Portugueses falidos que resgatam bancos

Passos e Salgado

Tal como quando se nacionalizou o banco do regime cavaquista, também por altura da intervenção do Estado no BES nos foi dito que pouco ou nada havia a temer e que os interesses dos cidadãos, tal como as suas carteiras, estavam salvaguardados. Claro que, diz a nossa experiência colectiva recente, as palavras que saem do aparelho vocal dos responsáveis políticos tendem a valer cada vez menos. E enquanto a factura do BPN parece não ter fim, a factura do BES é ainda uma incógnita que ameaça transformar-se num prolongado sorvedouro de recursos públicos, sem que as perspectivas de que algum dia alguém venha a ser responsabilizado pelo sucedido sejam particularmente animadoras.

Sobre este tema, assistimos em Outubro a um momento caricato em que o primeiro-ministro afirmou que

O Estado não usará dinheiro dos contribuintes para suportar directamente a resolução do banco [BES] nem as consequências da venda do Novo Banco

para logo a seguir referir que

“há sempre efeitos indirectos, na medida em que o Estado tem um banco público e o prejuízo, a existir prejuízo na venda do Novo Banco, será suportado pelo sistema bancário“.

Ou seja, trocado em miúdos, os contribuintes vão efectivamente pagar uma parte da factura das aventuras de Ricardo Salgado. Já a estão a pagar aliás. Até porque de todos os integrantes do sistema bancário que Pedro Passos Coelho refere, a fatia mais larga do prejuízo fica a cargo da CGD, o que é mais ou menos a mesma coisa que dizer que fica a cargo de todos nós.

Como se tudo isto não fosse já suficiente, o Eurostat informou-nos hoje sobre a probabilidade da capitalização do Novo Banco obrigar a uma revisão em alta dos números do défice, que o instituto estima aproximar-se actualmente de 4,5%, longe da meta proposta pelo governo e imposta por Bruxelas. E já todos conhecemos muito bem a fórmula habitualmente utilizada pelo governo para colmatar estes desvios: austeridade. Seja através de artimanhas fiscais sofisticadas, seja através de mais cortes, seja através do emagrecimento das funções sociais do Estado. De uma maneira ou de outra, acabaremos sempre por pagar a fatia de leão desta factura. E como se tudo isto não chegasse, parece que ainda teremos que pagar 1,8 milhões de euros ao ex-ministro socrático Manuel Pinho. Aguentamos? Ai aguentamos aguentamos. E aguentamos porque queremos.

Comments

  1. Rui Silva says:

    Devia ser organizada uma manifestação popular com as três seguintes exigências :

    1) Venda em leilão do Novo Banco pelo valor de 4,9 MM ( valor exato do erário público usado). Se aparecer alguém que dê 1 cent. mais, o banco deve ser vendido (seja a quem for) . Isto permite a recuperação imediata do dinheiro, evitando assim que o estado “jogue” com o dinheiro do contribuinte.

    2) Privatização da CGD, para que não haja a tentação de usar o dinheiro público de alguma maneira, sub-reptícia, para subsidiar os banqueiros e suas negociatas.

    3) Parar a historia do Banco de Fomento enquanto é tempo.

    cumps

    Rui Silva

    • Nightwish says:

      1) Ninguém vai dar 4,9 MM por um banco cheio de problemas legais de acordos não assumidos;

      2)O que falta é mais um banco privado para o regabofe bancário que temos, sem dúvida

      3)O português ou o europeu?


    • 1. Força, tem o meu apoio
      2. Criem-se mecanismos para que a CGD seja bem gerida. Não me parece descabido que os Estados tenham bancos, como acontece por todo o mundo.
      3. Não tenho opinião formada.

      • Rui Silva says:

        2. O único mecanismo que eu conheço para que alguma coisa seja bem gerida é que quem gere sofra as consequências das suas decisões ou numa palavra – privatizar.
        Uma coisa que já melhorou muito para nós portuguese foi a perca de possibilidade de produzir moeda. A hiperinflação alemã dos anos 20 foi evitada a partir do momento que ( já após a 2ª guerra) a administração do Deutsche Bank se tornou completamente independente do governo. Deixando de produzir moeda ás ordens do governo.
        3. Mas quando o referido banco começar a “trabalhar” vai começar a formar a opinião e não há razão nenhuma para que essa opinião seja boa. Serão mais uns quantos “Jobs” para certos “boys”, a apoiarem o capitalismo de compadrio como a CGD.
        Cumps

        Rui SIlva


        • Por todo o mundo existem empresas públicas bem geridas, que apresentam lucros. O problema não está no facto de ser pública ou privada, está na supervisão (ou na ausência dela) e no facto de sermos um país onde as regras e as leis existem para ser quebradas, sendo que o exemplo costuma vir de cima.

          Quanto ao banco de fomento, não tendo opinião formada, temo bem que acabe por se tornar naquilo que refere.

          • Rui Silva says:

            Caro João Mendes,
            Evidentemente que não existe nenhuma “lei cósmica” que diga que a gestão pública tem que conduzir sempre a resultados negativos ( as pessoas são as mesmas estando no público ou no privado). No entanto como o lucro não é o objetivo primeiro de uma empresa pública, esta será arrastada mais tarde ou mais cedo para a má gestão. Tal qual uma grande empresa ou multinacional que se torna instável porque o seu objetivo deixa de ser o lucro. Claro que o João neste momento diz:

            ah…mas as multinacionais e grandes empresas perduram e estão aí e fazem o que querem…

            Mas isso deve-se a que, no entretanto, estableceram ligações ao poder politico que lhe garante a aniquilação (esta palavra parece-me muito exagerada, mas neste momento não me ocorre outra melhor) da concorrência.

            Normalmente quando há lucro numa empresa pública trata-se de um monopólio e isso quer dizer também que provavelmente o preço que pagamos pelo bem/serviço está demasiado caro. Ou seja é sempre mau a existência de empresas públicas. Pois pagamos a má gestão através de injeção de capital para cobrir prejuízos ou através de preços demasiado elevados.

            cps

            Rui Silva


          • “No entanto como o lucro não é o objetivo primeiro de uma empresa pública, esta será arrastada mais tarde ou mais cedo para a má gestão.” discordo em absoluto desta premissa. Não se trata de uma inevitabilidade. Trata-se antes de uma combinação de incompetência com a má gestão que caracteriza o sector público infestado de boys.

            De resto acredito que uma empresa pública pode dar lucro sem que tal resulte de um monopólio. Basta seguir as melhores práticas de gestão e ser devidamente supervisionada.

          • Rui Silva says:

            Caro João Mendes,

            O problema é mesmo esse , onde obter essas pessoas que vão constituir essa supervisão?
            Nos humanos, não somos muito diferentes um dos outros. Respondemos a estímulos e somos altamente racionais.
            Eu ao contrário de Platão não acredito na existência dos homens impolutos que são especialmente educados para exercer a difícil tarefa da governação que nos pode levar por exemplo a uma Monarquia ou a outro poder qualquer sistema, que para facilitar a conversa podemos chamar “Aristrocracia”. Acredito mais no conceito de “Homo economicus”.

            cps

            Rui SIlva

  2. José almeida says:

    ‘Aguentamos’….. É está a essência do problema não numérico. A essência, deve ser imputada aos partidos do poder, por não definirem um rumo, uma estratégia, uma escolha. E tudo parece que não se altera. Mais promessas ôcas, numéricas, baseadas no tira daqui cobre acolá. Continua a nenhum deles criar um rumo, uma estratégia. A esquerda tem a solução, mas nunca terá poder.

    Desafortunadamente… Aguentamos!

    “Respondendo” à questão, ‘Aguentamos?’, acho que vão ter que aguentar, porque quem podia alterar o país, os seus jovens e pessoas qualificadas, não param de fugir. Ficamos sem água para regar. Vai ser preciso aguentar muitos anos, talvez uma geração. Até lá, vamos vivendo a resignação!

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