Carta do Canadá: Por quem os sinos dobram

A maratona negocial de Bruxelas, que teve a Grécia por motivo, trouxe-nos ensinamentos dolorosos e perguntas que magoam. E saldou-se por um acordo punitivo,  odioso, vingativo, a que se chegou por meio de chantagem: ou os gregos aceitavam o garrote da penúria ou seriam  mandados morrer de fome fora do euro.  E que servisse de exemplo a quem ousasse contrariar  as imposições da Alemanha, os interesses da Alemanha, a mente quadrada da Alemanha.  Deitou-se mão de tudo para espezinhar e humilhar os gregos, na pessoa de um Alexis Tsipras que, por amor ao seu povo sofrido,  se vergou sem estar convencido e já sem ilusões acerca das injúrias que iria ouvir dos que, se estivessem no lugar dele, teriam feito o mesmo.  Um homem jovem que, tendo sido obrigado pela manobra hitleriana da actual União Europeia  a aceitar o contrário do que havia prometido e até sublinhado pelo referendo, teve a hombridade de o declarar ao seu país e ao mundo, em discurso claro e sem rodeios.  Não foi nenhum farsante que prometesse a lua aos eleitores e depois, de rabo entre as pernas, fosse além  das troikas e baldrocas com que os  não eleitos de Bruxelas andam  a tirar dos pobres para dar aos bancos dos países ricos.  A Grécia teve a postura  dum país milenar, hoje servido por uma geração de jovens políticos  inteligentes e academicamente bem preparados, perante a arrogância ignorante dum país recente que mais não é do que o agregado de territórios feudais, qual deles o mais abusivo, que veio a desaguar numa comunidade que, no espaço de um século, tentou destruir a Europa e levou a guerra ao mundo todo.  Quando começaram as queixas contra Varoufakis, o ex-ministro das finanças grego, que só com o olhar perfurante tresmalhava aquele formigueiro malsão,  o primeiro ministro Tsipras teve a elegância de substituir o seu companheiro de governo.   No entanto, quem tudo manda em Bruxelas teve o topete de reconduzir o presidente do Eurogrupo,  o detestável Dijssolbloem  que, com a sua expressão  desvairada de gato castrado, humilhou e maltratou quanto quis a delegação grega.

A UE é hoje isto.  Tem urticária porque a Grécia , depois de levada ao caos pelos governo de direita  que tanto jeito deram  às negociatas de  Berlim,  é hoje governada à esquerda.  Deitou mão da asfixia financeira e do terror contra um pequeno país,  receosa de que a Espanha, a Itália e a França façam o mesmo.  Mas parece não ver que, por toda a Europa,  aumentam os partidos nazis e fascistas.   Arrepia-se com a esquerda, mas fecha aos olhos a Marine Le Pen  e ao grotesco governo húngaro  que manda fechar as suas fronteiras a arame farpado para que os emigrantes não conspurquem  a sua terra.  Para isso lá estão a Grécia e a Itália, que com sacrifício abrem as portas aos que fogem das guerras, da fome, da barbárie dum islamismo aldrabado .   A UE faz reuniões, manda comunicados para a imprensa e não resolve nada.  Não tem vontade nem competência, está mais do que provado.  É a esta luz que se tem de apreciar a sua política , imposta com empáfia pela Merkel e pelo Schäuble da cadeira de rodas , não por doença mas porque num comício disse tais barbaridades que um dos presentes  lhe enfiou uns tiros.  É olhando estes donos que se devem avaliar os caniches governamentais a dar ao rabo quando comem da gamela.

A UE dos ideais e dos idealistas, da tolerância,  da democracia, da solidariedade,  foi tomada de assalto por esta gente sem alma.  O tempo dirá por quem os sinos dobram: se pela Grécia, se pelo sul da Europa, se pela própria União Europeia.  O tempo dirá se é verdade o título a três colunas que um dia destes vinha no Le Monde: SCHAUBLE, CARRASCO DA GRÉCIA E ADORADO PELOS ALEMÃES.

Entretanto, no norte da América,  tem-se dado um destaque enorme a toda esta situação e não se esconde a animosidade contra a Alemanha.  Todos os dias,  pelo menos nuns quantos canais televisivos, passam filmes e documentários sobre as atrocidades nazis.  Para que a memória não esqueça.  O que se compreende, já que, por duas vezes no mesmo século,  tiveram  o Canadá e os Estados Unidos  de ir em socorro da Europa, tendo ali deixado milhares de rapazes mortos na flor da vida.  Basta, é o que dizem agora.

Comments

  1. Ana A. says:

    Uma análise lúcida, porventura, de um cidadão humanista que não se enreda na retórica falaciosa! Oxalá não venha a ter razão,e os sinos não venham a dobrar, mais uma vez, pelas consequências do complexo hegemónico da Alemanha!

  2. J.Pinto says:

    Curiosidades:

    – O governo da grego andou a brincar durante 5 meses e tudo piorou na Grécia; a culpa é da alemanha e dos neoliberais;
    – O governo grego não cumpriu o que prometeu; a culpa continua a ser dos alemães;
    – O governo grego não encontrou o “outro caminho” prometido; a culpa continua a ser dos neoliberais, principalmente da Merkel;
    – O ministro das finanças andou 5 meses a gozar com os ministros dos restantes países; disse que abandonava o governo se o “sim” ganhasse; o “não” ganhou e ele fugiu da realidade (não foi capaz de fazer o que defende – sair do euro e seguir o seu próprio caminho – possivelmente apenas uma semana com bancos fechados chegou-lhe para mostrar que a Grécia precisava do dinheiro dos outros para seguir o propalado “outro caminho”);
    – na Grécia a democracia elegeu o Alexis; nos restantes países a democracia elegeu outros PM; só na Grécia é que a democracia funciona;
    – faz-se um referendo para dar mais poder negocial ao governo; no dia a seguir ao “não” ter ganho o Alexis apresenta propostas muito mais austeritárias (o Alexis continua a não mentir; só o Passos é que mentiu);
    – continuo sem perceber porque é que se fez o referendo (deve ter sido para mostrar à “Oropa” que a democracia na Grécia é a sério – apesar de o seu próprio governo não lhes ter ligado nenhuma);

    “Deitou-se mão de tudo para espezinhar e humilhar os gregos, na pessoa de um Alexis Tsipras que, por amor ao seu povo sofrido, se vergou sem estar convencido e já sem ilusões acerca das injúrias que iria ouvir dos que, se estivessem no lugar dele, teriam feito o mesmo.” Teriam feito o mesmo? Mas e o “outro caminho” prometido? Não podia ter escolhido o “outro caminho”? Ou também necessitam do dinheiro dos outros para o “outro caminho”?

    “Quando começaram as queixas contra Varoufakis, o ex-ministro das finanças grego, que só com o olhar perfurante tresmalhava aquele formigueiro malsão, o primeiro ministro Tsipras teve a elegância de substituir o seu companheiro de governo.” Gostei muito da expressão “olhar perfurante”. Só é pena que se tenha demitido depois de, como o governo grego dizia, o povo lhe ter dado mais força e poder negocial (através da vitória do “não”). Fugiu, acobardou-se e concluiu que em 5 meses tinha feito mais merda do que outros em 5 anos. Afinal, o “olhar perfurante” foi perfurar para outras freguesias.

    “Grécia teve a postura dum país milenar, hoje servido por uma geração de jovens políticos inteligentes e academicamente bem preparados…” Ainda bem que são inteligentes e bem preparados. Se fossem burros e mal preparados talvez a Grécia estivesse na situação da Alemanha ou da Holanda,o que seria muito pior….

    Relativamente ao tiro que projetou o Schauble para a cadeira de rodas, o autor mostra claramente como a extrema esquerda aplica a liberdade e a democracia (todos têm direito a falar, desde que digam o que está de acordo com as suas teorias).

    Para terminar, porque o texto está a ficar demasiado extenso, a Grécia tem alguma culpa no cartório ou a culpa é só da Alemenha, do Passos e o neoliberalismo?
    O autor do texto expressa o receio dos partidos “fasssitas” de extrema-direita, mas não se indigna com o aleado do Alexis; também se esqueceu de referir que ainda esta semana a le Pen elogiou as práticas do Alexis……tão diferentes, tão iguais.

    Duas coisas separam o raciocínio de uma pessoa de extrema-esquerda: quando os governos são da extrema-esquerda e o respetivos países estão numa situação má (por acaso, só por acaso, não conheço nenhum país desenvolvido que seja governado pelos tais homens inteligentes) a culpa é sempre dos mercados e dos neoliberais (é assim na Grécia, em Cuba, na Coreia do Norte, na Venezuela…), quando um país está numa má situação e os governos não são da extrema esquerda, a culpa é dos burros e mal preparados governos.

    Mesmo para terminar: continuo sem perceber porque é que a Grécia não optou por sair do euro e sair do seio deste conjunto de países neoliberais.


    • Apoiado. Mas ainda os leva a sério? gabo-lhe o esforço.

    • j. manuel cordeiro says:

      É isso mesmo, os gregos são todos uma cambada de mandriões que vive à custa dos outros. Excepto aqueles da lista Lagarde, que tiveram o bom senso de meter os milhões a salvo na Suíça, onde repousaram durante os tempos de governação exemplar pré-SYRIZA. Depois veio o incompetente do Tsipras com aquela ideia de lhes cobrar impostos para estragar tudo. Mas enfim, como sabemos, não se pode confiar em tudo o que por aí se diz.

      • J.Pinto says:

        Os gregos não são nada uma camada de mandriões. Os restantes 300 000 000 habitantes da europa (Zona Euro) é que são tudo uma camada de mandriões. Os 10 000 000 é que estão certíssimos.

        No que respeita ao Syriza, em Portugal é a mesma coisa. Todos os governos anteriores ao passos eram ótimos, depois é que veio o incompetente do Passos e arruinou issso tudo

        • j. manuel cordeiro says:

          Não são nada só os gregos. Os tugas também. E os espanholitos? Do piorio. Coitados dos alemães que passam os dias no duro a trabalhar para os outros todos.

          Os portugueses trabalham em média mais 486 horas por ano do que os seus parceiros alemães, o que equivale a um acréscimo ligeiramente superior a 35%. Enquanto na Alemanha, que é o país da União Europeia (UE) onde se trabalha menos horas, a média é de 1371, em Portugal são efetuadas 1857, sendo o sexto país da UE onde se trabalha mais horas, depois de Hungria, Estónia, Polónia, Letónia e Grécia, que é onde se trabalha mais, num total de 2042 horas por ano.
          http://www.dn.pt/inicio/economia/interior.aspx?content_id=4672360&seccao=Dinheiro%20Vivo

          Os governos anteriores óptimos? Não foi eu que o escrevi.

          • J.Pinto says:

            Para não estar aqui a escrever um testamento, vou-lhe apenas mostrar uma hiperligação para um artigo meu sobre o assunto:

            https://economiaegestao.wordpress.com/2015/07/10/numero-de-horas-trabalhadas/

            Coitadinhos dos gregos (e dos portugueses), que trabalhan muito enquanto os alemães são uns mandriões……

          • j. manuel cordeiro says:

            Trabalhei uns anos na Alemanha e sei por experiência própria quantas horas lá e cá se trabalham. Pode compor os gráficos que quiser mas lá há mais dias de férias do que cá e o horário semanal é menor.

            Quanto ao seu artigo, os números são sempre heterogéneos e isso nunca impediu comparações directas, como tem sido habitual na educação, por exemplo. Mas deixe dar-lhe uma nota para que perceba isso do emprego a tempo parcial. Uma mãe na Alemanha tem licença de maternidade que nada tem a ver com Portugal.

            Se você possui um emprego fixo poderá entrar em licença maternidade (Mutterschutz) já antes do nascimento do seu filho; ou seja, não precisará trabalhar. Na maioria das profissões a licença maternidade pode ser tirada já 6 semanas antes do nascimento. A licença maternidade dura pelo menos 14 semanas e pode ser prorrogada. Durante este período o seu empregador não poderá despedi-la. Depois que o período de licença de maternidade vencer, você poderá pedir licença parental (Elternzeit), a qual lhe permitirá ficar em casa até que seu filho tenha 3 anos de idade e retornar ao trabalho depois desse período de três anos.
            http://www.goethe.de/lrn/prj/wnd/idl/lmk/ptindex.htm

            Portanto, quando estiver a fazer as suas continhas, não se esqueça destes pequenos detalhes de emprego parcial.

          • J.Pinto says:

            Caro j. manuel cordeiro

            O artigo e o número de horas não tem nada a ver com a produtividade. Se quiser ler alguns dos artigos do meu blogue há-de perceber isso.

            É claro que podemos fazer as comparações que quisermos. Todos sabemos que é nestes países que, por exemplo, o trabalho a tempo parcial mais peso tem,

            Mas mesmo que não fosse pelo número de horas de trabalho, mesmo que o tempo parcial tivesse o mesmo peso em Portugal e na Alemenha, a produtividade na Alemnha poderia ser muito maior que em Portugal. A produtividade é medida através do valor acrescentado e não através do número de horas.

            Medir a produtividade através do número de horas é o que os keinesianos pensam; por isso é que só sabem desvalorizar moeda.

            No entanto, a reduão do número de horas só pode ser feita quando a produtividade subir. Aí é que os keinesianos encalham. Querem diminuir o número de horas de trabalho mesmo sem a produtividade subir.

          • j. manuel cordeiro says:

            Foi o J. Pinto quem veio com a conversa da produtividade. Eu apenas sublinhei que, contrariamente ao argumentário do governo e não só, cá não se trabalha pouco.

    • Nightwish says:

      Só para ficar por aqui, que também mais não vale a pena, quem acha que um governo é capaz de destruir uma economia em 5 meses ou que acha que a Grécia podia cumprir alguma coisa quando Portugal também não cumpriu devia ter vergonha na cara e ir estudar economia. Nem é preciso muita.

      • J.Pinto says:

        Eu vou estudar economia, então. Mas qual a economia? A que se aprende nas universidades (Keynes….) ou a da vida real? Prefiro a prática económica. Pode ser?

        Relativamente aos 5 meses, factos são factos. Contrarie-os se conseguir:
        – A economia já estava a crescer e agora está a decrescer (PIB)
        – A taxa de desemprego estava a descer e voltou a subir
        – Os juros da Grécia estavam a descer e voltaram a subir (bom, já vinham a partir do momento em que pressentia a eleição do Alexis)
        – As pessoas podiam levantar o dinheiro que quisessem (desde que o tivessem, claro) e agora têm de levantar apenas 60€;
        – Nunca, como agora, se falou em crise humanitária na Grécia;

        Aponte-me apenas um dado positivo para a Grécia, desde a eleição do Alexis. Só um. Um dado concreto em termos financeiro, económico e social. Sem palavras vãs. Um facto. Um dado.

        • Nightwish says:

          Estava tanto uma maravilha como este país, as pessoas é que não notam porque estão preocupadas com coisas como as filas para a sopa e para marcar consultas.
          Sabe quando é que se parou de aumentar a austeridade? E sabe quando as economias começaram a recuperar? Pois, só por acaso foi ao mesmo tempo, coisa estranha. E sabe quando o BCE deixou de cumprir o seu mandato relativamente à Grécia? Tudo coincidências, por certo.
          Já quanto à crise humanitária, a situação não mudou este ano, a propaganda é que evoluiu porque convinha.

          E o que se resolveu? Nada, chutou-se para a frente para continuar a roubar os alemães para dar aos bancos.

          • J.Pinto says:

            Ok. Estou esclarecido.

            Não contrariou nenhuma das minhas afirmações.

          • Nightwish says:

            Isso é porque não quer. Além de continuar a não apresentar nenhum argumento de que a austeridade fez alguma coisa de positivo nalgum lado.


  3. Tadinhos dos incompetentes do governo grego!! Tiveram um mês os bancos fechados (ou seja terrorismo económico) e tão competentes que ainda tiveram que ser os chantagistas da UE a desbloquear os resultados da espectacular governação dos irresponsáveis do governo grego.É preciso uns óculos bem coloridos para confundir incompetência com opções politicas!!!

    • Nightwish says:

      É preciso ter um filtro muito preciso para ignorar a politização completamente ilegal do BCE nos últimos meses. Mas pronto, faça lá de conta que zona euro está uma maravilha.

  4. Falcão says:

    Pessoal, bom dia. Ide viver para a Alemanha… que aí é que é bom, não se esqueçam é de levar a peruca loira e as lentes azuis (just in case).
    A história repete-se uma terceira vez…


  5. “Entretanto, no norte da América, tem-se dado um destaque enorme a toda esta situação e não se esconde a animosidade contra a Alemanha. Todos os dias, pelo menos nuns quantos canais televisivos, passam filmes e documentários sobre as atrocidades nazis. Para que a memória não esqueça. O que se compreende, já que, por duas vezes no mesmo século, tiveram o Canadá e os Estados Unidos de ir em socorro da Europa, tendo ali deixado milhares de rapazes mortos na flor da vida. Basta, é o que dizem agora”.
    Se não fosse a URSS que, muita gente em Portugal, branqueia a sua ação, a europa estava a ser governada por nazis desde a 2ª guerra Mundial!! … poucos norteamericanos morreram nesta guerra, na qual os governos de então pouco ou nada se quiseram intrometer… é de ver, existia pouco petróleo… se compararmos com a gente que morreu pela “liberdade” no Iraque, na Líbia, na Síria, etc… são poucos, uns nada….. Deixem de branquear a história…. já mete NOJO!

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