Uma vitória da sensatez: o NÃO à candidatura para acolher os Jogos Olímpicos

ARCHIV - HANDOUT - Die undatierte Visualisierung zeigt das geplante Olympiastadion auf dem Kleinen Grasbrook für die Olympischen Spiele 2024 in Hamburg. Am 29.11.2015 entscheiden die Bürger in Hamburg und Kiel in einem Referendum, ob sich die Hansestadt Hamburg um Olympische Spiele 2024 bewerben soll. Visualisierung: KCAP | Arup | Vogt | Kunst+Herbert | gmp | Drees&Sommer | WES | ARGUS | bloomimages | on3studio | Luftbilder Matthias Friedel/dpa (ACHTUNG: Nur zur redaktionellen Verwendung im Zusammenhang mit der aktuellen Berichterstattung und nur mit Nennung "Visualisierung: KCAP | Arup | Vogt | Kunst+Herbert | gmp | Drees&Sommer | WES | ARGUS | bloomimages | on3studio | Luftbilder Matthias Friedel/dpa) +++(c) dpa - Bildfunk+++

O imaginado Parque olímpico de Hamburgo   Foto: DPA

Juntamente com Budapeste, Los Angeles, Paris e Roma, Hamburgo candidatou-se à organização dos Jogos Olímpicos de 2024, conforme anunciado pelo Comité Olímpico Internacional (COI), que irá eleger o anfitrião em Setembro de 2017, em Lima.

Curiosamente, o dossier de candidatura de Hamburgo foi, porém, condicionado a um referendo popular, agendado para 29 de Novembro, cabendo assim aos habitantes da Cidade Livre e Hanseática de Hamburgo a decisão definitiva sobre a candidatura – ou não – aos Jogos de 2024. As sondagens apontavam para “uma vitória clara do sim”.

O assunto mobilizou emocionalmente os cidadãos da cidade alemã; os adeptos do sim, com o presidente da câmara, Olaf Scholz, à cabeça, contavam entusiasmados que, como candidata, a cidade hanseática finalmente passaria a aparecer no mapa-mundo. Declarando que a candidatura seria um catalisador para o desenvolvimento urbano, acenavam com a visão de um novo bairro residencial moderno e integrador e consideravam “os jogos olímpicos como a mais bela declaração de amor a Hamburgo”. E não deixaram de assegurar aos cidadãos que a cidade não incorreria em dívidas relacionadas com o fantástico evento – com um orçamento total de 11,2 mil milhões de Euros, dos quais a cidade teria de financiar “apenas” 1,2 mil milhões de Euros, não mais. Orgulhoso do orçamento apresentado, Scholz afirmou “é a candidatura mais bem calculada, não só da Alemanha, mas de sempre”. Avalanches de turistas trariam receitas aos hotéis e à restauração, as receitas dos impostos aumentariam, o evento seria um fantástico programa de relançamento da conjuntura.

Porém, como relembraram os defensores do “não”, os cidadãos de Hamburgo já tiveram o seu “elefante branco”, a Elbphilharmonie, com custos inicialmente previstos de 77 milhões de Euros e que afinal já vão em 789 milhões, sendo que a obra ainda não está concluída. O cepticismo foi portanto forte, tanto mais quanto a um evento desta natureza, em que na maior parte dos casos as estimativas são ultrapassadas. Quanto ao novo espaço residencial previsto, os opositores afirmaram que iria sobretudo beneficiar os mais bem posicionados e levar à subida das rendas nas outras áreas da cidade, como aconteceu em Londres ou Barcelona. Para não falar nos contratos abusivos com benefícios financeiros unilaterais em favor do Comité Olímpico Internacional, que nem sequer impostos paga…

Os opositores da candidatura não deixaram também de lembrar os custos dos desafios resultantes da chegada de refugiados, 10.000 apenas em Setembro, e preferem que o dinheiro seja investido directamente em habitações sociais, num desenvolvimento  ecológico e social dos transportes públicos, no saneamento e construção de estabelecimentos de ensino, cultura e desporto, entre outras. E finalmente, lembraram ainda que Hamburgo vai ter de pagar valores na casa dos milhares de milhões para salvar o arruinado banco federal HSH Nordbank…

E foi assim que ontem, para pasmo e consternação dos megalómanos, o referendo deu a vitória ao “Não”, com 51,6% dos votos. Não faltam comentadores a verem neste resultado um indicador de medo e de falta de coragem, mas seria bom começarmos a perceber que é maior a coragem de sermos comedidos e investirmos no bem estar da população do que continuarmos “à grande e à francesa” a dar cabo deste já tão desbaratado planeta.

Comments

  1. Konigvs says:

    O que me espanta no meio disso tudo não é o resultado do referendo, espanta-me é que se pergunte às pessoas a sua opinião.

    • Ana Moreno says:

      É verdade, como elemento da democracia directa, maravilha, não é?

      • Konigvs says:

        Por outro lado perguntar para quê? Mais de metade dos portugueses não votaria, e depois quem teria votado contra os nossos elefantes brancos como a EXPO98, Porto2001 ou o Euro2004?


        • Mas esses eventos aconteceram quando nos sentíamos europeus e (novos)ricos. Duvido que hoje em dia tivessem a adesão popular que tiveram.


  2. Euro 2004, o caderno de encargos da UEFA exigia entre 6 a 10 estádios para organizar a competição, a choldra numa lógica keynesiana apostou nos 10, uma vez que os estádios teriam vida própria para lá do futebol, zonas comerciais envolventes, iriam criar postos de trabalho, etc… O resultado dessa candidatura então patrocinada pelo governo de A. Guterres, a responsabilidade do dossier pertencia a José Sócrates, está à vista de toda a gente. Lamentavelmente a UEFA exigia apenas 10, porque Viseu, Funchal e outras cidades tiveram que ficar fora… É ver a rentabilização obtida em Aveiro, Coimbra ou Leiria por exemplo, para perceber o que está em causa…
    No mesmo ano, a Grécia organizou os Jogos Olímpicos…
    Tudo investimento público…

    • Nightwish says:

      Não sei o que é que isso tem a ver com o keynesianismo, mas é natural que alguém de extrema direita não saiba do que fala.
      De resto, ninguém da direita esteve contra, nem contra a candidatura ao mundial.

      Não é uma questão de lado, é uma questão de interesses instalados.

      ” O sucesso do Euro-2004 depende de uma política de contas certas e de seriedade – o que não tem havido.
      Logo no início da minha actividade parlamentar, votei contra uma lei, que o Governo apresentou e que teve o apoio do PSD, do PCP e do PP, que isentava de concurso público e de visto prévio do Tribunal de Contas os projectos de arquitectura dos estádios do Euro. Numa palavra, tratava-se de encomendar os projectos aos amigos. Tudo começou mal.

      Logo depois, tivemos a oportunidade perdida, por culpa essencialmente da Câmara e do Governo, de termos um único estádio municipal em Lisboa, como acontece noutros países. Em vez disso, por razões clubísticas, optou-se por dois estádios. E, pior ainda, não se cumprem os orçamentos, o que determina que, ainda antes de se ter passado da fase das fundações, já duplicou o custo da obra. E por isso tem derrapado o Euro-2004, com exigências crescentes das empresas construtoras, que são as co-responsáveis pelo agravamento dos preços.

      É preciso uma política de contas certas. Construir os estádios que forem necessários e não mais. Construí-los segundo boas regras de gestão, impedindo as derrapagens financeiras e o saque às contas públicas. Garantir que as câmaras cumpram os compromissos com os clubes, e os clubes com as câmaras. São estas e não os construtores a decidir sobre o futuro das cidades e da sua urbanização. É assim que se pode salvar o Euro-2004, antes que se afunde num mar de suspeitas e de negociatas.”
      – o perigoso despesista Louçã em 2002

    • O Olímpico... says:

      Aliás, Santana Lopes, formulou publicamente o desejo de realização dos Jogos Olímpicos em Lisboa (salvo erro em 2024).
      E esse, é de esquerda, como toda a gente sabe…
      E não estava sozinho.


  3. PSD e CDS são iguais ao PS no que toca a gastar dinheiro do contribuinte…

  4. Maria João Abreu says:

    Era bom que esse sentido cívico começasse a chegar também a Portugal, mas para isso teríamos que investir primeiro na educação. Lamentavelmente, e pela mão dos políticos e políticas que temos tido desde que me lembro, temos um povo desinteressado das questões cívicas.
    Temos governantes que nunca cumprem programas eleitorais e nunca há responsabilidades apuradas. Uma tristeza.
    Fico muito feliz que o povo de Hamburgo tenha chutado para canto uma proposta megalómana que só os prejudicaria.