Nada de amores

Na pensão de sobe-e-desce, a empregada sacudia as colchas para a rua. Olhos concupiscentes fixaram-se nelas. Esvoaçavam com o pesadume dos tecidos velhos, gastos, deformados. A empregada sacudia-as com esforço, um rosto cansado e sofrido, uma imigrante de leste que trabalha sem folgas. Os velhos que passam o dia à porta da pensão conhecem o ritual das cinco, o sacudir das colchas. Não têm dinheiro para subir, limitam-se a andar pela rua, de trás para a frente, a meter conversa com as meninas, que são quase todas cinquentonas, à espera do milagre, da benesse, do dia em que as encontrarão de cabeça tão perdida, ou de coração tão apertado, que lhes darão uma borla, só para dizerem que não foi por dinheiro, só para se sentirem mais livres. Mas o dia nunca chega, ou pelo menos ainda não chegou. E eles andam sempre por ali, pés cada vez mais arrastados, a ver que se lhes acabam os dias e nada de amores.

Há quem se deite debaixo daquelas colchas, mas eles não. As colchas a arejar à janela são o único que conhecem do quarto, o mais próximo que chegarão. E por isso as olham como se de uma aparição se tratasse, tão esplendorosamente erótica, tão provocadora.

E elas, as mulheres, encostadas à parede, a vaguear para cima e para baixo, a bater com os tacões no chão para aquecer os pés enregelados, a rir umas com as outras, a fumar cigarros, a pintar os lábios, a praguejar contra o rapazola de mota que as insultou, a telefonar para a filha a saber se o catraio já não tem febre, a fazer de tudo menos caso aos velhos, os que não lhes podem pagar. Riem-se deles, os pobres trouxas, sempre por ali, a cobiçar, a invejar os que podem pagar, a sonhar que um dia lhes vai sair o euromilhões, só se for isso.

Às cinco da tarde, as janelas abriram-se, a empregada assomou-se com a colcha verde nas mãos, os velhos levantaram os olhos e uma das meninas, que de menina já perdeu tudo menos o título, disse, enfastiada.

– É só para inglês ver. Nunca as lavam, nunca as trocam. São sempre as mesmas.

Os velhos não a ouviram. Olhos pregados na janela. A esvoaçar, lá em cima, estava uma promessa de júbilo pela qual valia a pena passar os dias à espera. Ainda que nunca chegasse.

Imagem: Fiz a foto há uns tempos, mas tenho a certeza de que o edifício não é uma pensão de sobe-e-desce. Quem o reconhecer, fica avisado.

Comments

  1. Konigvs says:

    É curioso que a minha mãe sempre me disse “Os homens chegam a uma idade em que começam ficam todos malucos.”
    Curiosamente eu sou um homem muito estranho e nunca fui às putas. Se calhar até gostava de saber como é o ritual. Aquilo tem menu? O preço é do género tudo incluído (sopa, prato e sobremesa) ou paga-se o que se come?
    Todos os dias passo por uma senhora puta. Loira, de pernas jeitosas, terá perto de cinquenta. Normalmente está a fumar ou a passar o dedo pela bugiganga eletrónica. Admiro-lhe a pontualidade. Num país de atrasados, ela, uma trabalhadora por conta própria, poderia dar-se ao luxo de chegar à hora que lhe apetecesse, mas não, às 8h20, hora que que passo por ela, ali está, todos os dias, esperando pelos clientes.
    O meu colega de trabalho, mais de dez anos mais novo que eu, dizia-me que no antigo emprego dele, eram uns quinze homens, e mal um lá chegou a dizer maravilhas de uma russa acabada de chegar ao Porto, só ele e outro não foram lá experimentar. Mais, quando ela rumou para Barcelona, conta ele que a rapaziada andava toda deprimida, o sexo sem ela tinha perdido toda a piada… Andavam todos deprimidos, assim mais ou menos como andam agora os jogadores do Chelsea depois do Mourinho ter despedido a massagista. ‘Tão a ver?


    • Oh senhor Koni… não-sei-das-quantas, sabe o que é que nós “tamos a ver”? – pelo menos eu? – Um desabafo da sua frustração em matéria de relacionamento com as profissionais da mais velha profissão do mundo.
      O que é que as suas requintadas lamúrias, com futebol à mistura, neste contexto, nos interessam, em particular, pergunto eu?
      Deveremos interpretar o seu comentário como uma continuação da excelente crónica da Carla R.?
      Se é assim, mal feito! Digne-se a escrever uma e, seja gentil: comente a presente, fudamentando-a com savoir faire, que é como quem diz, com subtileza… sem preciosismos depreciativos!

      Beijinhos 🙂

      • Konigvs says:

        Pois é… cada um vê o que quer e o pior cego é o que não quer ver. Eu sou um cavalheiro e aceito os seus beijinhos e retribuo claro, mas desde que não sejam daqueles beijinhos ridículos e hipócritas que muitas senhoras dão no ar. Pode ser?
        Mas relaxe primeiro, respire fundo e não se exalte tanto com coisas insignificantes e com gente que nem faz ideia de quem seja. Isso faz-lhe mal à saúde. Olhe as rugas! E ainda por cima é fim-de-semana e tudo. Aproveite para se divertir mas é 😉


        • Hum?!… Fique descansado. não dou beijinhos ridículos no ar, cravejados de hipócrisia e sorrisinhos falsos… tampouco estou preocupada com rugas, muito menos induzidas por comentários como o seu. Quanto ao FS: OH YES! “TÁ-SE BEM”! Seja mas é um gentleman, já que o diz ser, e, faça comentários construtivos. Bateu na porta errada: não sou uma tiazinha.
          Mais uma vez, e, como remate final, beijinhos. 🙂


  2. Agora o que interessa realmente: Carla R., excelente crónica… como sempre. Parabéns!
    Beijinhos. 🙂

  3. Fernando Lopes says:

    Isto é tão bom, tão bonito, tão poético. Obrigado, Carla.


    • Ora, obrigada eu, Fernando. Já agora, tenho passado na sua casa mas sou sempre corrida por um aviso de bicharoco estranho. Que será?