Neste Natal

António Aleixo

Neste Natal injectamos milhares de milhões de euros no Banif. Quem diria que uma saída limpa poderia ser tão cara?

Neste Natal morreu o David. A austeridade também mata e o David foi mais uma das suas vítimas. Que nunca se deixe cair um banco mas haja responsabilidade que o acesso à saúde é um privilégio e não devemos ser piegas.

Neste Natal existem refugiados enregelados por essa Europa fora. A Europa da liberdade e da tolerância. A Europa que vende as armas que se usam na guerra que obrigou a maioria destas pessoas a fugir. A Europa que agora desconfia que sejam todos terroristas. A Europa que bombardeou as suas escolas, hospitais e locais de culto. A Europa que recebeu e recebe, com honras de Estado, todos os ditadores, os que deixaram de ser bem-vindos e os que ainda o são.

Neste Natal quero desejar a todos os leitores e aventadores um Feliz Natal. Abracem os vossos, sejam felizes mas não se esqueçam que o tempo corre contra nós. E nada disto tem que ser assim. Existe pão de sobra para todos.

Comments

  1. José Chorão says:

    É bom lembrar que tudo isto que refere (e bem) tem sido possível graças a uma mentalidade generalizada de aceitação das injustiças e das desigualdades.
    E quem tem propagado esta mentalidade? A igreja católica que tem pregado ao povo “Sofre agora que receberás a recompensa no céu. E sobretudo não te revoltes contra os ricos que isso é pecado”.
    Esta igrejinha hipócrita é responsável por crimes contra a Humanidade, quando prega a aceitação das injustiças. Entretanto, os padrecos sentam-se à mesa dos ricos e enchem bem as panças com aquilo que falta aos pobres.
    Eu até nem culpo tanto os padres que se aproveitam da ignorância alheia; culpo sobretudo os imbecis que os suportam e alimentam. Se todos os tratassem com o desprezo que merecem, os parasitas dos padres qualquer dia até tinham de ir trabalhar para comer. Mas isso não querem eles. Nem os imbecis que os alimentam.

    • Nightwish says:

      Depende dos padres, dos bispos e dos papas. Também há gente boa na ICAR.

  2. Joam Roiz says:

    A Igreja Católica é uma instituição milenar que atravessou três sistemas económicos distintos: esclavagista, feudal e capitalista. A mensagem de Jesus – “os homens são todos irmãos” – espalhada pelo catolicismo, teve um papel primordial na superação do modelo esclavagista de organização das sociedades. O feudalismo – sistema que permitiu à igreja de Roma uma brutal acumulação de riqueza – fez esquecer o papel redentor da mensagem cristã original. O capitalismo, que nasceu do incremento comercial à volta do Mediterrâneo e que trouxe consigo uma classe de burgueses ricos, foi, inicialmente, combatido por uma ortodoxia religiosa, ciosa do seu poder político e financeiro, que viu neste sistema um adversário de peso. Foi-se, contudo, adaptando ao longo de mais ou menos três séculos, recuperando algum do seu anterior poder financeiro e da sua influência espiritual, mas, medrosa do socialismo e do ateísmo comunista, acabou, já no século XX, a defender o sistema capitalista mesmo nas suas formas mais tenebrosas (ditaduras franquista, salazarista e, em geral, todas as ditaduras fascistas da América Latina apoiadas pelos Estados Unidos). O Vaticano II trouxe à Igreja Católica um sopro da mensagem libertadora de Jesus, que logo se desfez. Hoje, com o Papa Francisco, parece haver um certo ressurgimento espiritual contra a injustiça e as desigualdades – Francisco condenou o capitalismo financeiro numa das suas encíclicas. Mas não se peça à Igreja Católica que mude naquilo que são os princípios básicos da sua teologia. Acredito que tudo no Universo é efémero e as religiões igualmente. Mas tudo tem , também, um tempo. Quando a mensagem do catolicismo e do cristianismo, em geral, deixar de responder aos anseios profundos do Homem, as instituições que a suportam deixarão naturalmente de existir.

    • José Chorão says:

      Não concordo que as religiões respondam, como diz, “aos anseios profundos do Homem”.
      Na minha opinião, as religiões preenchem as lacunas do conhecimento. As religiões respondem, ainda que de forma ilusória e falsa, às questões a que os ignorantes não sabem responder. Ou seja, em vez de incentivar as pessoas a reflectir e a aumentar o saber, estupidifica geração após geração, acenando com historietas da Carochinha. Um verdadeiro crime contra a Humanidade. Que espero que termine com o aumento do Conhecimento, um dia. Longínquo, receio eu…

  3. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    Mas o que tem o “post” de João Mendes a ver com a Igreja?
    Pareceu-me um “post” cheio de realismo e a tocar coisas bem reais e problemas sérios da Sociedade, como as malandragens dos banqueiros e o compadrio dos políticos miseráveis e que toca num ponto fulcral que é a perda de identidade de uma Europa que já foi um farol de Cultura e de Liberdade e que está hoje transformada num jardim de políticos incultos, incompetentes e corruptos.
    Comparando a Igreja com a Política, a conclusão parece-me ser evidente: se a Igreja não me diz nada, eu não participo, nem dou nada. Já no que toca à Política, goste ou não goste, participando ou não, recebo sempre os estilhaços da governação de incompetentes como os que nos têm vindo a governar.
    Viver com a Igreja ou sem ela, é uma escolha nossa.
    Não consigo é ver-me livre desta cambada de ladrões que têm vindo a transformar Portugal num País do quinto mundo, onde a falta de justiça e outros pilares da Democracia, estão definitivamente abalroados.
    Não faltava mais nada senão reduzir todo este descalabro à participação da Igreja. Então e essa gente que dá quatro maiorias absolutas à figura mais negra da nossa Democracia e que depois de ter sido escravizada, espezinhada, vilipendiada, assaltada, durante quatro anos, dá, ainda assim, uma maioria relativa a quem tão mal os tratou?
    São todos padres ou religiosos?

    • José Chorão says:

      Não são todos parvos. Mas são influenciados pela igreja, a principal responsável, há 2 mil anos, pela estupidificação das pessoas. Já percebe a relação que existe?
      Se as pessoas se preocupassem mais com a política que os afecta e deixassem de perder tempo com historietas religiosas, a sua vida seria certamente melhor.

      • José Chorão says:

        Quando escrevi “não são todos parvos” devia ter sido “padres” em vez de parvos. Foi erro.

        • Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

          Caro José Chorão.
          Não, não percebo a relação e tenho a certeza que o Sr. também não a entende. O Sr. não é, seguramente, influenciado pela Igreja, tal como eu não sou e, tal como nós, centenas de milhares de pessoas.
          Não confundamos ignorância com personalidade e convicção. São coisas muito diferentes.
          O Sr. está num País onde, no dia anterior à eleições 30% é indeciso e no dia das eleições promovem quem os trilha.
          Não digo que os responsáveis religiosos não tentem manipular as consciências. Contudo, hoje, as Igrejas são locais vagos e a credibilidade da Instituição decaiu imenso, pois deu apenas um débil sinal de vida numa altura de crise profunda.
          Hoje a religião e os oráculos são outros, bem mais perigosos e contundentes. Refiro-me à maquiavélica campanha levada a cabo por essa gentinha que se diz jornalista eles sim, responsáveis pela “inquinação das mentes”, pela manipulação da informação, das sondagens e das notícias falsas. São eles, os jornalistas, paus mandados de um Sistema manipulador que, ao desinformar empurram os menos informados na direcção que querem. São pagos para isso e têm promoções à custa disso.
          Estes, eu ouço-os porque busco a informação (embora na sua grande maioria eles desinformem), entram-nos pela casa dentro e vamos encontrá-los em qualquer dos canais nacionais.
          Os padres, não os ouço, nem tenho que ouvir em matéria do foro político, embora haja políticos que justificam benesses com Nª Srª de Fátima.
          Tempos houve em que lhe daria razão. Hoje, com os meios disponíveis, só é ignorante quem quer. E Portugal é um País onde a cultura que nos permite separar o trigo do joio, é soberana, porque as entidades governamentais só apostam na bola e na “desconversa”.
          Não nos enganemos na pontaria.
          Não confundamos a “obra prima do chefe” com a “prima do mestre de obras”, pois são coisas bem distintas.

          • José Chorão says:

            Aceito a sua opinião, sem abandonar a minha. Acho que se complementam.
            Cumprimentos.

    • ...Eu não voto nos lobos... says:

      Não vão todos à missa bater com a mão no peito ?
      Sim…?

      Então são religiosos!!

      • Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

        Não caro José Chorão.
        Não vão todos à missa e ainda menos baterão com a mão no peito. Não faço profissões de fé sobre convicções, já atrás lhe disse. Há muita gente que vai à missa e que é boa gente, sabe o que quer e não prejudica terceiros. Assim como há muita gente que se não interessa com os assuntos da Igreja e que não deixam de ter um comportamento execrável.
        Não partilho a sua visão do “tudo preto” ou “tudo branco” e continuo na minha que estas vigarices dos banqueiros e a permissividade do poder judicial e político, nada tem a ver com a Igreja. Tem só a ver com uma coisa que se chama corrupção. E o sistema foi invadido por mafiosos e corruptos que atingiram, para nosso mal, o patamar da governação.
        E o facto é que a maioria do povo, ainda os elege. Meter nisto a Igreja é simplesmente redutor, na minha opinião.

        • José Chorão says:

          O comentário a que está a responder não é meu e sim de um tal “eu não voto nos lobos”. Eu uso o meu nome verdadeiro.
          Cumprimentos

          • Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

            Tem toda a razão e peço-lhe desculpa. Acabei de ver isso mesmo. E nunca pretendi dizer que não usa o seu nome. Foi simplesmente um erro de minha parte.
            Melhores cumprimentos.

          • José Chorão says:

            Caro Ernesto Ribeiro: um Feliz Natal para si e para os seus. Sem religião mas com muito amor e paz.
            Cumprimentos

  4. Ana Moreno says:

    Feliz Natal aos dois, alegra-me ver abertura de posições sem complicações. A sério!

    • Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

      Feliz Natal cara Ana Moreno.
      A troca de opiniões mesmo existindo divergência de posições é uma obrigação num exercício de cidadania e educado, num exercício de urbanidade e democracia.
      Fique bem.

    • José Chorão says:

      Um Feliz Natal também para si, Ana Moreno. Eu não acredito em Deus, mas acredito nos homens e nas mulheres educados e inteligentes. Um abraço.

  5. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    Caro José Chorão.
    Muito obrigado pelos votos. Envio-lhe um grande abraço e votos de Felizes Festas desta minha cidade do Porto.
    É um gosto partilhar este espaço com pessoas urbanas e que, concordando ou não com as opiniões expressas, têm um espírito aberto e democrático.
    Bem haja.

    • José Chorão says:

      Caro Ernesto Ribeiro:
      Receba um grande abraço daqui desta quase-minha cidade de Évora.
      É um prazer trocar opiniões com alguém tão culto e educado como o senhor, que não se esconde atrás de pseudo-nomes e que assina o que escreve. Houvesse mais como o senhor e a Internet teria muito mais qualidade.
      Feliz Natal lhe deseja este ateu.

  6. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    Um ateu de grande coração.
    Fiquei justamente com a mesma opinião que o meu amigo expressa no tocante à cultura e à educação.
    Como dizia a cara Ana Moreno, há lugar para qualquer opinião desde que sejamos abertos, tolerantes e respeitemos os outros.
    Não sou ateu, mas se quem se manifesta desta forma é ateu, o ateísmo tem o mesmo valor da minha religião.

    • José Chorão says:

      Muito obrigado. Foi um prazer que teremos de repetir, por este ou por outros meios. É sempre um privilégio pensar em conjunto com alguém inteligente como o senhor. Obrigado.

  7. jose joao grade says:

    Caro José Chorão, de Évora, em vez de trocar opiniões, bem melhor seria trocar qualquer coisa por uma botelha da CARTUXA. bom ano e que Deus (o Dionísio) continue a abençoar as videiras da Fundação Eugénio de Almeida.

    • José Chorão says:

      Sim, dizem que é bom. Nunca provei nem tenciono fazê-lo. Prefiro água e sumos de fruta. Mas não critico ninguém por preferir os tintos e brancos cá da terra, acho que fazem muito bem e bom proveito lhes traga. Um Bom Natal também para si.

  8. Joam Roiz says:

    José Chorão, penso que não se quer referir a mim quando diz que há pessoas que se “escondem em pseudo-nomes”. Joam Roiz funciona como um pseudónimo igual, por exemplo, aos de poeta António Gedeão que, como sabe, se chamava Rómulo de Carvalho. O uso de um pseudónimo não impede, como é o meu caso, de haver um largo circuito de pessoas que lendo-o, sabem bem de quem se trata. As reacções ao meu comentário deixaram-me feliz, na medida em que o seu objectivo era alargar as possibilidades de reflexão. No que toca à sua opinião sobre as religiões, julgo que ela se aproxima muito do positivismo científico do século XIX, que viu na ciência a única fonte de conhecimento e a medida de todas as coisas. Hoje, é a própria ciência que rejeita esta concepção. Se ser religioso é sinal de ignorância, no rol cabem cientistas eminentes, passados e presentes. Enquanto seres humanos, somos uma mistura de razão e de emoção. Como António Damásio nos ensina, a emoção também é um produto da razão (é o nosso cérebro que “pensa” uma e outra, conjugando-as). Por isso, também se “sabe” (conhece-se) fora da ciência. A ciência está longe de ser considerada hoje como a única fonte válida de conhecimento. Basta pensarmos na grande poesia ou na arte. Quando falei dos anseios profundos do homem, refiro-me ao anseio de cada ser humano à imortalidade. A imortalidade é conhecer tudo de todos os tempos passados e futuros – é o fim da história como uma narrativa linear do espaço/tempo. Não é, como vulgarmente se diz, a “vida eterna” (corpo/alma) para cada um. É o “sem tempo”. A “Sabedoria Absoluta” julga-se por si, sem necessidade de um tempo e de um espaço. Penso que mesmo os suicidas têm esse anseio. E é a esse anseio que as religiões, melhor ou pior, procuram responder. Os verdadeiros ateus, no sentido filosófico do termo – pese embora os aspectos negativos que as religiões terão também – são muito poucos. Agnósticos, sim, haverá bastantes. Já as Igrejas, os Pagodes, os templos budistas etc, com as suas regras e preceitos, são meras organizações humanas e, enquanto tal, sujeitas aos “pecados” do mundo. Daí, como a fiz, a resenha muito incompleta da história da Igreja Católica. Mas, como é evidente, o pensamento é livre (“não há machado que corte a raíz ao pensamento”) e, a meu ver, todas as opiniões merecem reflexão. Um bom resto de Natal, João Chorão.

    • José Chorão says:

      Excelente comentário o seu, Joam Roiz.
      Claro que, quando escrevi sobre aqueles que se escondem atrás de pseudo-nomes apenas me referia aos que ofendem os outros sob pseudónimos cobardes. Não é, obviamente, o seu caso, que procura contribuir positivamente para os debates.
      Sobre a relação entre o pensamento científico e a crença religiosa, não estamos de acordo. Mas respeito a sua opinião. Se acha que existem poucos verdadeiros ateus, eu sou um deles. E não me parece que sejamos assim tão poucos, pelo contrário, acho que somos cada vez mais e que o agnosticismo não passa de crença religiosa hesitante e não assumida.
      O amigo já percebeu que, para mim, as religiões (todas elas) apesar de alguns (poucos) aspectos positivos, trazem consigo uma carga negativa que afasta todo o bem que possam tentar fazer e o anulam. No geral são nefastas.
      São nefastas ao pregar a aceitação da ignorância, a aceitação dos males, a submissão aos poderosos, o conformismo e outras crueldades deste género. Acabam por fazer mais mal do que bem.
      Eu acredito na inteligência humana e que as pessoas são capazes, por si só, de ser boas sem medo do inferno se o não forem, apenas porque ser bom é o que está certo.
      Acredito que as pessoas são capazes de, pouco a pouco, compreender o Cosmos e a si mesmos, sem necessidade de esperar que o Conhecimento lhes surja como dádiva divina.
      E acredito na coexistência pacífica de uma pluralidade de opiniões, porque é isso que enriquece a nossa espécie e não o pensamento único. Por isso, mesmo sem partilhar as suas crenças, respeito e aceito que muitos sejam religiosos. Se é esse o caminho que escolhem e isso os ajuda a viver, tudo bem. Eu escolhi outro caminho e sou muitas vezes condenado por aqueles que nunca condenei, numa prova de intolerância da parte dos religiosos. Não há problema, são assim as coisas.
      Desejo-lhe um Feliz 2016, muita saúde e que continue por muitos anos a escrever textos tão inteligentes como este aqui acima.
      Cumprimentos

    • Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

      Em todo o caso a Igreja teve um papel fundamental na Sociedade, nos primórdios da Europa Medieval. Conheço relativamente bem as obras de S. Bento e Santo Agostinho, personagens que saem da época de derrocada do Império Romano, que geraria uma das maiores catástrofes sociais da nossa História.
      Quando a máquina administrativa e política romana começou a ceder, assistiu-se a um clima geral de anarquia, ao abandono dos campos e à desordem generalizada com a constituição de grupos que assaltavam e destruíam.
      Nessa época o papel de S. Bento e Sto Agostinho na criação de Mosteiros, revelou-se fundamental, pelo apoio que prestou a uma população minguada, sem qualquer capacidade de reagir às adversidades que constituíam a fome, a incultura e a penúria generalizada. Não será difícil de imaginar o que representa a queda de um poder quase milenar e a sua substituição por uma Nova Ordem. Pensemos nas desordens que hoje se verificam no Médio Oriente para percebermos o que representa a queda de um regime que, goste-se ou não, era aglutinador.
      A capacidade dos Mosteiros na Assistência, na Educação e na Arte foi imensa. O Mosteiro representou o núcleo de uma nova ordem organizacional.
      Com a queda do Império Romano, assiste-se ao Advento da construção da filosofia da Igreja (Santo Agostinho terá neste campo uma contribuição fundamental). Era fundamental definir a filosofia do Cristianismo, religião que “lutava” na altura com outras que tinham um tronco e consistência bem definidos como era o Judaísmo e mesmo a filosofia religiosa romana que havia herdado da grega os alicerces. O Cristianismo começava com Cristo (que não deixava de ser uma figura humana) e a grande contribuição de Santo Agostinho e de outros filósofos da Igreja, foi criar uma espécie de árvore que ligava definitivamente Jesus ao ente máximo que era Deus, nomeadamente via Espírito Santo. É inegável que tal ligação começou a despoletar toda uma série de questões a que Santo Agostinho respondia com os vocábulos “Fé” e “Crença”. Este foi um dos pontos que se termina com aquela observância sem questões que o caro João Chorão tão bem assinala nos seus textos e que ataca fundamentalmente o menos avisado.
      Com uma Nova Ordem, chegam os “políticos” da Igreja, associada à política do feudalismo, assistindo-se naturalmente a derivas de comportamento e à luxúria da Igreja.
      S. Bernardo, já no século XI e XII chama a atenção para esse facto e promove a reorganização do tecido eclesiástico, criando a Ordem de Cister em detrimento de Cluny. Mas se repararmos, este movimento de recriação surge ao longo dos séculos de um modo pendular. E a razão é fundamentalmente o poder que a Igreja vai adquirindo e a deriva de hábitos associada, numa clara fuga aos princípios de vida simples que Jesus comunicara.
      Mas sem dúvida, é terrível ligação ao poder político que fará decair a Igreja ao longo dos séculos.
      Em todo o caso, penso que deveríamos distinguir duas vocações na Igreja: A Igreja da Assistência e a Igreja dos Homens e do Poder. Sendo aquele ramo o dito “ramo bom” da Instituição, o “outro ramo” será o que acabará por distorcer, na minha opinião, o carácter social da Igreja, conduzindo a tragédias como o Saque de Roma, a divisões como foi o Luteranismo e, posteriormente, ao período bárbaro da Inquisição. Este terá sido, para mim, o maior trambolhão que a Igreja deu e do qual ainda se não levantou. Na ânsia da purificação do nome de Deus, a Igreja envereda pelo genocídio aplicado maioritariamente sobre os Judeus ou Cristãos-Novos. E a era do Liberalismo Europeu, no seguimento da Revolução Francesa, não a pouparia.
      Penso que deveremos pesar o bem e o mal que a Igreja fez. E penso ainda que, no campo da tolerância, deveremos perceber que a faceta humana faz sempre bascular as intenções para o campo do materialismo.
      Representantes, ou não, de Deus na Terra, o religioso é acima de tudo um humano, com as fraquezas que conhecemos.
      E por isso mesmo, olho a Igreja pelo lado positivo. O trabalho que foi feito no seguimento de uma catástrofe social em prol das populações, merece-me o mais profundo respeito.
      E ainda, se pensarmos, estes movimentos ondulatório que a Igreja tem sofrido, onde as realizações se alternam com as negações tem conduzido, na minha óptica, a uma melhoria constante da Instituição.
      Pessoalmente, não consigo desligar o lado positivo do trabalho social, assistencial. organizacional e cultural da Igreja, da evolução desta Europa. Os Mosteiros foram durante centenas de anos os faróis da cultura Europeia. E ao vê-los hoje substituídos por um outro farol vindo do outro lado do Atlântico, onde o único valor é o dinheiro, confesso-me preocupado.
      E mais ainda, com a inacção do Homem, o que revela, quanto a mim, um problema cultural.

      • José Chorão says:

        Mais um texto admirável, o seu. Pela cultura e erudição.
        É bem verdade o que escreve sobre o papel da Igreja no tempo de S.Bento e S.Agostinho, cujas obras conheço bem, até por razões profissionais.
        Presumo que conhecerá a obra do historiador Georges Duby, O Ano Mil, onde ele bem mostra que a Igreja se fez recompensar muito generosamente pelo bem que havia praticado.
        E concordo consigo: é o afastamento, dos homens que compõem a Igreja, da espiritualidade e o crescente fascínio pela materialidade que levou a Igreja à queda, salvaguardando sempre o lado positivo da assistência aos necessitados, cujo valor é inegável até para um ateu. Sem dúvida que tudo isso é positivo.
        Mas, na minha opinião, o bem que a Igreja e as pessoas religiosas praticam é sempre um pouco suspeito. Compreenderá melhor o que quero dizer se lhe contar esta história verdadeira:
        -Uma amiga minha é, para azar dela, muito rica. Muito mesmo. Diz ela que é a pior coisa da vida, já que, ao longo dos anos, só lhe trouxe infelicidade no campo do amor. Diz ela que, se fosse pobre, um homem que dissesse amá-la estaria provavelmente a falar verdade. Assim, sendo rica, desconfia sempre se a amam a ela ou ao dinheiro dela. E até hoje, em mais de meio século de vida, tem tido razão em desconfiar, pois só lhe apareceram amantes do vil metal e nunca dela enquanto pessoa.
        Transferida a história para o assunto em análise, quando um religioso pratica o Bem, fico sempre a pensar se o fará porque é um ser espiritualmente evoluído que entende que o Bem é preferível ao Mal ou se pratica o Bem para alcançar recompensa no céu que imagina existir.
        Na minha opinião, a necessidade do Bem deve surgir da evolução espiritual e intelectual do ser humano e nunca de imposições (ou conselhos com maior ou menor chantagem) vindos de uma igreja qualquer. Só assim o Bem terá valor, sem qualquer recompensa ou medo de castigo se o não praticar.
        A Igreja fez muita falta no passado selvagem do ser humano, concordo em absoluto consigo. Mas está na hora da Humanidade se libertar dessa instituição tão defeituosa e de evoluir pela força do espírito e do intelecto, em total liberdade e autonomia. Este é o caminho, na minha humilde opinião. Sem medos.
        Cumprimentos, caro Ernesto Ribeiro
        José Chorão

        • Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

          Agradeço as suas considerações que retribuo com toda a minha força. O caro José Chorão centra, de uma forma indesmentível, o carácter do humano na quase falência de um Sistema. Justamente o carácter que tem no castigo o remédio e que acenou durante centenas de anos com a paga celestial para compensar as provações, para quem por elas optasse em vida, fazendo-se pagar, sob a forma de indulgências, pelas “derivas” à Lei.
          Mas sobretudo a grande afirmação que aqui faz – e com a qual me solidarizo completamente – é no conceito de Bem que tão magnificamente exprime : o resultado de uma evolução espiritual e intelectual do Homem.
          Este pensamento saído de uma pessoa que se confessa ateia é, para mim, de um valor incalculável.
          De facto, aquilo que são as imposições doutrinárias, deveriam constituir linhas orientadoras, deixando à pessoa a capacidade de escolher de acordo com as suas convicções.
          Meu Pai, oriundo de uma Família Judaica, sempre me levou à Igreja e tinha como princípio que a escolha que eu faria, seria da minha inteira responsabilidade. Mas dizia-me que não me privaria de um conhecimento que posteriormente poderia vir a dar-me a possibilidade de escolher o que melhor se adaptasse ao meu modo de pensar.
          De todos os Bens que meu pai me legou – e foram muitos, acredite – a curiosidade, a abertura e a tolerância, terão sido os mais significativos. E refiro tolerância, porque ele morreu sem eu saber se ele professava a Fé Cristã ou Mosaica.
          Fui menino nos anos cinquenta e adolescente nos sessenta do século passado e nessa altura a inclinação religiosa tinha um peso muito grande na Sociedade onde, por exemplo no Liceu era obrigatória a presença às aulas de Religião e Moral.
          Fosse como fosse, como o meu caro amigo muito bem diz, esse legado concedeu-me a abertura que me permitiu evoluir pela força do espírito e do intelecto.
          E por isso, cá vamos nós investigando e discutindo estes tão belos temas, polémicos, mas envolventes. E ainda que não estejamos de acordo com todas as conclusões, tenho a firme certeza que comungamos a mesma filosofia no campo dos princípios, que assenta no respeito pela Sociedade e na abertura que, como muito bem diz, nos permitirá ” (…) evoluir pela força do espírito e do intelecto, em total liberdade e autonomia (…).
          Receba um grande abraço de admiração.

          • José Chorão says:

            “E ainda que não estejamos de acordo com todas as conclusões, tenho a firme certeza que comungamos a mesma filosofia no campo dos princípios, que assenta no respeito pela Sociedade e na abertura que (…) nos permitirá ” (…) evoluir pela força do espírito e do intelecto, em total liberdade e autonomia”.
            Exactamente! Subscrevo o que escreveu.
            É isso que a Internet e estes blogues têm de bom: permitir-nos uma estimulante troca de opiniões com pessoas inteligentes. Inteligência implica sempre tolerância pelas opiniões alheias e aceitação dos diferentes pontos de vista. Ninguém é dono da verdade, pelo que, acredito eu, aprendo mais com aqueles que de mim discordam do que com aqueles que me apoiam, porque esses nada acrescentam ao que eu já sabia.
            Caro Ernesto Ribeiro: teve muita sorte por ter um pai que o educou assim como diz. Eu, que não tive a mesma sorte, procuro educar os meus filhos na curiosidade intelectual e na liberdade de pensamento.
            Cresci nos anos 60, vivi a adolescência durante a revolução de 74 e isso ensinou-me a crescer por mim próprio e a aceitar os outros. Procuro crescer intelectualmente sem medos nem dogmas. Não aceito religiões que me imponham supostas verdades, prefiro ser eu próprio a pensar nas coisas e a decidir o que fazer e pensar. Vou errando, claro. E aprendendo alguma coisa.
            Não passo de um aprendiz da vida. Lisboeta de origem, há muitos anos que ensino Filosofia em Évora, cidade pacata que aprendi a amar.
            Foi um enorme prazer trocar impressões com alguém tão estimulante e inteligente como o senhor. Pelos seus textos, só tenho que o respeitar e admirar a sua atitude de enorme abertura e sabedoria. Muito obrigado.
            um abraço
            José Chorão

  9. Joam Roiz says:

    Errata: No meu comentário anterior, onde escrevi “(…) aos de poeta António Gedeão (…)”, deveria ter escrito ” (…) ao do poeta António Gedeão (…)”. Também, onde escrevi “(…) um largo circuito de pessoas (…)”, deveria ter escrito “(…) um largo círculo de pessoas (…)”.


  10. Espero que se venha apurar sem propaganda porque não se esperou mais uns dias e se aplicou a nova lei da UE , passando a responsabilidade parvos accionistas e gerentes e depois para o mecanismo europeu, que aliviava o esforço dos portugueses em 500%.

  11. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    Somos ambos aprendizes da vida. Um profundo agradecimento pela estimulante troca de impressões.
    Afinal, comecei por, de certo modo, criticar a sua entrada e acabo rendido à simpatia de um Professor de Filosofia que faz da vida uma contínua aprendizagem.
    E acredite, soube-me mesmo bem ficar afastado das conversas mais “politiqueiras”.
    Um abraço e um ano de 2016 muito feliz para si e para os seus.

    • José Chorão says:

      Eu é que lhe agradeço, Caro Ernesto Ribeiro, o excelente nível dos seus escritos. Não tenho a certeza de que nos tenhamos afastado da política, no sentido geral do termo, já que tudo isto é muito político (embora não politiqueiro).
      Não sei se é da água ou do ar que respiram, mas várias das pessoas inteligentes que conheço e conto como amigos são da sua cidade do Porto. Pelos vistos, o meio portista favorece o intelecto.
      Sugiro que continuemos esta troca de impressões nestas caixas de comentários ou por outros meios, se preferir.
      Um excelente 2016 para si e para os que ama. E Bibó Porto, carago! (sim, sei que ama a sua cidade).
      um abraço
      josé chorão

  12. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    Sim, tem razão. Política e religião de algum modo, nunca deixaram de andar de mãos dadas.
    Terei todo o gosto em trocar impressões sobre várias questões relacionadas com o respirar desta nossa Sociedade.
    Também me encontra no Facebook, com o mesmo nome que aqui tenho.
    O Porto é, de facto único. Mas é também um privilégio viver em Évora, cidade onde tantas culturas se encontram…
    Abraço.

    • José Chorão says:

      Sim, Évora é uma cidade fantástica. Se me permite um momento de humor, dizem que tem a melhor universidade do país, já que entram para lá alentejanos e saem doutores (não é para qualquer universidade…).
      Agora a sério: não o posso encontrar no Facebook porque não tenho página nessa rede social (e recuso ter). Mas sou facilmente encontrado por mail: josechorao@gmail.com. Sempre que quiser trocar opiniões sobre o que seja.
      Um abraço
      josé chorão

  13. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    O Facebook é, de facto, uma faca de dois gumes.
    Mas dá-me jeito e acredite que já encontrei amigos que não via há 30 e 40 anos…
    Agradeço-lhe o mail e aqui lhe envio o meu:

    ernesto.ribeiro@gotreves.com

    E, por favor, fique à vontade.
    Se vier ao Porto, convido-o para uma apresentação da cidade, como faço com muitos amigos. Basta avisar-me com alguma antecedência, pois a minha profissão obriga-me a deslocações constantes por este mundo. E isto é excelente, pois dá-nos uma perspectiva de vidas e culturas que aprendemos a comungar.
    Grande abraço.

    • José Chorão says:

      Obrigado pelo e-mail, tomei nota. Não me é fácil, neste período de vida familiar, ir ao Porto nos próximos tempos. Mas quem sabe, um dia? Agradeço e retribuo o convite, em relação a Évora.
      Um abraço e Felicidades para si
      josé chorão

  14. Joam Roiz says:

    Foi (é) um enorme prazer dialogar consigo, meu caro professor de Filosofia José Chorão (perdoe o tratamento mais íntimo). E muito obrigado pelo benevolência excessiva do ” Excelente comentário o seu, Joam Roiz”. Sinto-me, aliás, de algum modo embaraçado com as minhas “filosofices”, sabendo agora que a sua formação é na matéria muito superior à minha. Nos meus tempos de Liceu (era ainda o tempo dos Liceus), Filosofia e História eram as minhas disciplinas favoritas. As circunstâncias acabaram por me levar para o lado mais prosaico do Direito, mas ficou-me este hábito de “filosofar”. Que quer? Os devaneios próprios da juventude transformados na caturrice de um velho. A propósito, deixo-(lhe) para reflexão uma história verdadeira. A minha mulher tem um primo direito, sacerdote católico, com uma licenciatura em Filosofia e o Curso de Teologia da Universidade de Lovaina. Eu, embora educado na religião católica, atingidos os meus dezoito anos, deixei de ser praticante. Entre parêntesis, talvez seja útil referir que hoje não professo confissão religiosa, seja ela qual for. A minha religiosidade brota do meu interior, escusando-se a preceitos e ritos inventados pelos homens. Mas vamos à história. Recentemente, num almoço alargado da família – com o atrevimento de quem tinha já comido e bebido a preceito – perguntei-lhe se, com a sua vasta cultura humanista (filosófica e teológica), acreditava mesmo naquilo que, enquanto convidado pelo pároco local, havia pregado sobre o “Diabo e as penas do inferno” (literalmente) durante a missa rezada antes do almoço na igreja da aldeia onde nascera (uma recôndita e pouco “civilizada” aldeia do Distrito de Bragança). A resposta foi breve e seca: ” O Mal existe “.
    Com muita consideração.
    Joam Roiz.

    PS – Embora residindo em Évora, será que a sua família (Chorão) é oriunda da Guarda? Desculpe a indiscrição.

    • José Chorão says:

      Caro Joam Roiz,
      obrigado pelas palavras simpáticas.
      Mas olhe que a minha formação filosófica não é, de certeza, superior à sua nem à de ninguém; o que meio século de estudo me ensinou foi, sobretudo, humildade e a consciência de que pouco sabemos e que quanto mais estudo maior é o tamanho do que ignoro. Logo, todos somos aprendizes nesta arte de pensar e de viver. Acho que faz muito bem em cultivar esse hábito de filosofar, mostra que é uma pessoa inteligente e atenta ao mundo.
      O Mal existe? Essa história do seu familiar é interessante. Eu partilho da opinião de Einstein que achava que o Mal não existe, é apenas a ausência de Bem; ou seja, tal como não existe escuridão, esta é apenas a situação de ausência de luz (essa sim, existe, podem quantificar-se as partículas luminosas). O Bem é real e é uma escolha humana; se optarmos por não escolher o Bem, viveremos rodeados pelo Mal, por falta de Bem. O Diabo e o Inferno são apenas um modo simples de entendermos do que estamos a falar, mas não têm qualquer existência real. Mas isto é apenas uma opinião, claro. A famosa e antiga Universidade de Lovaina ensina isto de modo diferente. Teremos todos razão, talvez não haja uma única resposta mas várias possíveis.
      Embora eu seja um lisboeta que ganha a vida a torturar as cabeças dos pobres eborenses (coitados, aturam-me as teorias e o mau feitio e ainda são simpáticos comigo), os meus antepassados eram rijos lavradores do distrito da Guarda, sim; mais precisamente do Sabugal. Eu é que degenerei e dediquei-me às ideias abstractas. Este país é cada vez mais pequenito.
      Amigo Joam Roiz, foi (e continuará a ser) um enorme prazer trocar impressões consigo.
      Um grande abraço e um excelente 2016 para o senhor e para os seus.
      josé chorão
      P.S.- peço humildes desculpas ao João Mendes, autor do post, por me ter “alargado” nos comentários e ter acabado por quase monopolizar a caixa de comentários; a ideia não era essa mas acabou por acontecer. Desculpe, não voltarei a abusar. Um bom 2016 para si.

  15. Joam Roiz says:

    Meu caro José Chorão, muito obrigado pela gentileza das suas palavras. Este País é, na verdade, pequeno. Por duas vezes, no início da minha adolescência, durante as férias escolares, passei alguns dias em casa de uma família amiga de meus pais na cidade da Guarda. Para além do filho da casa, lembro-me, também, de ter tido por companheiro de brincadeira um “Chorão”. Infelizmente, já não me recordo do seu primeiro nome, mas ainda tenho bem presente as muitas tropelias que fizemos os três. Veio daí a minha curiosidade.
    Quanto ao Bem e ao Mal, à luz e à escuridão (e ao Einstein), no diálogo entre ciência e religião, as comparações parecem-me sempre problemáticas e provisórias. Que a escuridão é simplesmente a ausência de luz, é uma verdade irrefutável. No entanto, dizer que o Mal é simplesmente a ausência do Bem, pode ser mais arriscado. Eu julgo que são ambos reais e escolhas humanas dependentes do livre arbítrio de cada um. Mas isto também não passa de uma opinião e reconheço que o exercício do livre arbítrio pode ser, e é, muitas vezes condicionado pelas circunstâncias. Até o Direito o reconhece, quando iliba os autores do crime de roubo de alimentos, por exemplo, quando realizado em situações de manifesto estado de necessidade. Já agora, voltando à escuridão, a física e a astronomia descobriram que o Universo contem em si uma significativa fatia de matéria escura mensurável e, até, de uma energia escura misteriosa. Mas como estou muito longe de poder alcançar a matéria, isto é apenas uma maneira de falar e não tem, evidentemente, o intuito de colocar em causa a sua opinião. Só serve para pensarmos sobre os desafios que se põem à ciência e à pequenez dos nossos saberes humanos. Enquanto seres inteligentes temos o dever de desafiar o futuro, procurando conhecer mais e melhor, mas acredito que a investigação científica, para ser feita em benefício da humanidade, carece da humildade dos cientistas para reconhecerem que a “árvore da sabedoria” deve ser sempre abanada com o requerido cuidado e os seus frutos usados com extrema cautela.
    Igualmente um grande abraço e o desejo de um próspero e feliz ano de 2016, extensível à sua Família.
    Joam Roiz

    • José Chorão says:

      Caro Joam Roiz,
      esse Chorão da Guarda, que conheceu, há-de ser, provavelmente, algum primo meu afastado, que os tenho por lá e por várias outras terras beirãs. O contacto com eles é pouco, já que eu cresci em Lisboa.
      Sabe, eu tento apenas interpretar à minha maneira o que Einstein escreveu sobre essas questões metafísicas do Bem e do Mal. Na minha opinião (e esta interpretação vale tanto ou tão pouco como outra qualquer) o que o cientista quereria dizer seria que, sendo os seres humanos dotados de racionalidade e capacidade de escolher e fazer o Bem, esse seria o seu caminho natural. Quando um ser inteligente sabe o que é o Bem deve colocá-lo em prática porque é essa a sua natureza. Pode optar por nada fazer e então não será um ser de Bem, uma vez que o não pratica. Será, então, um ser do Mal por nada fazer de Bem. Se somos racionais teremos de ser bons. Se não o formos nada nos eleva acima da animalidade. Mas isto é apenas uma interpretação possível.
      No fundo, isto agora é teoria minha, o que importa, na vida, é que a vivamos de modo a ser o melhor possível, a fazer o Bem que estiver ao nosso alcance e a não prejudicar ninguém com isso. Teorias? Cada pessoa terá as suas e todas são boas desde que nos façam sentir bem e satisfaçam as nossas ambições. Não podemos é impôr aos outros o que nós pensamos porque as teorias diferentes dos outros são tão boas ou melhores que as nossas. É um pouco isto que procuro passar aos meus alunos, que pensem por si próprios e respeitem os outros e, pelo feed-back que vou tendo, as coisas têm corrido bem.
      Caro amigo, foi um prazer esta troca de impressões. Fique bem e tenha um 2016 cheio de saúde e amor.
      Cumprimentos
      josé chorão