Portugal, the way forward? Dois países?

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Estive a ler com cuidado um documento produzido pelo IGCP (Agência de Gestão da Tesouraria e da dívida Pública) – denominado “Portugal: the way forward”, a instituição responsável pela gestão da dívida pública, com a data de 8 de Janeiro de 2016. É um documento verdadeiramente surpreendente. Recordo que esta agência é tutelada politicamente pelo Ministério das Finanças, pelo que a Presidente do IGCP (Isabel Casalinho) deve ter validado este documento com o ministro Mário Centeno: qualquer outro cenário não faz o menor sentido. Não é só a questão da tutela política. É que o IGCP tem como missão garantir o financiamento do Estado nos mercados internacionais e garantir que ele se faz nas melhores condições, o que é particularmente crítico neste momento em que existem “conflitos” com investidores devido às recentes decisões no Banif e no BES, mas também porque a dívida do Estado é muito alta (superior a 130% do PIB) o que gera desconfiança sobre Portugal.

Ora, olhando para o documento, Portugal é apresentado como estando no rumo certo, como um país que fez  o que era necessário fazer e está agora a começar a colher os frutos desse enorme esforço de consolidação orçamental, de redução da dívida, de recuperação do emprego, de aumento das exportações, de receitas das privatizações (onde até consta a TAP – com data de de privatização de Junho de 2015 e não de Novembro de 2015 – ver página 29) muito significativas e que superaram as expectativas, do maior e melhor investimento (sim leu bem), etc. Não sou eu que o digo, é o documento. Basta ler. Ou seja, o IGCP e o Ministério das Finanças – não poderia ser de outra forma pois, reafirmo, este documento não poderia ter sido produzido sem a autorização e validação de Mário Centeno – afirmam que Portugal entrou num novo ciclo económico, devido ao enorme esforço feito desde 2011, e que é um país que se recomenda.

Ou seja, segundo este documento a ação do Governo de Pedro Passos Coelho foi muito positiva, portanto deixou uma herança que permite agora apresentar Portugal como um país credível que fez as necessárias reformas estruturais. Quais?

  1. No mercado de trabalho: apresentado como mais flexível (é mais fácil contratar e despedir – sim leu bem), com menor proteção do trabalho mais ajustado aos novos tempos, menores custos do trabalho, em que se reduziram os tempos de paragem de 25 para 22 dias, com diminuição dos feriados (sim leu bem). Não acredita? Veja as páginas 31 e 33 a 38;
  2. Na economia que é agora bem mais competitiva como resultado do facto de as reformas estruturais estarem agora a produzir resultados desde 2013 – ver página 41, por exemplo;
  3. Na justiça devido à reforma do sistema judicial que permitiu, diz o documento, que Portugal recuperasse muito significativamente nos índices internacionais (sim leu bem, página 43);
  4. Na reforma fiscal (página 47);
  5. Na reforma do sistema de pensões (página 48 e 49) que pesam cada vez menos no Orçamento de Estado (sim leu bem);
  6. No efeito do programa de privatizações que garantiu bem mais do que estava planeado (página 29);
  7. Na mudança estrutural da economia, suportada em exportações bem mais sólidas e diversificadas por setores e por destinos (sim, leu bem)  – ver páginas 16 a 24;
  8. Na recuperação do investimento privado que suplantou a zona Euro e que é um enorme indicador de confiança (ver páginas 25 a 28), suportado ainda pelas projeções de investimento no futuro (quadro da página 27);
  9. Na reforma da administração pública, agora bem mais ágil e controlada (página 45);
  10. Na redução gradual e sustentada de funcionários públicos (página 46);
  11. No facto de as contas públicas estarem agora muito melhores, com necessidades de financiamento fortemente reduzidas (sim leu bem, página 51);
  12. Na desalavancagem dos bancos e no reforço do seu capital (página 54);
  13. Na mudança de paradigma no crédito, agora mais concentrado nas empresas do que no crédito à habitação (página 55);
  14. Na consolidação das contas públicas, realçando que em 2014 se teve um saldo primário de +1,5 do PIB o que não acontecia desde 1997 (página 58);
  15. Ajustamento eficaz da economia (página 59);
  16. Redução significativa do défice, com contas públicas cada vez mais saudáveis (páginas 60 a 63);
  17. Redução da dívida em perspetiva (página 54);
  18. etc, etc.

 

Este documento termina com a análise das necessidades de financiamento, realçando a mudança estrutural e de perfil dos investidores: de melhor qualidade e sempre acompanhados de perto pelo IGCP.

Mas afinal o Governo de Pedro Passos Coelho foi mau, ou bom? Deixou uma pesada herança, ou afinal deixou uma herança muito positiva? O documento do IGCP e das finanças diz que foi bom e que, devido aos resultados obtidos pelas reformas realizadas, Portugal pode agora olhar o futuro com outra esperança e capacidade. Mas diz mais, diz que Portugal fez o que devia, no essencial, e tem de continuar neste caminho se quer reforçar a credibilidade que recuperou (diz o documento) nos últimos anos. Surpreendido? Não é isso que nos é dito internamente.

 

Comments


  1. É evidente que é um documento pensado para o exterior – para os eventuais investidores em Dívida Pública da República Portuguesa – e não caíria bem aproveitar para criticar a política do executivo anterior. A roupa suja lava-se em casa.

  2. Nightwish says:

    Não sei porque raio um governo há-de estar preocupado com um panfleto, mas você lá sabe. Mesmo que tenha aprovado, não passa o que lá estar a ter ligação com a realidade. Só a evocação da fada da confiança dá-me asco.


  3. Afinal andei a bater no governo anterior. Afinal não havia cumplicidade. Enfim… em cada comentário, uma nova contradição.

  4. Ferpin says:

    Qual o espanto? Foi cortado um monte de coisas, que criaram recessão na economia, com o objectivo ( não conseguido) de melhorar dívida, défice, etc.
    Agora tenta-se convencer os investidores externos de que isto ficou um paraíso.
    Pinta, pinta, tinha sido escrever documentos mirabolantes em 2011, e ao mesmo tempo ter evitado liquidar a economia, como fizeram a Espanha e não só. Mas isso não era o desígnio passista.

  5. pSalaberth says:

    Sim. Nós até já tínhamos ouvido falar sobre este fenómeno. Ainda tenho na memória aquela ideia lançada há tempos que dizia dos portugueses não estarem melhor mas Portugal estar…
    O ideal seria um Portugal sem portugueses, assim tudo estaria óptimo. Só teríamos Portugal, e esse estaria lindamente…


  6. Realço que felizmente um organismo de prestigio não deturpa um documento com considerações politicas de agrado do governo , mas faz as suas analises , fruto do que é a realidade dos factos. E devia ser doutra maneira? mesmo os trolls daqui, que gostam de ver tudo com os oculos de cor unica, se querem investir,vão agradecer que a frieza dos numeros trabalhe e que se guarde na carteira o cartão do partido ou facção.


  7. Aqui julgo que não é uma escola. As conclusões são responsabilidade de cada um; a escola publica “nossa” e de qualidade está já aí, mas não é aqui