Carta do Canadá: Espectáculo grotesco

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Não me parece saudável deixar passar em branco algo que aconteceu dentro do parlamento, no qual trabalham ou simplesmente se exibem pessoas que o povo português é obrigado a pagar. Porque, em meu entender, quem não sabe respeitar instituições merece ser chamado a contas e avisado o povo de que demasiado silêncio é moléstia.

Como todo o país sabe, a coligação PSD-CDS, que para fins eleitorais optou pela designação PAF, ganhou por minoria. Só gente doida ou estúpida acreditaria que o PS iria em seu auxílio parlamentar, dando-se o caso de serem formações ideologicamente distantes e de, durante os quatros anos em que a tal PAF se entreteve a empobrecer o país, ter dito do PS o que Maomé não disse do toucinho. Como todo o país sabe, incumbia ao Presidente da República, que por grande coincidência é militante do PSD, ter o bom senso de acautelar o interesse nacional não nomeando essa minoria para governar. Cavaco Silva foi, como aliás tem sido sempre, mais militante partidário do que chefe do estado: impôs ao país essa minoria. Entretanto o PS entendeu-se com o BE e o PCP quanto às questões mais prementes e obteve garantias de não serem levantados obstáculos quando estivessem em causa os compromissos internacionais do país. Logo, surgiu naturalmente o chumbo do governo PAF e, depois dumas semanas de enredos e coisas que, como disse José Régio, “é bom ter pudor de contar seja a quem for”, de vergonhosas que foram, foi empossado no governo o Partido Socialista com apoio das restantes formações de esquerda.

E foi então que, esquecida de ter achado óptimo o CDS ter-se aliado mais de uma vez ao PS, assim como o PSD ao PS, a direita radical perdeu a cabeça e desatou a gritar que vinha lá o comunismo, que o comunismo ia comer criancinhas ao pequeno almoço. Claro que o país não levou isto a sério por ainda se lembrar que, em 1974/75, a direita radical não foi capaz de enfrentar o então hegemónico PC, preferiu fugir para o Brasil, para Espanha, para a África do  Sul do apartheid. Quem, no terreno, bateu o pé e não aceitou outra ditadura, foram aqueles que eram opositores de Salazar, tendo sofrido as consequências em saneamentos e outras graçolas dos triunfalistas que tinham as costas quentes na União Soviética. E não se pode negar, porque História é História, que o PS teve nesse campo papel muito importante. Portanto, o agitar do papão do comunismo era apenas o véu com que os instalados de agora tapavam o pânico de perderem o tacho e de irem ao pote com todas as ganas porquanto muitos deles nem profissão têm, vivem dos partidos a que pertencem, dos lugares políticos que através deles alcançam. Claro como água.

Parecia de elementar bom senso e bom gosto que contivessem a histeria, fossem parcos de palavras e de expansões. Que, enfim, não mostrassem a vulgaridade do mau perder. Mas fizeram precisamente o contrário: ensoparam as sessões parlamentares de risos de troça quando ouviam o novo governo, de dichotes ordinários, de provocações de meia tigela… Foi grotesca a prestação de Passos Coelho, Paulo Portas, Luís Montenegro, Nuno Magalhães, Duarte Pacheco, Telmo Correia, Marco António Costa e companhia. Provavemente acharam-se muito anchos com o que fizeram mas, aos olhos dum país inteiro e dos jornalistas estrangeiros creditados em Lisboa, revelaram-se pessoas sem educação e sem maneiras, uns pobres boçais. Sim, uns pobres boçais que agiram assim por estarem convencidos que há portugueses de primeira e portugueses de segunda, sendo estes últimos os de esquerda e todos os que em geral não lêem pela sua cartilha. Sentindo-se no direito de se julgarem os únicos capazes de governar, depois de tanta mentira e trapalhada que fizeram.

Os apaniguados desta gentinha guardaram silêncio, incluindo certos jornalistas e o seu candidato a Belém. Quem cala consente. É o que registamos.

Comments

  1. JgMenos says:

    A golpada teve o que mereceu, e o discurso de PPC foi discurso de Estado, de que se conforma a lidar com canalha democraticamente falsa.
    Meter todos os discursos numa só molhada é análise de quem sabe bem que a diferença é a que mais doeu.

  2. Fernanda Leitão says:

    Saúdo o seu senso de humor, a sua fina ironia de atribuir a Passos Coelho um discurso de estado. É coisa que ele não pode fazer porque não sabe o que é estado. A não ser que queira dizer que aquele foi o discurso do estado de nervos, pânico e raiva a que chegou o homem de Massamá.