Dubliners

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“É da família? Venho dizer adeus”, dizia-me uma senhora dos seus sessenta, de Guiness na mão,  quase tão vazia como a minha. Mas não era. Aconteceu estar de roupa negra, em linha com a dos outros convidados do funeral. Mais tarde, John, filho do falecido, viria fazer-me a mesma questão e informando-me que o táxi chegara. “Ah!, não está para o funeral. É tão parecido com ele.” Esperei que ele não se referisse ao morto. O seu olho brilhante, aliado ao adocicado aroma de erva, tranquilizaram-me. “Veio gente de tantos países.” Realmente, o pub estava de tal forma animado que mais parecia estar a decorrer um baptizado. Mas o extremo da vida era o outro. “Posso oferecer-te uma pint?” Ora, já fazia parte do funeral, como poderia recusar?

Mary, a sexagenária um pouco tocada, estava faladora. Tinha estado em Portugal nos seus dezasseis anos. No tempo da outra senhora, portanto. “Ia de carro com o meu tio, que vivia no Carvoeiro. Tudo seco Espanha fora e, de repente, verde como aqui. E os chapéus?! Os portugueses usavam exactamente os mesmos chapéus que os homens de Dublin.”  Não era a primeira vez que ouvia comparações entre portugueses e irlandeses, se bem que em termos de chapéus estava a estrear-me. Sabia das fortes raízes católicas de ambos os países e lancei o isco. “Há imensas igrejas aqui”, disse-lhe como quem deixa uma ponta solta. “Quando os ingleses cá mandavam era proibido haver igrejas católicas com fachada para as ruas principais”, explicou ela. “Depois deles saírem fizemos uma igreja católica por cada uma protestante.” Anotei mentalmente mais esta semelhança. Também tivemos um rei que queimou o ouro do Brasil num mosteiro.

James Joyce,  na sua distante obra “Dubliners” descrevia uma cidade deprimida e pobre. Este funeral,  não sendo ostentativo, não era nada disto. Nem o é a vida destas pessoas, que saem do trabalho a tempo de encherem os  imensos pubs da cidade com as suas conversas ligeiramente colocadas alguns decibéis acima do pacato registo  de casa de chá.  Dublin é uma cidade com uma vida intensa, onde até um funeral é pretexto para umas pint.

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