Imigrantes a mais?

Um dos blogues associados ao diário espanhol El País, o Café Steiner, destaca hoje um gráfico publicado no estudo anual sobre a opinião pública “Transatlantic Trends” (edição de 2014), particularmente interessante no que diz respeito à questão da imigração. O gráfico mostra a resposta obtida em vários países da União Europeia, na Rússia e nos EUA à pergunta: “Acha que há demasiados imigrantes no seu país?”.

O que torna as respostas ainda mais interessantes é o facto de surgirem divididas em dois grupos. Um primeiro grupo, assinalado a cinzento claro, a quem foram indicados os números reais da imigração antes de serem convidados a responder, e um segundo grupo, a cinzento escuro, a quem não foi dada nenhuma informação. Isto é, enquanto o primeiro grupo avalia dados reais, o segundo pronuncia-se sobre uma percepção. E as diferenças são flagrantes.

No caso grego, país onde a extrema-direita tem consolidado o seu crescimento à força da culpabilização dos imigrantes pela situação económica, a diferença de avaliação é de  27%, no primeiro grupo, para 58%, no segundo. No Reino Unido do UKIP, os 54% não informados contrastam com os 31% a quem foram dados números concretos. E na França da Frente Nacional, do primeiro para o segundo grupo há uma subida de 15% para 29%, quase o dobro.

À excepção da Suécia (19% no primeiro grupo, 17% no segundo) e da Polónia (caso único em que a percentagem é exactamente a mesma), em todos os casos a percentagem de cidadãos que acredita haver demasiados imigrantes no seu país é mais reduzida, e em alguns casos, de forma muito acentuada, quando tem acesso a dados reais sobre o número de imigrantes a viver no território. EUA e Rússia revelam a mesma tendência que a dos países da UE.

A crença de que há “imigrantes a mais” assenta, ao que parece, em percepções, propaganda, ideias erróneas não sustentadas por números reais. E é nessa ausência de informação veraz que os partidos de extrema-direita encontram terreno fértil para plantar preconceitos, apontar falsos culpados e contabilizar votos com um simples apontar de dedo aos bodes expiatórios mais frágeis.

Descendo ao muito particular, o caso concreto do meu bairro, no Porto. Nos últimos anos, instalaram-se aqui dezenas de famílias de diversas proveniências mas em particular do Bangladesh e do Brasil. Gente normalíssima, com trabalhos mais ou menos precários como toda a gente, com filhos pequenos na escola, que faz as compras na mercearia da esquina e recebe amigos em casa. Nunca deram problemas a quem já cá estava nem vice-versa. Nos últimos meses, um grupo de cinco ou seis romenos (e já havia algumas famílias romenas por cá) foi gerando uma série de situações conflituosas com os vizinhos. O caso chegou à imprensa, saíram umas quantas notícias. Foi quanto bastou para que o partido de extrema-direita que por cá temos espalhasse os seus execráveis cartazes xenófobos pela zona, procurando capitalizar o descontentamento em relação a um pequeníssimo grupo e pegar fogo ao rastilho da intolerância. Ninguém lhes ligou muito, valha a verdade, mas ficou clara a estratégia oportunista.

A tendência é clara e estamos avisados: manipular os dados da imigração rende votos. E custa vidas.

Comments


  1. Em Roma sê romano, lá diz o ditado.

    Os “romenos”, como são vulgarmente conhecidos, não são “romenos”, não formam parte da população “típica” da Roménia.
    Na Roménia, como cá, as pessoas tomam banho, as pessoas sentam-se nas cadeiras, as pessoas compram o bilhete para o comboio. Há os romenos e há os “ciganos romenos”, representado 2% da população da Roménia e, à semelhança de muitos outros sítios, uma etnia com enormes problemas de integração. Lá como cá mas lá de forma particularmente severa.
    E diz quem lá mora que a polícia os trata de forma particularmente dura.

    Há os ciganos romenos que lançam sobre toda a população um anátema de maldição e desconfiança; há o camionista romeno que emigra para França para assinar um contrato de trabalho que acaba por não assinar porque o novel patrão fica a saber que ele é… romeno, condição primeira a única para ser posto na lista dos proscritos. É por isso que se tornam tão detestáveis os “ciganos romenos”, lá como cá…

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