O Acordo Nuclear Iraniano

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Legenda *

A propósito do Acordo Nuclear Iraniano alcançado há 2 dias, parece-me oportuno replicar aqui um texto de minha autoria e, publicado a 29 de Novembro de 2013, aquando da assinatura do Acordo Interino (24.11.13), espinha-dorsal desta versão final agora alcançada:

Irão: Os “gémeos” Hussein Obama e Hassan Rouhani lá se entenderam!

Permitam-me que vos diga, o acordo alcançado sobre o programa nuclear iraniano no passado fim-de-semana, não é surpresa nenhuma. É inédito, é “jebétacular”, é mediático, mas era aguardado há já algum tempo, sobretudo por dois factores.

O 1º porque o Presidente Obama quer ficar para a História para além do óbvio e, percebendo que a solução Dois Estados entre israelitas e palestinianos é impraticável, teria que tirar outro coelho da cartola. A cada segundo mandato, todo o Presidente americano investe nesta “solução”, na tentativa de ficar referenciado como aquele que resolveu o problema, blindou ambas as partes e permitiu o surgimento duma Palestina independente e soberana. Ora a Cisjordânia neste momento não passa duma “micronésia de terra” rodeada e recortada por colonatos e muros, sem qualquer contiguidade territorial, o que a remete para um crescente e agonizante disfuncionalismo, com a agravante de ver cada vez mais vedado o acesso a um bem essencial. A água. Logo, uma parte perdedora deste acordo são os palestinianos e a sua causa.

O 2º porque Leon Panetta, ex-Director da CIA (2009/11) e ex-Secretário da Defesa (2011/Fev.13), anunciou em Junho de 2012 que os Estados Unidos irão, lá está, deslocalizar progressivamente a sua frota naval mais sofisticada para a Ásia-Pacífico até 2020, ano em que esta atingirá 60% do seu total por esses mares. Ou seja, os americanos querem desembaraçar-se do Médio Oriente o mais depressa possível e para tal há muito que o preparam. Como? Permitindo um Irão nuclear civil e armando ainda mais todos os seus aliados (dos americanos) regionais. Para tal, foram assinados contratos de venda de armamento à Arábia Saudita e aos Emiratos Árabes Unidos, durante o período 2012/2022, no valor de 200 mil milhões de dólares, o maior negócio militar da História da Humanidade! Parte substancial deste armamento é composto por caças-bombardeiros e mísseis bunker busters’, os quais terão como objectivo atingir/destruir as instalações nucleares iranianas, algumas no interior de montanhas.

Desta forma, reforça-se o ambiente de Guerra Fria que se vive na região e aqui sim, consegue-se um bloqueio entre todas as partes, o que nos remete para a máxima de Raymond Aron “Guerra improvável, Paz impossível”, dando assim sentido à acção daquele que prematuramente foi galardoado com o Nobel da Paz.

CONSEQUÊNCIAS DESTE ACORDO

Uma 1ª consequência é a reintegração do Irão junto da Comunidade Internacional, o que obriga a uma redefinição da arquitectura geopolítica da região, passados mais de 30 anos sobre a chegada ao Poder do Ayatollah Khomeini. O Irão, que sempre contou, passa agora a contar ainda mais, pois passará a ser parte presente em todas as negociações ao mais alto nível.

Uma 2ª consequência, o “Eixo do Mal” traçado por W. Bush e que incluía Irão, Iraque e Coreia do Norte, deverá passar apenas a “Coreia do Mal”, já que esta reintegração iraniana na Comunidade Internacional, fará desta mais parte da solução do que do problema, na resolução da questão sectária religiosa no Iraque.

Precisamente no binómio sunita/xiita, uma 3ª consequência, que em muito deverá incomodar a Arábia Saudita, pois esta já não poderá continuar a entrar à bruta no Bahrein, Estado com 70% de xiitas governados por uma minoria sunita, como o tem feito até aqui. Cá estaremos, oxalá, para ver o que acontecerá em Março do próximo ano, aquando das comemorações do 3º aniversário do início da feroz repressão primaveril sobre aqueles que se manifestaram na exigência de reformas políticas, a qual incluiu a destruição/transformação da Praça da Pérola, uma potencial “Tahrir bahraini”, em cruzamento rodoviário.

Ainda nesta lógica, a Arábia Saudita não poderá continuar a hostilizar as populações xiitas na Província Leste do seu território, já em pleno Golfo Pérsico, nem os Houtis de Najran, na fronteira sul com o Iémen. Este (o Iémen) também terá que refrear o combate que lhes faz actualmente a norte, tendo sobretudo um crescente movimento separatista a sul e que se suspeita financiado pelo Irão.

4º, o Golfo Pérsico passa a ter uma maioria de população xíita em ambas as margens, legitimada por este acordo, que por interino e momentâneo que seja (6 meses nesta 1ª fase), deverá ser cumprido na íntegra pelo Irão, já que a lógica e os ganhos para este assim o obrigam. O Ocidente respirará de alívio com o fim, para já momentâneo também, mas é isso que interessa, da ameaça de bloqueio do Estreito de Ormuz efectuado pelo Irão, por onde passa cerca de ¼ do petróleo que é produzido mundialmente e nós, poderemos continuar a passear ao fim-de-semana de carro a preços comportáveis. Tudo isto, sem nunca dispensar a presença da 5ª Frota americana em toda a região, já que os equilíbrios alimentam-se.

5º, é possível que a questão Síria esteja à beira de ver uma solução, pelo menos mais próxima. Digo isto desta forma, pois o Irão, que a partir de agora integra as negociações, poderá continuar a insistir na permanência de Assad na liderança do regime, o que até nem desagradará de forma prática ao Ocidente, dados os avanços dos radicais ligados à Internacional Terrorista. Tudo se decidirá, em princípio a 22 de Janeiro, caso o Genebra II não volte a ser adiado. O problema é que a Coligação Nacional Síria e os radicais (que não terão direito a “voto” e presença na Suíça), insistem que Bashar Al Assad e família têm que sair. Tudo depende, uma vez mais, da Rússia e da contabilidade entre ganhos e perdas para estes e não para os sírios.

Por exemplo, num cenário em que se opte pela continuidade do regime sírio, o qual até pode incluir uma moção aprovada pelo Conselho de Segurança para uma Missão de Manutenção de Paz e abertura de corredores humanitários, etc., os Capacetes Azuis no terreno passarão a combater certamente ao lado das tropas do regime, já que a Internacional Terrorista, com apoios do Golfo, sobretudo do Qatar, não vai baixar a guarda. Ora isto é altamente benéfico para os russos, já que chechenos e daguestaneses não voltarão para casa combater a Federação Russa. Problemas que cheguem já tem Putin. Portanto, não estou certo que este acordo signifique automaticamente o fim da guerra na Síria.

6º, este acordo é vital para a economia iraniana, já que o Rial iraniano tem tido uma queda assombrosa, a qual atingiu 40% face ao dólar de um dia para o outro, em Janeiro de 2012. O levantamento parcial do embargo, permitindo o regresso do seu crude, ouro, metais preciosos e indústria automóvel aos mercados, bem como o acesso à compra de peças sobressalentes para a aviação civil e abertura de canais financeiros para a revitalização económica, poderão “obrigar” este regime a efectuar reformas políticas internas de per si, fazendo do mesmo o próximo “polícia regional” em substituição da Arábia Saudita e de Israel.

Hussein Obama parece preparar uma saída em grande e Hassan Rouhani não poderia ter tido melhores primeiros 100 dias de presidência.

O que é que mudou desde Novembro de 2013?

O surgimento do “Estado Islâmico” e a guerra no Iémen, o que aliás reforça o cenário de Guerra Fria regional, já que sauditas e iranianos, sunitas e xiitas portanto, combatem-se a sul no território do elo mais fraco, o Iémen, enquanto cooperam a norte, no combate à nova entidade política que se afirma como cada vez mais inevitável.

Outro aspecto importante a acrescentar, é perceber que mexer com o nuclear iraniano e regulá-lo, é tocar em duas cabeças da serpente que após o 11 de Setembro pouco, ou mesmo nada foram incomodadas, na chamada Luta Contra o Terrorismo. Refiro-me naturalmente à Arábia Saudita e ao Paquistão, cujos respectivos wahabismo e salafismo, nunca deixaram de crescer, proselitar, financiar e servir de farol inspirador para todo o terrorismo de cariz islamista.

Este Acordo vem bloquear/refrear as intenções do Paquistão e da Arábia Saudita, acicatar as de Israel, bem como confirmar que o Iraque espartilhado e quadripartido entre sunitas, xiitas, curdos e “Estado Islâmico” é, aliás, o maior perdedor de todo este processo, vendo substituída a importância e influência que tinha regionalmente e junto dos americanos, pelos iranianos.

A maior prova disso é a forma como o Acordo foi rematado, quase a dar a ideia de que tinha de acontecer a todo o custo. Ou seja, está assinado, mas ainda não se sabe como será aplicado. Os iranianos querem que as sanções económicas sejam levantadas de imediato, nomeadamente o desbloquear das contas e dos dinheiros vitimas desse embargo de anos e, a troika negocial (5+1, EUA, RU, França, China, Rússia e Alemanha), querem que o desmantelamento do programa nuclear iraniano comece de imediato e só depois se levantem as sanções e se disponibilizem os dinheiros. Mas também ainda não está definido qual o modelo do desmantelamento. Terá verificação in loco por parte dos inspectores, ou estes serão convocados à posteriori para o verificarem, embora seja certo que a Agência Internacional de Energia Atómica terá acesso às instalações que quiserem, sempre que o quiserem e sem aviso prévio (Pontos-chave do Acordo e Texto Integral).

Entretanto, os próximos 60 dias serão decisivos, já que é o prazo para o Congresso Americano, com maioria Republicana, escrutinar os termos do Acordo e, aprová-lo, ou rejeitá-lo, não devendo aqui haver surpresa quanto ao desfecho final, embora seja também este o momento de definir os termos de aplicação e cumprimento deste acordo a 25 anos.

P.S. Explicação do título Irão: Os “gémeos” Hussein Obama e Hassan Rouhani lá se entenderam! Hassan e Hussein são os nomes dos gémeos, netos do Profeta Maomé, fruto do casamento entre Fátima (filha de Maomé) e do seu primo em 2º grau, Ali. Para quem não sabe, o nome completo do PR americano é Barack Hussein Obama II, cujo pai, Barack Obama Sr e o padrasto, Lolo Soetoro eram ambos muçulmanos, o que na tradição islâmica define a religião da descendência. Sendo que no Islão não há lugar à apostasia e, apesar de ter sido baptizado em 1988 na Igreja Unida de Cristo, a ascendência e passado de Obama II, faz do mesmo um cripto-muçulmano.

* Legenda da caricatura que ilustra o texto:

Rouhani, “Meu querido Grande Satã”. Obama, “Meu querido Eixo do Mal”.

Raúl M. Braga Pires, a Low Level Researcher, em Lisboa e que escreve de acordo com a antiga ortografia!

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Comments

  1. Aventanias says:

    Um mouro dum salamaleque para a tua low level verborreia.


  2. Assim até apetece ainda mais ler Aventar. Ideias claras bem expostas e com factos. As narrativas ficam para cada troll compor a seu gosto.


  3. Hoje, no Bravio: “Polifemos III – Zarolhos que coordenam”.

    http://diogodaveigabravio.blogspot.pt/2015/07/polifemos-iii-zarolhos-que-coordenam.html

    PS – Queiram desculpar-me a intromissão!

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