O Infoproletariado

 

Bureau-Computing-Division

Trabalhadores num escritório de Washington em 1924

António Alves

Por motivos profissionais tenho-me deslocado, quase diariamente, ao edifício por cima da parte nova da Estação de Campanhã. O mesmo edifício onde se encontra o gigantesco callcenter da NOS. A minha curiosidade sociológica tem-me levado a observar, com alguma atenção, o “ambiente” do complexo.
É um edifício gigantesco, feio e frio. O callcenter ocupa uma área enorme. Deve andar pelos 80% de toda a área edificada. São salas e mais salas, centenas, com paredes de vidro, repletas de “postos de trabalho” uns ao lado dos outros em filas paralelas. Existem torniquetes, daqueles comuns em estações e estádios de futebol, em todas as portas e entradas. Incluindo nos acessos a bares e cantinas. Ainda não comprovei se as casas de banho também estão “protegidas” pelas omnipresentes máquinas controladoras. Os trabalhadores activam-nas com um cartão que trazem dependurado ao pescoço num cordão que ostenta o logótipo da NOS.

Não sei quantas pessoas lá trabalham. Mas devem ser muitas centenas, ou mesmo mais de um milhar, nos vários turnos que preenchem as 24 horas do dia. O ambiente é fabril. As grandes levas humanas nas trocas de turno fazem-me lembrar as grandes fábricas têxteis que existiam no Norte de Portugal nos anos 70/80 do século passado. Muita gente nova. São a maioria esmagadora. Trintões e quarentões são raros. Raparigas aos magotes como nas velhas têxteis. São o sexo predominante. Muitas delas com a bolsa da marmita a tiracolo. O que as distingue das antigas operárias industriais, que estávamos habituados a ver, é o porte, a atitude e as roupas muito mais polidas e cuidadas. Mas são muito mais tristes, caladas e cinzentas do que eram as antigas operárias. Não se ouve aquela algazarra alegre e colorida das raparigas da fábrica de antigamente. São outros tempos.

Para as operárias de antigamente, a fábrica, contraditoriamente, era uma libertação. Permitia-lhes fugir à  tirania dos pais, dos namorados e dos maridos. Dava-lhes um salário. Autonomia financeira. Fugiam da lavoura. Não iam para servas da gleba nem para servas das senhoras como criadas domésticas. Daí, na juventude, enquanto as desilusões da idade e da monotonia laboral não se impunham, a alegria jovial e provocadora. Estas raparigas dos callcenters veem aquilo como uma prisão. Com elas passa-se o inverso. Elas foram criadas e educadas para serem aquilo que as mães, muitas delas as antigas operárias, nunca foram. Para outros voos. Não foram criadas para estarem presas na fábrica das informações. Na mecânica repetitiva dos “diálogos” normalizados, formatados e mensurados ao segundo. Daí a sua tristeza.

Diz-me um amigo que a jovialidade das raparigas de outrora era fruto da cultura da época. Também é  verdade. Nesse tempo ainda predominavam os laços comunitários. Fossem eles rurais ou urbanos dos bairros e “ilhas” operárias. Apesar da pobreza, e mesmo miséria, as pessoas sentiam-se mais amparadas, mais próximas umas das outras, mais solidárias. Precedendo os laços comunitários e de vizinhança, existiam ainda os fortes laços familiares que também têm vindo a enfraquecer. Tudo isso se reflectia, de forma positiva, no comportamento quotidiano, na psicologia individual e social. Hoje, nas nossas sociedades ultra burocratizadas, os laços que nos unem são, cada vez mais, meramente funcionais. Vivemos isolados.

Comments

  1. Vou ali e já venho says:

    Abaixo o Socialismo!
    Viva o capitalismo que nos paga a miséria que recebemos…
    every people has the government it deserves

  2. Konigvs says:

    Eu até ia dizer (se não estou enganado) que já li aqui no Aventar sobre o tema, e até creio que foi a propósito duma reportagem, que talvez fosse esta (ou outra qualquer):
    https://www.youtube.com/watch?v=0ZRf8UWOJ-M
    e que ilustra bem a realidade da coisa. Vivemos tempos verdadeiramente modernos.


  3. A alegria dos trabalhadores nos países de bom socialismo, como Cuba, Venezuela, Coreia do Norte e afins é melhor , só que os salários que recebem, permite-lhes ter uma vida com metade do conforto destes países capitalistas bem organizados. (não é o nossso caso claro), em que os salários, um terço da Alemanha, espelham o peso da sector das empresas nacionalizadas “nossas” e do sector muito “produtivo” publico e de alto rendimento, que este governo, e bem , vai ampliar. Temos sempre o recurso aos malandros da troika que vêm a seguir arruinar o socialismo florescente,.

  4. martinhopm says:

    Agradecia que o Cristof9 me esclarecesse sobre qual é, post PàF, «o peso do sector das empresas nacionalizadas, ‘nossas’». Quais são? Em que sectores? Por que será que, num comentário a um problema ‘nosso’, que se verifica não só nos ‘call-centers’, mas ouso dizer numa grande quantidade de empresas, o Cristof9 vai sistematicamente buscar a Coreia do Norte?! Por que raio de carga de água?! Estamos a falar dos ‘nossos’ problemas ou dos da Coreia do Norte?! Arre, porra, que já começo a estar deste tipo de comentários! E são quase sempre comentários da lavra do Cristof9. Para esclarecimento do Cristof9, digo que tenho 72 anos (pertenço mui justamente à mui afamada ‘peste grisalha’) e trabalhei dos 18 aos 66.


  5. deixo,com o devido agradecimento ao autor, um comentário no meu blog, aqui : http://callparaasparedes.blogs.sapo.pt/o-infoproletariado-250442

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