Felizes para sempre

felizes sempre
Uma coisa é garantida na maior parte dos contos de fadas (com ou sem bruxas, ogres, gigantes, duendes e outra fauna diversa) desde que os seus protagonistas sejam príncipes ou princesas: no fim, casam-se e são muito felizes.

Claro que quando as personagens são plebeus arriscam-se a ser, como aconteceu com a Capuchinho Vermelho e a Avó, comidas por um lobo ou outro predador adequado o que, no caso, tem sentido moral, já que a fedelha era desobediente e atiradiça e a avó manifestava uma lamentável negligência com a qualidade da fechadura da porta. Porém, quando se trata de ser ou ascender ao estatuto de príncipe, a coisa fia mais fino.

Claro que, como bem sabeis, há de tudo no início destas histórias e nem sempre a condição aristocrática é inata. Por vezes é adquirida e nem sempre com expedientes muito curiais. Desde as e os trepadores sociais – que podem ser de origens humildes mas, no caso delas, são sempre lindas, trabalhadeiras e muuuuuito boazinhas -, como a humilde filha do lenhador, de seu nome Rapunzel, até ao sortudo dono do Gato de Botas, promovido, sem mérito que se visse, a Marquês de Carabás pelo espertalhão do bichano, única e humilde herança que seu pai lhe deixara. Há ainda as deserdadas da sorte que, de origens aristocráticas – como a Branca de Neve, a Cinderela, a Guardadora de Patos – se encontram reduzidas à pobreza, mas não conformadas. Finalmente, temos a considerar as que em tudo – condição real e fortuna – se equiparam ao seu príncipe encantado – e encantador, como é de mister – como a Bela Adormecida, cujos méritos não são bem conhecidos posto que passa a maior parte da história a dormir.

Mas era bela, sem dúvida, ou o príncipe jamais venceria a repugnância de beijar uma criatura adormecida durante anos e cujo estado de higiene, passado todo esse tempo, deveria ser lastimável.

Mas no fim, por muitos e desvairados caminhos, todos ascendem, recuperam ou mantêm a desejada condição de príncipe ou princesa. E casam. E como casam! Geralmente com grandes festejos e alegria popular. E, garantem-nos as histórias, todos serão felizes para sempre. E é neste ínterim que se me levanta a dúvida nunca desfeita: será que os povos que tais príncipes irão governar partilham e beneficiam dessa felicidade?

Comments

  1. orquidea says:

    Até parece que não foi criança| Ser criança é isto mesmo, a fantasia, o sonho, o bem que supera o mal, o fantástico. é com isto que as crianças vão estruturando a personalidade.
    Para mim são bem piores as histórias onde o final é a morte e um rol de desgraças como “a menina dos fásforos” não será bem este o título, mas deve conhecer, ou o “gigante egoísta”, que apesar de tudo até nem é má. E muitas outras. As crianças de hoje já veem a dura realidade, quer no seu dia a dia quer na televisão e, até, nos jogos e mesmo nos desenhos animados.
    Alias, o que lhes falta é, precisamente, ouvirem essas histórias de encantar que os pais não contam por falta de tempo e a maioria dos avós estão, ainda, no ativo. O Homem cresce com o sonho. Deixem-nas sonhar. Lá virá o tempo em que hão de acordar.


    • Não compreendo o seu comentário, orquidea. Não só não me parece ter a ver com a minha despretensiosa nota, como mostra que a senhora não é grande leitora desses contos. Tem razão no papel delas na estrutura da personalidade mas não pelos motivos que aponta. Nem se pode dizer, rigorosamente, que estas sejam histórias infantis. Embora desde os nossos antepassados que a sua audição ou leitura seja edificante para as crianças que têm delas uma percepção diferente dos adultos. De facto, prepara-as para a dureza da realidade. Pelo menos nas suas versões mais elaboradas e próximas dos originais, não nas adaptações cor-de-rosa que há por aí. Perrault, os Grimm, Andersen, entre outros, valem uma visita, pela seriedade do seu trabalho – além do valor literário, claro. Há, porém, contos que são até perturbantes para um adulto. De resto, se tivéssemos aqui outro espaço, seria interessante discutir as análises de Bettelheim em “A psicanálise dos Contos de Fadas”, onde se procura o significado profundo do que neles é escrito e se ensaia o seu papel psicosocial.

  2. orquídea says:

    Por ventura não entendi o seu comentário inicial. Pareceu-me que estava a criticar o conteúdo e o objetivo das histórias tradicionais e, pelo que entendi, não concorda com eles.Na minha opinião, embora, algumas histórias estejam longe da realidade, vão de encontro à percepção da realidade própria da idade das crianças. E é isso que interessa! interpretar o mundo de acordo com a sua capacidade presente, É evidente que as histórias tradicionais estão adaptadas a um outro tempo. Hoje temos Mia Couto, álvaro Magalhães, Luísa Dacosta, Sofhia Breyner, Oscar Wilde, José Ed. Agualusa, António Torrado, Couto Viana etc, etc que têm contos adaptados à realidade atual e com os mesmos objetivos. No entanto, há contos atuais que exageram na apresentação do desenvolvimento da história de tão exageradamente próxima da realidade. Isto não é fazer sonhar. Pelo contrário, é conduzir ao pesadelo. Há dias ao contar a história do ” princípe feliz” aos meus alunos e porque não a conhecia, quase chorei, não o fiz por vergonha.Nunca contaria determinadas histórias aos meus filhos, netos e alunos.
    Quanto à “psicanálise dos contos de fadas” esta vale o que vale. A questão da psicanálise é muito controversa ou não fosse eu também psicóloga para além de professora.
    De qualquer forma, não quis criticar o seu comentário até porque concordo, em parte, com ele

  3. xico says:

    Se reparar nas histórias a condição de príncipe apesar de adquirida pelo nascimento, tem de ser merecida pelos valores da coragem, abnegação, sentido de justiça, etc. Isso é que faz um príncipe nas histórias mesmo que possa parecer um sapo. Os povos beneficiarão sempre com esses príncipes e partilharão sempre com eles a sua felicidade. Os que não são assim transformam-se em ogres e fundam repúblicas!

  4. orquídea says:

    É esse um dos objetivos das histórias. Independentemente de ser um sapo ou uma bela figura o importante é a força do caratér. E nos tempos que correm, a ideia que deverá prevalecer é que o bem tem de superar o mal. O sonho é importante nos adultos mas assume maior importância na estruturação da personalidade das crianças e no desenvolvimento dos seus afetos. Na maioria as histórias atuais mudam a linguagem e, de certa forma, o conteúdo, mas o objetivo é o mesmo. Transmitir, fazer passar a mensagem de que o bem compensa. Se isto fosse assimilado por todos, se na infância todos tivessem acesso às histórias, provavelmente o mundo seria melhor.

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