O bichinho

A minha carripana tem vinte anos e uma carcaça sentimental. Os carros velhos têm achaques, engasganços, manias, e há que saber entendê-los. A certa altura, resolveu que só pegaria quando lhe apetecesse.Tratá-lo à bruta não adiantou, insistir só o enervava. Descobri que ele pegava com mais frequência quando era eu a tentar, uma espécie de lealdade para com a dona que me pareceu enternecedora. Em pouco tempo, estava a sussurar-lhe ao painel: “Sou eu, bichinho”, e ele pegava. O mecânico riu desdenhosamente até comprovar que a frase funcionava mesmo e aí teve de engolir a gargalhada.Num certo dia em que ele se mostrava mais caprichoso, e me foi proposto empurrar-me o carro numa descida, a frase mágica foi o meu alerta: “E se me espeto contra a parede?” Foi quanto bastou para que ele arrancasse.

Não percebo nada de mecânica, mas tenho a minha experiência no que toca a animar criaturas inanimadas e não vejo por que motivo uma coisa não há-de colaborar com a outra. A carripana tem uma caixa de velocidades temperamental, um motor de arranque que ė para onde estiver virado,  uma carcaça débil que eu tento defender da couraça rija das outras máquinas. Mas ė fiável à sua maneira e leal a quem a entende.

Nunca tive um carro novo, conduzi sempre máquinas antigas e cansadas, que tinham a sua memória de outros donos e outros vicíos, e me aceitavam ou não conforme lhes parecesse. Aos carros novos vejo-os como criaturas insolentes e impetuosas, reluzentes  na estrada, ansiosas por mostrar o seu furor. Os carros velhos têm histórias, ouviram conversas, rodaram por muitos sítios, conheciam os caminhos de sempre e aqueles que os donos evitavam, e gravaram tudo isso num sítio muito seu e que é mais do que engrenagens e velas e pedais. Sabem, entre outras coisas, que os donos aprendem, não demasiado cedo, que é preciso voltar aos sítios onde se foi infeliz, atravessar as mesmas avenidas, entrar nas mesmas rotundas, não por masoquismo, longe disso, mas para que a consciência alcance que tudo passa, não há mal que sempre dure, e que  um dia se poderá olhar o velho como novo e descobrir o nunca visto.

O meu bichinho é um rafeiro desconfiado e inquieto, sem paciência para nervosismos exibicionistas, mas que nunca se furtou ao dever quando era mesmo preciso sair dali naquele momento. Passa os dias na rua, sem garagem que o cubra, e circula aos solavancos pelas ruas tortuosas da minha cidade, por cima das tais pedras sujas e gastas da canção. Eu retribuo reconhecendo-lhe o direito à ineficácia e ao achaque, e nisso andamos e andaremos até ao dia longínquo em que o motor não arranque mais.

Comments

  1. Antonio Morais says:

    Sublime. Para mim que só tenho carros assim, é um bálsamo para a alma.

  2. Maquiavel says:

    O meu bicho é um Peugeot 205 XAD matriculado em 1995, que veio pra casa novo.
    Mas o meu bichinho é um Citroën Dyane de… 1982? que veio para cas aquase novo em 1990 e que o meu pai deixou ao relento. Todo cheio de ferrugem mas nunca se recusou a pegar, e, desafiante, com o lado do silenciador esboroado, diz a todos que “ESTOU AQUI”!.
    Linda bicharada!

  3. José almeida says:

    Não vejo só um carro velho…. Gostei de ler.


  4. E o meu também é um “inho” Nissan Micra de 1995 que comprei novo, trato bem mas que a CML decidiu que, a partir de Novembro, não vai poder andar por certas artérias da cidade que me são imprescindíveis. Agora, que está tudo teso, teremos que ir comprar carros novos? Só faltava esta, depois da CES e de todos os outros roubos. Raios os partam!
    O texto? Excelente, como sempre, claro!

  5. Hélder Pereira says:

    Excelente texto. Como o meu bichinho é um fiel Opel Corsa também de já provecta idade (1994), devo dizer que até fiquei enternecido.

  6. Eduardo says:

    Muito bom. Mas olhe que carro novo tem cá um cheirinho…


  7. Eu sabia que não estava sozinha 🙂
    Quanto a carros novos, nunca cheirei, mas acredito.

  8. Orvalho says:

    A propósito no “nunca cheirei, mas acredito:
    Ó mãe, pão com queijo é que é bom! / Como sabes se nunca comeste? / Mas vi comer !
    Abstraindo a poluição, os carros antigos são maravilhosos. E andar a pé, também !!


  9. Desculpai mas eu bato-vos “aos pontos” – em julho tive de pôr o carro na garagem pois que ando tão pousas vezes porque não ando é em IP há 2 anos, porque tenho mêdo de quem tem carro apenas com acelerador e esquece-se de que devia ter travão e faz-me mal que passem por mim a 250 km/hora e eu nunca tenho pressa Aqui na rua o mecânico disse que a “mecânica está extraordinária” ,e lá pôs a bateria nova e óleo Castrol já que me esqueço de ver o nível quando convém, e está prontinho para ir, em dezembro, à inspecção, já que é de dezembro de 1986 que terá de ir – Até disseram que merecia uma pinturinha (as intempéries e os pombos gostam dele) pois está magnífico – Quando não me caçarem mais IRS e IVA assim farei pois que merece e sempre se portou bem nos 28 anos de vida que tem e em viagens até fora do país – Acrescento que tenho Carta desde setembro de 1965 e nunca tive um acidente e não ando a 40 km/ mas sim, e sempre,, no limite permitido em cada estrada a menos que tenha de andar atrás dos TIR que nem sempre são simpáticos – É um colt 1200 que é a prenda de Natal que me ofereci e não conto ter outro na vida que me resta – antes deste tive um Y10 12 anos mas era uma casquinha tão frágil que me sentia insegura e pensei que merecia um que desse mais segurança pelo menos aparentemente – O facto de nunca ter tido acidente nenhum não invalida que o seguro – contra tudo incluindo intempéries e passageiros e família – não aumente, e muito, todos os anos, mesmo com os tais 40% de desconto pois não dão mais benesses – deveriam até dar-me um carro NOVO pois só dou lucro à Cª de Seguros tanto assim que jé tendo sido seguradora menos ladra, há 10 anos, talvez, para me agraciar ofereceram-me arranjo gratuito de algo, o que aproveitei – pois uma das portas estava mais do que riscada por vizinhos interessantes que, quando não cabem, empurrar e riscaram-mo e deixam a cor da tinta deles a atestar o respeito pelo “alheio” Até os taxistas (já que nem sempre encontro onde estacionar dentro desta cidade infernal) quando digo que pare ao pé do meu mitsubishi Colt dizem – nunca a senhora troque este carro mesmo com essa “idade” – Curiosamente há mais de um ano que todos os dias tiro do para-brisas um papel de alguém que quer COMPRAR CARROS VELHOS – acho graça – claro que não vendo


  10. Creio que me esqueci de dizer que é de dezembro 1996 – nem sei quento anos tem – 28 ?? Pois será – e ainda ontem andei nele – é um prazer aquele pópó – não sei se já merece participar no Rally dos calhambeques – tenho de participar nessa bela iniciativa

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