E depois do 25 de Abril

Cavaco

O dia inicial inteiro e limpo” tem sido sujeito a tempestades imensas. Hoje celebramos a revolução mas não há muito à nossa volta para celebrar. O país vive dias de penúria e assiste ao rápido desmembramento do Estado Social. Pessoas morrem nas urgências enquanto governantes alucinam com um SNS que apenas existe no seu imaginário propagando-partidário. A escola pública é alvo da incompetência da tutela e do apetite voraz do ensino privado financiado pelo Estado e gerido por barões partidários. A justiça é lenta, ineficaz e plena de prescrições para os poderosos. Excepto para José Sócrates, aquele que pagará pelos pecados de todos os outros.

A soberania é exercida desde Bruxelas e Frankfurt de onde chegam remessas de dinheiro para pagar às clientelas da central de negócios sediada em Lisboa. Resgatam-se bancos das aventuras dos jihadistas financeiros à custa do dinheiro dos contribuintes que vêm os impostos aumentar ao mesmo ritmo que os cortes se multiplicam por salários e pensões. As filas na sopa dos pobres aumentam. A emigração regressa ao passado anterior à queda do regime. Os números do desemprego são manipulados. Agitam-se bandeiras de cada vez que Mário Draghi faz baixar os juros da nossa imensa e imparável dívida. A corrupção e o tráfico de influências imperam, assumindo assustadores contornos de normalidade. As desigualdades acentuam-se mas a revolta contra a injustiça não se sobrepõe à passividade de um povo que não parece cansar-se de ser pisado.

Há dois dias atrás, os partidos do bloco central decidiram reinstituir uma espécie de Secretariado Nacional de Informação. Como se o excesso de poder de que dispõem não fosse já uma ameaça em si, PS, PSD e CDS pretendem agora controlar a forma como a imprensa conduz a cobertura das próximas Legislativas. O regresso do lápis azul, um momento de êxtase para a extrema-direita envergonhada que vai dando o ar da sua graça através de poderosos meios de comunicação financiados com milhões, é um sinal claro das intenções da elite que nos governa, que simula combates violentos mas que não hesita em colocar tudo isso de lado sempre que a sobrevivência da casta está em causa.

Ontem foi notícia um conjunto de acusações tornadas públicas pelo ex-dirigente do PSD Paulo Vieira da Silva, que a serem confirmadas, poderão abrir um novo capítulo na longa história de dirigentes sociais-democratas envolvidos em esquemas de tráfico de influências ao mais alto nível. As acusações não se ficaram pelo Facebook e seguiram mesmo para a PGR e para a PJ. Depois do escândalo Webrand, a “rede” de Marco António Costa poderá ser um novo capítulo naquela a que alguém chamou um dia de “Face Oculta” do PSD. Os protagonistas repetem-se e as práticas denunciadas são ilustrativas de um tipo de criminalidade cada vez mais presente e disseminada entre as elites políticas da sociedade portuguesa.

Hoje celebramos o 25 de Abril. E o que temos? Um país à nora, capturado por grupos e interesses vis, onde a esperança desvanece. Um país de compadrios onde o plebeu paga a conta da criminalidade dos poderosos imunes. Um país inerte, que assiste impávido ao fundamentalismo das clientelas. Um país numa encruzilhada, incapaz de pegar numa chaimite velhinha para resgatar a democracia da ditadura moderna. Um país onde primeiro-ministro mentiu, Miguel Relvas mentiu, a ministra da Justiça mentiu e o ministro da Educação mentiu. Precisaremos de um novo 25 de Abril? Não me parece. Precisamos, acima de tudo, de acordar. Até quando temeremos a elite política que nos deveria temer a nós?

Comments


  1. Hoje até acordei com boa disposição. Afinal, apesar de «já terem murchado a nossa festa», é 25 de Abril! No entanto, tive a infeliz ideia de ligar o rádio e nem de propósito!… No preciso momento em que Cavaco (no penoso sacrifício anual de ter que falar do dia da liberdade) exigia do governo o «empenho para fazer regressar os jovens emigrantes».
    Repito, o dia até me estava a correr bem. Não fosse bastante o facto de ter que levar com a voz da criatura assim, sem aviso, ainda tive que ouvir uma coisa daquelas. Desliguei o rádio de imediato, mas não fui a tempo. Uns meros segundos foram suficientes para que ficasse com o dia estragado.
    Que lata, Deus meu! Que falta de vergonha na cara! Que falta de higiene intelectual! Então não foi o primeiro-ministro, que ele segurou com unhas e dentes no governo, quem convidou os nossos jovens a emigrar?! Como pode vir agora dizer isto?! Por que não o mandou calar na altura certa?!
    Eu até aceito políticos incompetentes, sem carácter, ignorantes, malformados e mentirosos. O que eu não suporto é incoerências vindas de pessoas que, aparentemente, não sofrem de doenças mentais (como a do Alzheimer, por exemplo). Quando isso acontece, significa que quem o faz está a chamar “parvo” a todos nós. Arre, diabo! Não lhe admito, ouviu?
    Mas, pronto, nem tudo foi mau, pelo que me disseram. Pelos vistos, o dito teve o bom senso de não ostentar nenhum cravo na lapela. Isso, sim, foi uma coerência e, nele, tal merece o digno de registo.
    Desculpem-me. Eu bem sei que prometi não falar mais de Cavaco, mas não consegui. Não é fácil. Quando fiz essa promessa, estava convencido de que o homem não iria ter tempo suficiente para dizer mais disparates, pois é quase chegado o belo dia em que o veremos pelas costas.


  2. Concordo com o teor do artigo. Porém, a alusão a José Sócrates está a mais. Que pague e severamente se se serviu do cargo para promover negócios para si e amigos. Se se confirmarem os factos indiciados, só tenho que lhe chamar indigno, falso e corrupto. Será uma vergonha para si e para os seus…


    • A alusão a Sócrates é um facto: ele está a servir de bode expiatório numa nação com centenas de políticos corruptos, alguns bem piores que ele. Claro que isso não invalida minimamente que ele seja também um criminoso.

      Agora esclareça-me por favor: uma vergonha para mim e para os meus? Que raio tenho eu a ver com Sócrates?

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