A favor porque sim

cartaz

Este cartaz está a fazer furor (invento; não sei se está). Paulo Pinto usou-o para dissertar sobre uma tal “inorância tóssica” e Luis M. Jorge trouxe os marretas à discussão para classificar os protagonistas dos debates de ideias em Portugal (não se sabe se todos, se só os referentes ao AO).

Em causa está o facto de este cartaz conter “palavras que não existem nem antes nem depois do AO, que são erros básicos de português, a lembrar a do “cágado cagado” que circula por aí, só para mandar areia para os olhos dos incautos e fazê-los correr, talvez”, escreve Paulo Pinto.

Não conheço a génese do cartaz mas, talvez não por acaso, até reflecte o panorama do que passou a existir depois deste acordo ter sido imposto por lei. Como tem sido repetidamente demonstrado no Aventar, vários são os exemplos de palavras que “não existem nem antes nem depois do AO” e que, graças ao AO,  começaram a aparecer com regularidade. Um exemplo? Veja-se este, saidinho no Diário da República.

Mas prontos (também posso inventar, está bem?), em causa está uma  “sanha ignorante, cega, mal-informada, preconceituosa e de má-fé” quando alguém ousa demonstrar que o AO é um erro e um falhanço. O primeiro porque complicou, em vez de simplificar e o segundo porque nem os acordistas o conseguem usar correctamente. Claramente, uns marretas.

[editado para corrigir uma gralha]

Comments

  1. o cartaz é demasiado parvo.

    • Demasiado parvo é você.
      Essas palavras não foram inventadas por quem é contra, andam por aí nos meios de comunicação social, nas instituições, nos sites do Governo, no Diário da República. São novos erros propiciados pelo acordo divulgados quase diariamente em blogues e páginas do Facebook contra o AO. Mate-se o mensageiro?
      O próprio texto do acordo é ambíguo em várias passagens, o que nas cabeças menos informadas terá o seu efeito. Além disso, o AO veio aumentar a incerteza e insegurança ortográficas, originando fenómenos de hipercorrecção e erros por analogia (por via, sobretudo, das grafias facultativas e inconsistências de palavras cognatas).
      E falta na imagem um corriqueiro “excessão” que já era comum no Brasil e que por cá já se faz notar (http://goo.gl/Ufw6vk).
      Mas palavras para quê, só não vê quem não quer…

      • lamento, mas não custa muito ver que há ali erros grosseiros. se não sabem não precisam inventar. mas não, escolheram as palavras para ridicularizar o acordo com palavras que não existem com o acordo. está errado e é parvo. é como aquela conversa de que todos íamos ter de falar ônibus e carona. pode-se ser a favor ou contra o acordo. excusam de lançar confusão e burrice para o ar, com situações que não mudaram com o AO.

        • E ele a dar… Os erros grosseiros andam todos por aí e não existiam antes do AO, abra os olhos. Divirta-se: https://www.facebook.com/TradutoresContraAO90/photos_stream.

        • se não sabem como se escreve é aprender. a solução – que até fica mal – não é ficar replicando erros. ora “pato de regime”. que é isso?

          • Portanto, o cartaz replica erros, mas esses mesmos erros que foram retirados, repito, de meios de comunicação social, instituições, sites do Governo e Diário da República não replicam erros. Só o cartaz. Espantoso.
            Leia a minha resposta anterior toda novamente.

    • j. manuel cordeiro says:

      Deve ser por causa da metade parva composta pelas “palavras” que costumam aparecer no DR.

      • Estão muito legalistas. 🙂 Vá, vocês até estão contentes com o contraditório, defensores da grafia arcaica. 😉
        Um abraço a todos e boa conferência.

        • e vos digo, talvez não consigam ver. com cartazes como este a vossa causa ainda fica mais perdida.

          • j. manuel cordeiro says:

            Talvez. Por outro lado a cada gralha que se vê na TV, por exemplo, já a causa pró-AO fica mais ganha. É isto, não é?

            A causa poderá estar mais perdida apenas porque a passagem do tempo torna cada vez mais difícil que quem errou assuma o erro.

            Não houve uniformização da escrita e o número de excepções aumentou. Até os acordistas concordam com isto. Só não revogam a lei… porque sim.

        • Ui a grafia arcaica, que horror. Ingleses, franceses e alemães, que continuam a usar e abusar de consoantes mudas, duplas e, imagine-se, até do “ph”, devem ter certamente línguas arcaicas, desactualizadas e de incultura. Só o português faz três reformas ortográficas em 100 anos, ilusoriamente pensando alcançar, assim, patamares de “inovação”. Como se a ortografia fosse um computador a que se acrescentam mais ou menos peças para ficar mais potente. Nada mais estapafúrdio. Só a vantagem de se ter uma norma ortográfica estabilizada para o ensino, por exemplo, justificaria não mexer na ortografia, especialmente nos termos acientíficos, ilógicos e incongruentes do AO.

          • Foram mais reformas do que três: a de 1911 falhou em todas as frentes – era demasiado instável e pouco normativa (basta ler a imprensa de entre 1915 e 1925 para se ver o caos), foi reajustada em 1931, o que não foi um sucesso, mas foi sendo aplicada em várias publicações. Só em 1945 é que se estabilizou com uma nova reforma, porventura a mais equilibrada, entre o respeito fonético e etimológico das palavras. Ainda assim, como sabemos, a de 45 foi reajustada em 1973, e em 1975 e 1986 ensaiaram-se outras (são a génese da de 1990, talvez a mais instável de todas e, infelizmente, a que se está a disseminar).

            Resumindo, pegando no exemplo de alguém que tenha nascido em 1908, essa pessoa terá passado, só em Portugal, por seis (6!) ortografias (oito, se contarmos com os projectos ensaiados em 75 e 86).

            Isto dá uma média de quase uma reforma por cada 16 anos, quase duas por geração. Não é, de todo, uma situação normal, não sei se não será um caso inédito no mundo inteiro, é uma questão de verificar.

            Querer impor, sem se saber bem porquê, uma reforma como a de 1990, instável, propiciadora de dúvidas e de erros grosseiros, desrespeitadora da fonética (insisto nos valores diacríticos de algumas consoantes, como é inegável) e da etimologia, ao mesmo tempo, tem sido um dos piores erros pedagógicos e culturais dos últimos anos. Está a sair muito caro ao futuro intelectual do nosso país.

            Negar a miríade de novos erros/palermices (extrapolações ao AO, mas proporcionadas por ele) que têm sido oficialmente disseminados (pelo menos por responsáveis pela língua, i. e., Estado, editores, professores, etc.), erros esses que têm sido apontados aqui no Avatar, mas também noutros locais, será negacionismo ou simples má-fé.

          • Reformas dignas desse nome foram apenas três. Mas sim, houve mais mexidas na língua, acertos pontuais que também colocaram em causa a necessária estabilidade da ortografia.

          • lá está. mais exageros. uma reforma a cada 16 anos. assim se faz esta discussão.

          • Peço desculpa, mas insisto na questão meramente factual e aritmética, sendo “exageros”, ou não, é essa a realidade e se trouxe para a discussão foi apenas como elemento objectivo, se tem ou não importância, isso é com cada um.

            Ora bem, dividindo por décadas, teríamos este caso:

            – em 1910 eu escreveria com uma ortografia (pré 1911, recordada para as graçolas da pharmácia – que na verdade era pharmacia);

            – em 1920, já tinha outra ortografia (em vigor desde 1911, louvada como a primeira do século XX, a que retirou o ph à farmácia, acentuou esdrúxulas, mas manteve a gemma, o mello e o fructo, por exemplo);

            – em 1940, nova ortografia (implementada em 25 de Maio de 1931 – bem sei que ninguém fala desta, mas foi posta em prática, é uma realidade histórica – introduziu o fruto, o cetro, o noturno, a ação e vários acentos circunflexos que ainda andam por aí);

            – em 1950, mais uma nova ortografia (o resultado da reforma de 1945, a mais duradoura e contemporânea da maioria dos portugueses, manteve o fruto, a farmácia e a gema, mas reintroduziu o ceptro, o nocturno e a acção);

            – em 1980 já era outra (em virtude dos acertos de 1973, basicamente retiraram o bàsicamente e toda a acentuação grave que marcava sílabas não tónicas, reflectiu-se sobretudo nos advérbios de modo, mas também retirou os chapeuzinhos (chapèuzinhos e cafèzinhos) quase todos àquela circunflexão em “pêso” que vinha de 1931 e 45);

            – em 2010 mais uma (evidentemente trata-se da de 1990, que iria entrar em vigor em 1995, mas só depois de 2009 foi oficializada e é a que se tem debatido actualmente, ou “atualmente”, para não melindrar os defensores mais voluntaristas e camisolados – e não me venham com o camisolado como grosseria, pode ser uma t-shirt – olha o estrangeirismo maroto – levezinha e envergada com humor).

            Portanto, em 100 anos, temos seis formas distintas de escrever. As mudanças não foram, obviamente, equiparáveis, houve mais ou menos impactos, mas a aritmética é simples e fácil de fazer, as avaliações é que ficam com cada um, e são, naturalmente, opinativas, logo diferentes.
            Se isto é irrelevante ou não, mais uma vez, dependerá das circunstâncias de cada um. Não podemos é negar a realidade (ou podemos, sei lá, podemos fazer tudo, desde que sejamos honestos uns para os outros e não nos armemos em paternalistas ou selectores de factos).

            PS – penso que na discussão geral (e não me refiro aqui ao aventar – a ver se acerto agora – mas à discussão tida noutras esferas mais académicas) a reforma de 1931 nunca é considerada, não sei se por ignorância, se por haver a ideia de que foi uma reforma ligeira. Com efeito, não foi ligeira, foi até bem radical, foi ela que levantou a questão da abolição de consoantes com valor diacrítico e das consoantes geminadas (ll, bb, mm) e a abolição do k, w e y. Foi uma reforma implementada, as edições periódicas e gerais da época reflectem isso, os programas de ensino também, mas, mais uma vez, tem sido omitida, o que diz muito do conhecimento geral de quem reforma agora.

            Felizmente, a história permite-nos repor a realidade factual (a interpretativa é vossa), quem tiver paciência e se interessar, pode até consultar o documento introdutório do AO de 1931 no Diário do Governo:
            https://dre.pt/application/file/525546

            Bom, quanto ao resto, mais uma vez, são contas de somar e dividir, e fico-me por aqui, pedindo apenas que se evitem as condescendências sobre a forma de fazer a discussão.

  2. A «génese do cartaz» é, muito provavelmente, este meu artigo…

    http://www.publico.pt/portugal/noticia/apocalise-abruto-1688911

    … Que por sua vez se baseou num trabalho contínuo de «inventariação de asneiras» (que está a ser) feito por João Pedro Graça e divulgado no sítio da Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico:

    http://ilcao.cedilha.net/?page_id=16110

    • A génese do cartaz são os inúmeros erros que pululam por aí apontados em vários blogues e páginas do Facebook contra o acordo, não só o seu artigo. Felizmente, a denúncia é constante e generalizada.

  3. J. Manuel Cordeiro, permita-me só uma pequena chamada de atenção. No seu texto, onde se lê “Em causa está o facto deste cartaz conter…”, deve ler-se “Em causa está o facto de este cartaz conter…”. A preposição “de” não se contrai com o determinante “este”, quando o verbo ocorre no infinitivo (“conter”). Esta é uma regra inscrita no AO45 e que se mantém no AO90.

    • O AO tem a ver com a ortografia, não com a gramática, não misture as coisas. Se o objectivo era o de atirar lama a alguém que é anti-AO por dar um erro, fique-se com esta: antes com erros próprios do que com erros oficiais (AO).

      • pedro barros says:

        Não se preocupe. Já se sabe que eles, os desacordistas, como nunca ficam com a carne, satisfazem-se com os ossos.

      • Base XVIII – Do apóstrofo
        «Quando a preposição de se combina com as formas articulares ou pronominais o, a, os, as, ou com quaisquer pronomes ou advérbios começados por vogal, mas acontece estarem essas palavras integradas em construções de infinitivo, não se emprega o apóstrofo, nem se funde a preposição com a forma imediata, escrevendo-se estas duas separadamente: a fim de ele compreender, apesar de o não ter visto; em virtude de os nossos pais serem bondosos; o facto de o conhecer; por causa de aqui estares». (AO90)

        Parte segunda – XXXIV
        «Abolição do apóstrofo nas dissoluções gráficas de combinações da preposição de com formas do artigo definido, pronomes e advérbios, quando estas formas estão ligadas a uma construção de infinitivo. (Exemplo: Em virtude de os nossos pais serem bondosos.)» (AO45)

        Com todo o respeito pela opinião contrária.

      • J. Manuel Cordeiro, não me interprete mal. Não quis “enlamear” o seu texto (muito bem escrito). Pelos vistos, ofendi a sensibilidade de algum radicalismo que não o seu. Aquele abraço.

    • j. manuel cordeiro says:

      Agradecido pelo reparo.

  4. pedro barros says:

    O cartaz faz justiça à gentalha que o promove.. Os exemplos das palavras mal escritas (que não têm nada a ver com o AO), e o facto de o cartaz anunciar um “debate” (onde só estão marretas e velhos do restelo, mostra bem que o desacordismo é um somatório de estupidez, má-fé e ignorância.

    • Nightwish says:

      O facto de não haver uma instituição pública nem um meio de comunicação que não acerte no acordo não pode ser culpa deste, é evidente.

      • j. manuel cordeiro says:

        E, no entanto, existe uma coisa chamada lógica. Quando esta não existe, reina o arbítrio.

        Este acordo baixou a vertente lógica da escrita (um exemplo? veja-se “Egito” e “egípcio”) e, consequentemente, é normal que o arbítrio conduza a novos erros.

        É evidente que instituições públicas e meios de comunicação social não acertarem na escrita conforme o novo acordo é culpa deste, tanto pelo exposto como pelo óbvio: se este não existisse, estes novos erros não existiriam.

    • António Fernando Nabais says:

      O pedro deve ser irmão de um silva que já andou por estas caixas de comentários, como se pode notar pela mesma educação refinada que revela, coisa aprendida nos colégios mais caros e em bailes de debutantes, que os pais do pedro não olharam a despesas, viva o luxo!
      Isso não me espanta, é claro, porque não se esperaria outra coisa, tendo em conta a elevação com que debate.
      O que me admira é o pedro considerar que há erros naquele cartaz, porque o pedro, em mais do que uma caixa de comentários, tem afirmado que escrever “contato”, “fato” ou “corrução” (por contacto, facto e corrupção, respectivamente) não é o mesmo que dar erros.
      Ó pedro, então as palavras do cartaz estão todas erradas? Não me diga!
      Se houver ali erros, coisa decerto espantosa, poderia dizer-me se já os tinha visto antes da aplicação do seu querido AO90?
      Responda-me, por favor, partilhe um osso comigo, ande lá, não rosne dessa maneira, que há comida para todos!

  5. «Gentalha», «marretas», «velhos do Restelo», «somatório de estupidez, má-fé e ignorância»… Os «argumentos» dos «acordistas» são, já se sabe, os insultos, as ameaças e as penalizações. Dar-se-iam muito bem no Portugal de antes do 25 de Abril… perdão, «abril».

    Seria interessante que eles se atrevessem a dizer a ingleses (aliás, a qualquer anglófono) e/ou a franceses (aliás, a qualquer francófono) que são «gentalha», «marretas», «estúpidos», «ignorantes», por, precisamente, utilizarem ortografias que não registam alterações significativas há séculos. Mas poderiam não gostar das reacções…

    • Nightwish says:

      O caso do inglês é muito diferente, nunca houve nenhuma norma e nunca seria possível criar uma depois da época da colonização.

  6. Zé dos Anzóis says:

    Os atrasados mentais abortistas, na sua sanha de defensores da ignorância, da subserviência e da arrogância, só mostram que estão cheios de medo de cada vez que se organiza uma iniciativa que ponha a nu as deficiências do seu tão adorado Aborto Ortográfico.
    O facto de não perceberem o sarcasmo latente no cartaz só prova que não passam de uma espécie cobarde, abrutalhada e alheada da realidade. A realidade é esta: o Aborto é rejeitado pelas pessoas pensantes e, mesmo aquelas que se vêem
    Entre um imbecil que escreve tudo em minúsculas, um idiota que escreve o próprio nome em minúsculas (deve ser acordite aguda) e um doutorado de merda oriundo de um blogue de viúvas do Sócrates, venha o Diabo e escolha. A ignorância – ou profunda má fé – na compreensão da mensagem de um cartaz é o ponto de reunião desses três anormais e de todos aqueles que acham que a questão está resolvida, é pacífica e que quem se opõe à ignomínia não passa de velho do Restelo. Enganam-se, que é cada vez mais actual, polémica e os “contristas” afinal estão em maioria na sociedade.
    Mais ainda, muita gente que se vê obrigada a usar esse lixo na vida profissional recusa-o liminarmente na vida privada.

    Há seis anos, tínhamos paz e estabilidade linguística. Agora temos os “patos” de regime para a asneira, apoiados por broncos e lusófonos de pacotilha. Para ser mais direCto: fodam-se, bando de ignorantes.

  7. j. manuel cordeiro says:

    Uma forma simples de avaliar o AO consiste em responder a estas questões: O AO90 uniformizou a escrita e passou a ser usado pelos diversos países da CPLP, conforme argumentado para justificar a sua aprovação?

    A resposta é não em ambos os casos.

    Portanto, é inútil.

    O que é inútil elimina-se.

    Simples.

  8. fantasiaseperplexidades says:

    Por acaso, a génese do cartaz está numa ideia minha de construir uma “nuvem” de pseudo-palavras nem conforme o AO nem antes pelo contrário (caro Octávio, por acaso anterior ao seu excelente artigo no Público). A forma final é de um designer.
    Só quem nunca leu jornais ou viu legendas nas TVs pode achar que é má-fé a denúncia da situação.

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