Eu assumo, tu assumes

Uma das mais caricatas patologias políticas de que sofrem os nossos governantes é a “assumoaresponsabilidadite”, consistindo esta maleita no pundonoroso hábito de os ministros assumirem, com empáfia, responsabilidade sobre coisas que toda a gente sabe serem efectivamente da sua – deles – responsabilidade. Normalmente isso só acontece quando tal é tão evidente que, calculando vantagens e prejuízos, é melhor botar figura de franqueza. Ou quando o mandante que lhes dá corda – no caso, geralmente, o 1º ministro.

Hoje assistimos a duas dessas cenas. A ministra da justiça assumiu uma responsabilidade que todos sabemos ser sua; até pediu desculpa em tom de quem ralha aos destinatários. O Crato, na Assembleia da Republica, ensaiou coisa parecida naquele seu jeito atarantado de quem parece ter alguma coisa para dizer mas não sabe como. Há, até, assunções de responsabilidade que podem valer, como prémio, belos tachos – a presidência de uma grande empresa de construções, por exemplo. Termino dentro deste espírito, anunciando que assumo a responsabilidade pelas palavras que acabo de escrever.

7 comentários em “Eu assumo, tu assumes”

    1. Aliás, tá-se mesmo a ver que grandes empresas com processos parados não vão processar o estado pelas perdas ocorridas. Por patriotismo, claro.

  1. “Assumir”, mas devagar… Em tempos que já lá vão, as famílias endinheiradas pagavam a robustos filhos dos trabalhadores braçais para que assumissem o serviço militar dos seus delicados e mui atarefados varões (empenhadíssimos em cursar um boémio e interminável bacharelato em Coimbra, nunca acabado, mas que, ainda assim, juntaria, num mesmo imprestável indivíduo, dois paradoxais “títulos”- ao caseiro “Menino” de sempre agregar-se-ia o social “Senhor Engenheiro” ). Assim anda a nossa classe ministerial: o senhor ministro ou a senhora ministra declina com gosto o verbo “assumir”, quando se trata de vestir a fatiota deslumbrantemente glamorosa do governamental “poleiro”, mas declina-o enfastiadamente, quando a sua indigente incompetência dá os previsíveis, e desastrosos, resultados. Como as classes privilegiadas de antanho, e como as belas tradições são para ser mantidas, para embrulhar o oco “mea culpa”, rola, acto contínuo, a cabeça de um qualquer subalterno, que é para isso que eles, os subalternos, lá estão. E o povinho sempre se alegra – pouco e por pouquíssimo tempo, é certo, mas alegra – com a cabeça decepada de mais um “privilegiado” magnificamente remunerado exibida no pelourinho dos “mass media”. Como é bonita, neste país, a ética republicano-democrática… Ou, dito de outra maneira, como, com palavrinhas meigas, um olhito húmido e valentes bordoadas expiatórias em lombo alheio, se enganam os tolos.

  2. Porque não assumir o que é óbvio e não tem consequências políticas ou legais? Até dá um certo ar de responsabilidade e magnanimidade. O que falta aqui dizer é que no mundo das relações públicas este tipo de tácticas são usadas porque empiricamente o público gosta. Tirem-se daqui as conclusões que se quiserem.

    1. Faltam-me as artes para tal tarefa e a minha popularidade entre os nomeadores e patrocinadores de cargos e tachos vários (nomeadamente aqueles de administrador não executivo, que são um doce) está de rastos…

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