As carquejeiras

 

No final de 1930, o lisboeta «O Século» enviou ao Porto o repórter Adelino Mendes para ver e contar a vida nas ilhas e bairros pobres da cidade. O jornalista ficou particularmente impressionado com as carquejeiras:

Surgem diante de mim vultos indistintos, cujos contornos, a certa distância, mal se definem. Dir-se-ia que vem ao meu encontro uma fila de ouriços, arrastando-se lenta e dolorosamente pela rampa que conduz ao rio.
– São as mulheres da carqueja! Vão assim, sob estas cargas, até às Antas, até Paranhos, a quase duas léguas de distância, às vezes! (…)
Paramos. As desgraçadas passam, com os enormes feixes às costas, arfando e resfolegando, pela ladeira acima. Assisto à escalada torturante dum calvário que não tem fim. Sobre os muros da rampa, os ouriços humanos depõem, de vinte em vinte metros, os carretos.

Os barcos traziam, Douro abaixo, centenas de quilos de carqueja, planta que era usada como acendalha para os fornos das padarias da cidade e para as casas burguesas. A carga era despejada no cais da Corticeira e aí distribuída pelos carregadores, maioritariamente mulheres. A cada uma delas tocava carregar um fardo de não menos de 50 quilos de carqueja, subir a árdua Calçada da Corticeira – 210 metros de extensão, uma inclinação de 22% – e daí levar a carqueja aos bairros da cidade, Paranhos, Antas, Carvalhido, distâncias de três, quatro, cinco quilómetros. Os salários eram miseráveis e incertos, dependiam do número de viagens diárias e da carga que elas suportassem.

Pelo menos até ao final da década de 1960, era comum ver homens, mulheres e crianças (algumas com não mais de cinco ou seis anos) a atravessar a cidade carregados como bestas, com pesos muito superiores às suas forças, recurso exclusivamente economicista de quem os contratava (força de expressão, não havia vínculos laborais) e não estava disposto a reduzir os seus lucros recorrendo ao uso de animais de carga ou de veículos motorizados.

A 22 de Janeiro de 1936, o «Jornal de Notícias» contava um terrível acidente com um homem que descia uma ladeira puxando um carro de carga e que acabou por ficar debaixo do carro, preso nas tiras como se de um animal de carga se tratasse. Quando alguém que assistia à cena perguntou a um polícia porque não autuava o proprietário da carga, a resposta foi:

Não existe nenhum código de posturas que autorize a autuar um homem por excesso de carga. Existe, sim, para os burros…

E quando existia legislação, ninguém velava pelo seu cumprimento. E assim, gerações de mulheres subiram a rampa da Corticeira com 50 quilos de carqueja à cabeça, vergadas quase até ao chão, algumas com um filho pequeno ao colo por não terem a quem o deixar, outras no final da gravidez (há registo de partos que aconteceram na rampa), outras tão doentes que morreram ali mesmo, em plena subida. Eram mulheres em situação desesperada, com filhos para alimentar e nenhuma alternativa, e foram escravizadas de forma vergonhosa e nem sequer às escondidas. A cidade inteira assistia ao seu martírio.

Soube há pouco que Arminda Santos, do Clube Unesco do Porto, lançou a ideia de que o alto da Calçada da Corticeira receba um monumento às carquejeiras, proposta que não me parece estar a receber grande apoio. E seria justo esse reconhecimento, a forma possível de reparar uma crueldade perpetuada por tão longos anos.

Calçada da Corticeira – foto de Carlos Romão

As cidades não se constroem só de granito, calcário ou tijolo, mas da memória de quem nelas viveu, da sua passagem pelo mesmo espaço que nos toca viver agora, mais ou menos transformado, mais ou menos reconhecível. A toponímia conta-nos isso e lê-se como um romance, basta querer lê-la assim.

Se durante décadas os fornos produziram o pão que a cidade comia foi graças a essas sacrificadas mulheres, a Elisa, a Ermelinda, ou a Palmira, a última das carquejeiras, e é justo que quem se acerca ao muro da Corticeira, de costas para as Fontainhas que a cada ano recebem os festejos de S. João, possa deter-se um instante frente à imagem de uma carquejeira, ainda que apenas para um exercício de imaginação: como seria subir aquela rampa todos os dias, várias vezes ao dia, com 50 quilos às costas?

Recordam sempre as cidades os seus estadistas, líderes, homens de poder, e raras vezes o seu povo anónimo, sem rosto, que ajudou a erguê-las, que lhe calcorreou as pedras e as afeiçoou aos pés, e que nelas soltou um último sopro de vida sem que a cidade estremecesse, nem repicassem os sinos, nem sequer uma lágrima aclarasse o escurecido granito.

Terminado que está o seu martírio, vivam pelo menos as carquejeiras na memória da cidade.

 

Devo a foto inicial e as citações ao muito recomendável O Problema das Carquejeiras do Porto – E Como a Liga de Profilaxia Social Tem Procurado Resolvê-lo, ed. Liga de Profilaxia Social, Porto, 1951.

Comments

  1. Rui Moringa says:

    Carla, muito bem escrito.
    Mas não era só a carqueja.
    Lembro-me do meu avô contar (pela data, empregado de armazém de vinhos na rua do Freixo), que eram também os feixes de palha de centeio para os colchões das camas e o carvão que descia o rio Douro desde o Lugar de Zebreiros (Foz do Sousa) de barco para ser descarregado da mesma forma e distribuído, em gigos, à cabeça, pelas mulheres e homens. Elas em maior número.
    Só mais tarde se construiu à linha de cestos automáticos desde São Pedro da Cova até Monte Aventino para transportar o carvão.
    Muitos dos nossos contemporâneos acham que o Mundo surgiu quando eles nasceram! Também, como diz a história é feita de gente do Povo e não só de festas e comendas.
    Parabéns e oxalá que a estátua à memória dessas mulheres vá por diante.

    • Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

      Um dos principais problemas que contribuem para não se reter a História está exactamente no que o caro Rui Moringa refere: a falta de algo que perpetue o facto. São as carquejeiras, como são os Cordoeiros, por exemplo e mais grave se torna quando se branqueiam nomes, substituindo-os por um qualquer orago político de ocasião. Não há um símbolo do Cerco do Porto, que constituiu a rampa de lançamento de um Portugal moderno, nem um Museu a ele dedicado. E podíamos falar de tantas coisas que são fontes da nossa História ( e portanto da nossa construção como entidade político-social) que, pelo silêncio se vão convertendo em memórias e mais tarde, posivelmente em lendas. Parabéns pelo artigo.

  2. António Fernando Nabais says:

    E muitos têm saudades desses tempos em que se era explorado e calado.


  3. Não se admirem da discordância da colocação de um vusto em memória das carquejeiras, mas sim a favor de um vusto do morto e enterrado Dr.Oliveira Salazar.Metam chumbo na sua tumba antes que salte cá para fora.

  4. Maria says:

    Mas quem viveu numa aldeia nos “idos sessenta” não era isto “o pão nosso de cada dia”?: carregos( lenha, mato, cestos, canastas, canastões) à cabeça, crianças a trabalhar, outras a pedir esmola, ralhos pelas ruas, muita fominha nas barriguinhas, etc, etc, etc,

    • Álvaro Miranda says:

      Vusto?…q é isso!? Se queria dizer – busto…deixe-se disso, e deixe-o lá na dimensão em q reside actualmente, carpindo não ter posto a sua inteligência (!) a favor dos explorados q a sua política q dirigiu neste país sempre esmagou e q o “25 de Abril” veio libertar.


  5. Grande texto.
    Enorme retrato de dor e sobrevivências nos idos anos 50 e 60 do nosso país.
    Cada região com a sua “cruz”.
    Muito bom.
    Dêem a ler este texto aos muitos, mas pouco iluminados decisores políticos e económicos, que com a CES, com o fim do CSI, para alguns, estão a retirar muito, do seu já parco rendimento, a muitos desses (as) que, outrora, foram carquejeiras..

  6. valente lopes says:

    MERECE ESTE POVO UM MONUMENTO AOS SEUS SACRIFICIOS….

  7. José Teixeira says:

    Na Freguesia de Fridão durante as décadas 30, 40, 50, 60, também existiu a profissão das carquejeiras, que cortavam a carqueja nos baldios de Fridão e transportavam em molhos para as padarias da então Vila de Amarante ( 10 Km de distância) . É caso para dizer:Óh tempo, não voltes para trás!
    A homenagem da Caminhada de Abril a todas essas mulheres que contribuíram em condições miseráveis para o fabrico do pão no nosso concelho, que por ironia do destino não o tinham muitas vezes nas mesas das suas casas.


  8. Espetacular a descrição da Carla. Eu sou desse tempo, ainda jóvem, quando descia a rampa da Corticeira com o meu Pai que acompanhava para ir pescar à cana junto ao rio. Era impressionante assistir a tanta escravidão e miséria. Será uma injustiça se o atual presidente da Camara não for sensível à memória deste naco da história da nossa Cidade, perpetuando esses miseráveis tempos com uma estátua digna.


  9. Fico muito contente por saber que ainda há pessoas que não se esquecem das pessoas, e que mostram o real valor delas, as dificuldades que passam ou passaram. Cada vez gosto mais de a ler. Obrigado, essas senhoras ficar-lhe-iam gratas por falar delas e dos seus penosos sacríficios.


  10. Quase setenta anos passaram, mas não da minha memória. o ver subir as carquejeiras a íngreme rua do corpo da guarda-falta-lhe no cimo cerca de trinta e cinco metros- que faziam ligação ao largo da Cividade. e visível ainda hoje da praça Almeida Garrett. Depois seguiam em direcção ao Bonfim ou ponte D.LUIZ. Vê-las mijar de pé e perguntar a avó como podia ser,- lá em casa não era assim,.e a resposta, é a dor e o sofrimento a chorar.Foi a Cidade no tempo insensível a tanta dor, pois não foi capaz de resolver este problema apesar do esforço da Liga Foi o gasóleo que acabou com a questão tornando mais dolorosa a vida desta gente. .Uma vergonha histórica como outras que falta contar que faz parte da memória da nossa Cidade,A construção da Cidade passou por ELAS ,aprovo a justiça de um MONUMENTO.

  11. jose pires says:

    Fico muito comovido depois de ler o artigo sobre a violencia que
    era feita contra o povo,o culpado é sempre o mesmo o POLITICO. O meu comentário. É TRISTE E INDECENTE E AO MESMO TEMPO METE DÓ MORDER EM TANTA GENTE UM HOMEM [POLITICO]COM UM DENTE SÓ.

  12. João de Brito says:

    Na minha cidade do Porto, onde nasci em 1951, nunca vi as carquejeiras, mas em Arcos de Valdevez, para onde fui viver com os meus avós, até regressar ara a Escola Preparatória, vi algumas. Havia duas irmãs, na altura, época de 60 do século passado, a quem chamavam as Olívias, embora uma fosse Olívia e a outra Celestina, que iam para o monte apanhar feixes quer de carqueja, quer de caruma, garavalha ou moliço e que vendiam por 2$50 cada feixe enorme, como o da fotografia. Naquele tempo (até pareço os padres) nada se desperdiçava. Pinhas, lenha seca de pinheiro, garavalha, giesta, carqueja, folhas de eucalipto, tudo era guardado para os invernos longos e gélidos, por aquelas paragens. Tudo era queimado nas lareiras quer para cozinhar, quer para aquecer. Não havia eletricidade lá na aldeia, logo nem rádio, nem televisão, tão pouco frigorífico ou máquinas de lavar o que quer que seja. A água ia-se buscar, à cabeça, em cântaros.
    Esta malta de agora ainda se queixa. Não sei de quê.
    Muito se trabalhava, naquele tempo, por uma côdea de pão.


  13. Muito obrigado! O pessoal que corre, e passa por lá muitas vezes, ainda se queixa…

  14. António Gonçalves says:

    Uma amiga fez-me chegar por mail esta dura estória das carquejeiras. Conheço bem aquela rampa que mesmo a subi-la sem carga chega-se ao cimo com os bofes de fora. Parabéns à autora desta recolha e força com a perpetuação dessas heroicas mulheres num monumento.

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  1. […] carquejeiras vão ter o monumento que o Porto lhes deve. A apresentação da maqueta irá realizar-se no […]

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