivência. Uma tal negociata entre PS e PSD colocaria problemas sérios na coligação governamental e muito provavelmente levaria à ruptura política. Sou levado a crer que as ideias hoje avançadas são uma fuga em frente que permitem a António José Seguro ganhar tempo, apoios e apagar a imagem que vem deixando desde a noite eleitoral do passado Domingo, transformando em derrota uma vitória, apesar de escassa. A ideia de Primárias no PS pode e deve ser discutida, curiosamente foi liminarmente rejeitada quando proposta há uns tempos por Francisco Assis, mas tal como a reforma do sistema político carece de tempo para implementação. Nos termos que ouvi hoje as declarações de Seguro, seria necessário elaborar cadernos eleitorais, após o registo de pessoas que não militam no PS, o que implica divulgação pública após preparação prévia da estrutura do partido. Acrescentando o tempo para apresentação de candidaturas e campanha interna, dificilmente se clarificaria a situação antes do final do ano. Tal como Pedro Passos Coelho, António José Seguro foi formado na juventude partidária. Ambos lutam pela sobrevivência política, indiferentes ao país e até aos partidos que dirigem. Porque ambos não existem para lá da política. O que estamos a assistir é à baixa política no seu pior…

Comments

  1. Fernando says:

    E’ caso para dizer de Seguro; bem prega frei Tomaz….
    Eu deliro ver os caes politicos devorarem-se uns aos outros. Sejam eles de que partido for.
    Tudo em nome de Portugal!

  2. Bento 2014 says:

    CARTA ALBERTA A SEGURO

    As cenas patéticas que tem protagonizadas, como aquela de dar o sim a uma moção de um partido que combate ferozmente o PS, vê-la com frete ao governo, faltar ao debate e proclamar coerência, já fazem ter pena de Seguro ao velo estrebuchar num banho de infantilidade e ridículo. Em consequência apetece-me alinhar as seguintes 6 perguntitas:

    -Não acha que seria passar de um sonho mau a um pesadelo sinistro só de imaginar Seguro como 1º Ministro?
    -Não acha que Seguro está com medo de perder o emprego?
    -Acha possível que nenhum dos seus próximos ajude Seguro a sair do pântano onde se atola mais a cada braçada?
    -Não acha que Alberto Martins pode estar a tratar de ambições pessoais querendo tramar agora Costa afastando-o?
    -”Isto mudou, habituem-se”. Não acha que Seguro é que vai ser mudado?
    -Seguro entrou em pânico. Ninguém quer dar uma ajudinha para que ele possa sair decentemente?


  3. Talvez o erro dos cidadãos seja assumir que a política alguma vez foi algo para ser levado a sério…

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.