Obrigada por este bocadinho, François! (III)

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Na montra de uma livraria em França onde o livro da ex de Hollande não está à venda, um poster de um filme imaginário com menção ao caso do tweet contra Ségolène Royal com que Trierweiler desafiou Hollande

Alguns livreiros recusam-se a vender o livro de Valérie Trierweiler, Merci pour ce moment, revoltados que estão com o fenómeno estapafúrdio gerado por um livro que, com justeza, consideram sem qualidades, apesar de ter vendido numa só semana o que a maior parte dos escritores franceses não consegue numa vida literária. Mas há também, claro, quem defenda a autora, insurgindo-se contra esse arremesso de baldes de lama contra ela, alegando estar a senhora no seu direito de vingança, e serem essas duras críticas apenas o resultado da inveja provocada por tão astuciosa forma de ganhar dinheiro. E há até mesmo quem afirme ser o livro de Trierweiler uma obra literária, para além de uma espantosa história de amor. Merci pour ce moment (que evoca títulos parvos que também em Portugal se arranjam, como por exemplo Sei lá) pode até ser uma magnífica história de amor – e sê-lo-á para os muitos que partilham esse entendimento do que é o amor –, mas não deixa de ser um texto pobre, de escrita rápida, impresso com erros ortográficos e outros que enervam os escreventes profissionais da Língua e todos os que a prezam bem grafada. Trata-se de um texto biográfico, num tom que mistura reportagem (género jornalístico em que Trierweiler se fez como jornalista, seguindo, em serviço para a sensacionalista Paris-Match, os notáveis do partido socialista francês) e narrativa testemunhal diarística. Uma espécie de memórias antes do tempo delas (Trierweiler não tem ainda 50 anos sequer).

Entre os livreiros que não aceitaram vender o livro da despeitada senhora, há quem considere «a obra», impressa da noite para o dia na Alemanha, um objecto malsão para a edição, tendo inviabilizado muitos outros novos livros chegados às lojas no início de Setembro (França tem um mercado editorial extremamente dinâmico e onde habitualmente cabe também a melhor literatura – escusado será dizer que a rentrée literária francesa está a ser grandemente ignorada). A braços com o fenómeno gerado pelo marketing que levou os franceses para as livrarias em busca desse livro e apenas, alguns livreiros juntaram-se numa acção de boicote à venda do título: «Somos livreiros. Temos milhares de livros. Não temos vocação para ser o caixote de lixo de Trierweiler e Hollande», anunciaram alguns nas montras. Movidos por aquilo que consideram ser uma razão ética, alertam os congéneres mais distraídos para o facto de a publicação do livro de Trierweiler questionar a própria profissão: «No coração da actividade de um livreiro está a escolha dos livros e a promoção da sua leitura. Se não nos defendermos, e aos livros, um dia destes teremos nas nossas lojas apenas os títulos que se vendem bem. Seremos uma espécie de Mcdonald’s, com pessoas de boné a vender os dez livros mais mediatizados. Mas o nosso ofício não é isso.»

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