A ideia salvadora

O meu amigo estava desesperado. Ele é matemático e o melhor do seu trabalho ocorre no estranho e esotérico campo da matemática estocástica. Ora, estando há uns tempos de volta de um inovador e complexo paper destinado a uma prestigiada revista científica, tinha emperrado numa dificuldade. Faltava-lhe um detalhe, qualquer coisa, uma intuição salvadora que o desencalhasse. Os computadores fumegavam, as folhas de notas acumulavam-se cheias de cálculos cuja mancha gráfica parecia uma colónia de formiga salalé enlouquecida. Mas nada. Falei com ele num serão de angústia criativa, animei-o conforme pude, já que ajudá-lo nas suas matérias de investigação estava completamente fora do meu alcance. De repente, pareceu-me que lhe ocorria algo de novo. O seu rosto iluminou-se um pouco. Partiu, resmungando que se aquilo não resultasse, nada resultaria. [Read more…]

PAF-PAF num país em recuperação (2)

Alemanha interessada em enfermeiros e paramédicos portugueses, diz Paulo Macedo. (Julho 2015) “Ah e tal, nunca incentivámos a emigração”.

Uiii! Algo me diz que

Lá se vai o estado de graça em que se encontrava Hollande junto da esquerda lusa…

«Morre mais depressa, Europa!» [Heiner Müller, 1989]

«A Europa tornou-se um conceito de higiene social, pois cada vez mais se faz da pobreza um problema de higiene. Como é que, nessas condições, poderia subsistir o fundo intelectual da Europa? É para mim um mistério, a menos que se atribua uma alma ao dinheiro. O tema poderia ser objecto dos mais amplos debates filosóficos – de qualquer modo, o capital tem uma líbido. Acabaremos sem dúvida por encontrar-lhe uma alma, também. E ela surgirá com tal impacto que teremos de a conter. Heiner Müller em 1989 [em Francês, parcialmente traduzido para Português em baixo]

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(c) Roger Melis (1940 – 2009)

 

«Morre mais depressa, Europa!»

Em 1989, a revista Transatlantik publicou cinco entrevistas com Heiner Müller, realizadas por Frank Raddatz. Publicamos as segunda e quinta entrevistas, realizadas respectivamente em Janeiro e no Outono de 1989, aqui reunidas sob o título da segunda: «Morre mais depressa, Europa!»

Transatlantik: Há relativamente pouco tempo, a palavra Europa designava antes de mais apenas a parte ocidental do velho continente. Agora, usa-se com cada vez maior frequência a noção de casa comum europeia, para melhor dar conta da realidade a Leste e a Oeste. Poucas pessoas têm percorrido as duas alas desta casa, como é o seu caso. Será Heiner Müller o Europeu por excelência?

Heiner Müller: Sou um Europeu bastante bera, mais não seja porque apenas posso comunicar em Inglês. No que respeita às outras Línguas, tudo se torna muito mais trabalhoso. Infelizmente, ignoro quem forjou esse belo slogan de «casa europeia», no entanto, encontrei recentemente essa formulação num texto de Carl Schmitt a propósito do discurso de Hitler sobre a Sociedade das Nações. Nele, Schmitt cita o seu Führer e chanceler do Reich, Adolf Hitler, que fala da «casa europeia». Isso evoca para mim, de modo muito vincado, o debate sobre a reunificação alemã. A Alemanha apenas existe por oposição aos outros, aos franceses, por exemplo. Talvez o mesmo suceda com essa ideia de “Europa”.

De um ponto de vista histórico, a Europa não existe. Por ocasião da entrega do prémio europeu de cinema a Krysztof Kielowski pelo seu filme Não matarás, o realizador disse algo muito interessante numa entrevista: regozijava-se por aquele prémio ter sido atribuído a um filme polaco, pois isso significava que a Polónia fazia parte da Europa. Acrescentou que havia duas Europas, uma marcada pelo cunho de Bizâncio, e a outra de filiação romana. Mais que não seja em razão do catolicismo, a Polónia faz parte da Europa «romana», enquanto que a Rússia e toda a Europa do sudeste relevam da cultura bizantina. A fronteira situa-se algures na Hungria. É uma condição prévia importante para toda e qualquer reflexão sobre a Europa. Muitos mal-entendidos entre o Leste e o Oeste resultam de um conhecimento insuficiente relativamente a esse facto histórico.

A actual discussão sobre a Europa é motivada por uma campanha puramente económica. Tal como os «Republicaner» ganharam existência por fazerem campanha contra os estrangeiros, utiliza-se a ideia europeia para vender aos alemães uma salsicha que não responde às normas de consumo em vigor na RFA. [Read more…]

A construção política da Europa

«(…) Só quando a Europa for contestada (…), não já em nome do passado que desonrou mas em nome do presente que divide e do futuro que será capaz de abrir ou fechar, poderá tornar-se uma construção politica duradoura. (…)» Etienne Balibar, Para acabar com a União dos tecnocratas e dos banqueiros [em Francês]

Da superioridade moral do Syriza…

Nadia Valavani demitiu-se por discordar do acordo, ou talvez tenha sido algo um pouco mais complicado

Serviço público

Passos Coelho mente? Rebobine a gravação