A dona de casa, o “idoso” e o jornal

O Público, em tempos idos, tinha directores que escreviam os Editoriais. Não eram grande coisa, é verdade – em muitos casos eram mesmo péssimos -, mas quem os escrevia assumia a responsabilidade. Depois, passaram a ser anónimos com a duvidosa pretensão de responsabilizar o jornal no seu todo, o que é o mesmo que não responsabilizar ninguém. É lá com eles. Mas nós, os viciados no jornal diário, sempre em busca de avatares de jornais honrados como o saudoso Diário de Lisboa, por exemplo, lá vamos tragando a nossa decepção quotidiana com O Público e o DN. Falo por mim, claro.

Hoje, no seu editorial, o Público, a propósito de uma dada personagem política emergente, escreve este naco: “…o excesso da personagem é fundamental para captar a dona de casa preocupada com o almoço ou o pensionista estarrecido com o crime que acabou de ler no seu tablóide favorito”. Assim mesmo. Os estereótipos e os preconceitos como os interiorizou o bronco editorialista, a quem nem ocorreu que o “pensionista” pode ter na mão precisamente o jornal em que ele publica estas idiotices e pensar: “nesta parte do tablóide ele tem razão; estou a ler o Público”. A actual “imprensa de referência” está repleta deste tipo de lixo. E este jornalismo é, de facto, algo parecido com um crime. E este pensionista só tem uma coisa a dizer a estes editorialistas: sois umas bestas.

Comments

  1. A comunicação social está repleta de comentadores que apareceram que nem cogumelos’ pie a acompanhar um Tea Party nacional e pelos mesmos de sempre que se revezam sucessivamente, sucedendo-se uns aos outros ou em simultâneo. Nos canais televisivos, a coisa tende a piorar bastante.

    Monotonia e previsibilidade antecipada. Até uma saudável raiva vai desaparecendo e a gente muda de canal, para um de culinária, por exemplo….

  2. 1° resultado do comando no DN do Proença e do André, às ordens do Mosquito e do Montez.

    Ponto final

    por BAPTISTA BASTOSHoje

    Durante sete anos, às quartas-feiras, publiquei no Diário de Notícias, a convite expresso de João Marcelino, uma crítica de costumes e hábitos. Foram sete anos excelentes, de trabalho entendido como tal, e de uma estima comum que se converteu em amizade. Marcelino é um jornalista com os princípios marcantes de outro tempo, de integridade a toda a prova e de uma cortesia e camaradagem que se perdeu quando as palavras foram substituídas por números, e quem dirigia foi trocado por porta-vozes estipendiados. Como a personagem de Sartre, “je suis irrécuperable” na certeza das minhas convicções sem certezas absolutas. Vivo, ainda hoje, sob o fascínio das palavras e do seu poder subversivo. João Marcelino pertencia, e pertence, a essa estirpe de jornalistas conhecedora de que só as palavras aproximam os homens e nos ensinam da sua imperfeita grandeza. Ele e a sua equipa fizeram de um jornal cinzento, pusilânime e obediente um empreendimento cultural honrado e limpo. Honro-me de ter participado no projecto a que já não pertenço por motivos a que sou alheio.

    Fui posto fora, mas não das palavras. Vou com elas, velhas amantes, para aonde haja um jornal que as queira e admita a indignação e a cólera como elementos de afecto, e sinais de esperança, de coragem e de tenacidade. Nunca João Marcelino admitiu recados nem aceitou encomendas enviesadas tendentes a amenizar o texto, portanto as ideias, do seu colaborador. Nos tempos que correm, o que em outros anteriores seria normal é, agora, virtude e coragem. Estou-lhe grato pela rectidão de carácter, tantas vezes demonstrada.

    Claro que também tive o suporte de milhares de leitores. O número foi crescendo na medida em que eles percebiam que o autor não envilecera com a idade nem amolecera as indignações com o peso e as ameaças da época sombria. Na edição digital do DN, as minhas crónicas chegaram a obter 15 mil visualizações, dezenas de impressões e de envios. Admiti, tola soberba!, que havia quem encontrasse nas palavras semanais uma ração de esperança, um apelo à não desistência e um aceno de confiança na força interior de cada um. Apenas relato, não lamurio. Mas não posso calar o que me parece um acto absurdo, somente justificado pelas ascensões de novos poderes. Porém, esses novos poderes são, eles próprios, transitórios pela natureza das suas mediocridades e pelo oportunismo das suas evidências.

    As palavras, meus dilectos, nunca são uma memória a fundo perdido. A pátria está um pouco exausta de tanta vilania, mas não soçobra porque há quem não queira. Se me aceitarem, estou entre esses. Não quero nem posso pôr um derradeiro ponto final no texto sem o dedicar a todos os que fizeram do Diário de Notícias o jornal que tem sido. E aos leitores que o ajudaram a ser.
    8OUT2014 DN

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