Há Merkels a mais na Alemanha

LicenciadosP_E_D

Comecemos por colocar os pontos nos ii:

1) O ensino técnico em Portugal é tratado como um ensino de segunda, ou pior, olhado frequentemente como uma via para delinquentes e marginais. Isso está muito errado. Deveria ser a base de uma carreira digna, responsável pela introdução de mais qualidade e de novas tecnologias na sociedade. Uma oportunidade para a criação de emprego com potencial para gerar novos empregos;

2) Gosto da Alemanha. Na Alemanha há mulheres e homens com intervenções políticas fantásticas (a minha onda é o bloco de esquerda: Verdes e Die Linke) contra a austeridade. A CDU/CSU de Angela Merkel é apenas a formação política mais votada, não é mais nem menos do que isso. Por isso não me revejo e repudio gracinhas anti-alemãs a roçar a xenofobia.

O que é grave no discurso de Merkel é que a afirmação sobre o excesso de licenciados ibéricos tem a sua dose de ignorância. A percentagem de licenciados portugueses situa-se bem abaixo da percentagem espanhola e alemã (ver gráfico acima). Estamos a falar de realidades distintas. Tem a sua dose de surrealismo porque Merkel assinou uma série de documentos estratégicos da UE (quase todos os tratados e documentos do programa Horizonte 2020) que vão no sentido oposto do que afirma. Tem a sua dose de contradição histórica quando analisamos o desenvolvimento da Alemanha e da Europa do pós-guerra. Se observarmos a produtividade dos países europeus de cada um dos antigos blocos é evidente que esta reflecte bem o efeito acumulado – os licenciados espanhóis e portugueses são muito recentes – de décadas de investimento no ensino secundário e superior. Parece evidente que os países da Europa Ocidental que apostaram mais cedo na educação geral e superior têm hoje uma produtividade superior aos que começaram mais tarde (Portugal e Espanha). Mesmo entre o bloco de leste o efeito é semelhante: a Checoslováquia (hoje Rep. Checa e Eslováquia) foi o país que mais cedo chegou aos 20% de licenciados e aos 80% de população com o ensino secundário concluído. Finalmente, a afirmação de Merkel tem a sua dose de um discurso político defensivo, em jeito de desespero político resultante do início da crise alemã. Depois de inúmeros avisos da esquerda alemã de que a austeridade europeia poderia reflectir-se na Alemanha, sobretudo no consumo de produtos alemães, esta é hoje uma hipótese que tudo indica se começou a materializar no quotidiano do país. E os alemães começam a senti-la.

Continuo a visitar a Alemanha com regularidade e cada vez mais observo situações que raramente ou nunca tinha encontrado: trabalhadores não declarados, gente a dormir na rua, empregados incompetentes e sem experiência nos serviços, comércio a não passar recibos e o pior de tudo é que se nota que a sociedade está mais estratificada. Algo que apreciava na Alemanha era o seu igualitarismo que funcionava relativamente bem entre os 10% e os 90% mais ricos, e isso está-se a perder. Se há algo que está a mais na Alemanha, em Portugal e na Europa é a política de austeridade.

ProdutividadeEuropa

Comments

  1. joao lopes says:

    austeridade foi a receita de uns “supostos licenciados” do FMI que deu pessimos resultados(esta á vista de todos) e receita essa que foi prontamente seguida por alguns “supostos licenciados” que supostamente defendem os interesses dos portugueses.esta à vista em portugal os resultados obtidos pelos “supostos licenciados ” do governo de portugal.


  2. Aquilo que a sra. Merkel sabe acerca de Portugal são coisas que lhe “sopram” na orelha. Ou seja, um conhecimento difuso, básico, pouco sustentado em dados reais ou análises técnicas. Por paradoxal que possa parecer a ideia que os lideres mundiais tem acerca dos problemas reais, é muitas vezes mais empírica e induzida do que pode parecer… Daí que não me surpreenda que a Madame Alemanha diga com facilidade as tretas que o Pedro lhe chutou para a frente à laia de desabafo na última reunião…

  3. Ferdinand says:

    O FMI é tanto pela “austeridade” (que na pratica é mais dívida) como é pela ainda mais criação de crédito/ dívida, nenhuma destas soluções funciona pois são “soluções” que visam servir apenas os interesses do cartel da finança global neoliberal.

    Para que a situação se reequilibrasse era necessário fazer aquilo que o cartel global da finança não quer que se faça, ou seja, a forma de financiamento teria que ser muito mais transparente, e teria que ter o objectivo de financiar a economia real e não o casino global como acontece hoje, e para alcançar essa forma de financiamento era necessário uma entidade com legitimidade, por exemplo, o Banco de Portugal. Hoje, o BdP não é mais que um dos muitos tentáculos do polvo financeiro global.

    Enquanto a população portuguesa continuar apoiar partidos do Centrão, e aqueles que se aliam a ele, continuarão a seguir o caminho da degradação social e económica, a Merkel e o Deutsche Bank agradecem…


  4. Reblogged this on O Retiro do Sossego.


  5. Parabéns pelo post. Inspirou-me para um novo texto, a quem possa interessar:
    http://andancasmedievais.blogspot.de/2014/11/um-mouro-de-trabalho.html


  6. O numero de licenciados não me parece relevante,o que penso isso sim de ter em conta é a utilização prática desse potencial humano.O licenciado pelo facto de o ser não tem necessariamente conhecimentos que sejam uteis e possam ser valorizados por conhecimento prático e profundo.O conhecimento só tem o seu verdadeiro intersse quando se destina a valorizar o fim a que se destina ,e não o ter ou não um «canudo».Não xerá que temos um desejustamento muito grande no contiudo das matérias no ensino?Será que temos por cá no ensino médio cinquenta por cento aulas práticas e cinquenta por cento de horas teóricas como na França e Alemanha já era prática há 50 anos’

Trackbacks


  1. […] países ricos do norte. De preferência com poucos licenciados que a “senhora” Merkel acha que temos cá em […]

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