Inveja

Maria Helena Loureiro

10003458_10202973417162965_3996828043849702933_nA Brasileira ficou, de repente, quase vazia. Uma mulher, sozinha numa mesa a meio do café, lia o Diário de Coimbra e, volta e meia, fazia comentários em voz alta. Achei que era altura de me ir embora, tendo em conta que tinha sido precisamente o Diário de Coimbra que me tinha posto com vontade de arejar. Indecisa, enfiei o nariz no livro que ando a reler à espera que a outra se calasse. E consegui deixar de a ouvir ou, pelo menos, só a ouvia lá muito ao longe que os livros, é verdade, operam milagres.
Tão distraída estava, que mal reparei numa mulher jovem que entrou com uma bébé ao colo, toda embrulhada nuns panos traçados, em overdose de rosa, muito coladinha ao peito da mãe.
Na televisão, muito baixinho, sucediam-se canções conhecidas. Foi então que a mulher começou a cantarolar ao ouvido da pequenita ao mesmo tempo que a fazia dançar e rodopiar no colo e desfazer naqueles sorrisos hesitantes e espantados das bébés, ainda muito concentradas em manter a cabeça em equilíbrio mais ou menos estável.
I believe I can fly
I believe I can touch the sky
I think about it every night and day
Spread wings and fly away
I believe I can soar
I see me running through that open door
I believe I can fly, I believe I can fly
I believe I can fly
If I just spread my wings
(I can fly)
I can fly
(I can fly)
E lembrei-me ali, que a memória tem destas coisas , daquela avó que, há muitos anos, me seguiu em silêncio na rua, a ver-me de mão dada com a Catarina, a trautear uma cantiga que a fazia sempre rir, porque lhe fazia lembrar a neta (é tão parecida! quer ver? e mostrou-me uma fotografia de uma pequenita que não podia ser mais diferente da minha). A neta que nunca veria crescer, que ficaria sempre pequenina…
Inquieta, identifiquei, passados todos estes anos, o que aquela avó sentiu por mim naquele dia. Ali, na mesa do café, poisado o livro, pasmei a olhar para aquela mãe com a mais verde das invejas.

Comments

  1. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    Belíssima crónica. Parabéns.

  2. astrologo pires says:

    bonito tema , gostei. mas o que mais admiro ainda é a autora ter coragem para levar consigo um livro , nos tempos que correm deveria no mínimo ser a autora o alvo das atenções !
    aconteceu-me ainda á bem pouco tempo estar a ler um livro e dei por mim a ser observado como se de um extra terreste se trata-se , realmente ler um livro já é da idade média e chama a atenção que duas pessoas a cantarolar.

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