Um jogador a menos

J. D. Moufons, um distinto cavalheiro que conheço das noites de poker, foi convidado por Matilde M. para uma séance em casa dela. A Matilde não bastava ter uma casa semelhante a um museu, com todas as paredes e recantos pejados de quadros, antiguidades e de retratos de gente que Matilde não sabe quem foram mas nos quais reconheceu, ao encontrá-los em dispersos antiquários, traços reveladores de uma força de carácter, de uma nobreza que só podiam ser suas antepassadas. Matilde também adoptara hábitos caídos em desuso, como beber mazagrã e organizar sessões espíritas em sua casa, sempre à terça-feira, porque era o dia em que o marido, avesso a excentricidades, saía para o bowling.

Moufons não tinha interesse no oculto. Não desejava comunicar com falecidos, nunca perdera tempo com especulações sobre o Além, não ansiava por respostas porque simplesmente nunca tivera vontade de fazer perguntas. Mas Matilde era insistente, repetia-lhe que ele tinha absolutamente de ir, e como, depois daquele aborrecido incidente com a espingarda de chumbos, Moufons vira muitos dos seus amigos afastarem-se, não queria perder a pouca vida social que lhe restava: as noites de poker e as excentricidades de Matilde.

Por isso, com um resignado suspiro, encharcado até aos ossos, porque a noite era de chuva torrencial, tocou à campainha da casa de Matilde, pontualmente, naquela noite de terça-feira. Se não tivesse ido, sabemo-lo agora, a sua pacata existência teria continuado sem sobressaltos. A sua escolha revelou-se, porém, decisiva. Confrontado com a insistência da médium, que de imediato detectou a presença de um intruso, acabou por constatar que, tal como ela lhe garantia com solidíssima convicção, ele estava já morto há sete anos e ainda não se havia apercebido disso.

Foi uma grande excitação em casa de Matilde, nunca os convivas se tinham sentido tão entusiasmados com uma séance, e o próprio Mouffons acabou por apreciar a súbita e pouco habitual atenção que lhe dedicaram. Quiseram saber como se sentia, se notara alguma diferença desde que morrera, uma azia, um reumatismo, uma perda de peso. Mas Mouffons não notara nada e sentia-se muito bem. Claro que agora teria de mudar de vida, disse, com uma risadinha tímida, logo seguida das gargalhadas de todos. Acabou por ser uma noite bem passada.

Já para nós, no grupo do poker das sextas, foi muito aborrecido. Agora temos um jogador a menos.

Foto: Médium apanhada em flagrante a subir a mesa com o joelho. Sessão realizada em Paris, em 1950. Autor desconhecido.

Comments


  1. Obrigado Carla Romualdo.
    A mazagrã fez – me recuar à Confeitaria Tambela nos anos sessentas; googlei e ainda lá está.

  2. A voar says:

    Este Verão vou voltar a beber refresco de café. Há bons hábitos que se perdem, vá-se lá saber porquê.

  3. j. manuel cordeiro says:

    Tenho para mim que há por aí muito morto perdido na azáfama do dia-a-dia.


  4. Excelente Carla. Andamos mesmo muito tempo na nossa vida mortos, ausentes de nós. Gostei muito.