Crónicas do Penedo I – A antena

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No tempo em que não existia TV Cabo e a televisão a cores era uma realidade um pouco recente, o meu pai decidiu comprar uma antena parabólica para termos alternativa ao elevado número de canais televisivos que a pátria oferecia: RTP 1 e RTP 2…

Na altura foi um acontecimento. De repente passei a ter, vejam lá, um canal de música (já não me lembro do nome a não ser que era qualquer coisa “europa”). Isso e alguns que durante a madrugada passavam umas coisas interessantes para maiores de 18. Nalguns casos, como diziam um amigo meu, era mesmo para maiores de 40… Depois veio a TV Cabo e nunca mais se utilizou a antena. Continua lá no alto do telhado sobrevivendo a custo a alguns temporais de inverno.

Até que um dia Espanha nos chama e lá vamos nós em trabalho por uns tempos valentes. De repente decides que vais ter uma parabólica pois não estás para fazer um contrato de fidelização de televisão por cabo e pagar uma fortuna todos os meses para levares com as melhores series americanas dobradas em castelhano…Ouvir Frank Underwood em castelhano é quase tão pornográfico como o “xiii cariño, xiiii” dos anos oitenta.

Antena comprada, montagem realizada e vamos lá procurar os canais. Como sou um crente fui na história do vendedor espanhol. Sendo eu português ele acreditou que eu queria o prato (a antena) virado para um satélite chamado “Hotbird 13 C”  por causa da RTP. Não deve ser mau, pensei. É nessa altura que descobres que o mundo está mesmo para acabar. Quando liguei o sintonizador e o coloquei em busca automática pelos satélites estive mais de meia hora a olhar para o televisor e a ver os canais a surgirem de lado. Mais de 4000 canais! Parecia o sonho molhado de um qualquer adepto ferrenho do zapping. Finalmente, quando já estava a perder a paciência, a coisa terminou. Ora vamos lá descobrir.

O fim do mundo! Imaginem que desses mais de 4000 canais cerca de metade são Árabes. Um cento deles são canais católicos (?) americanos, outro cento da Europa de Leste, umas dúzias de países africanos daqueles que nem imaginava que fossem meninos para ter canais de televisão tão entretidos que andam a matar-se uns aos outros e no meio de tudo isto, no lugar 834, a nossa RTP Internacional. Como ainda passaram poucos dias e o meu número de horas a ver televisão é escasso, não estou habilitado a falar sobre a qualidade (ou falta dela) da RTPi. E ainda ando meio perdido entre os mais de 4000 que tenho à disposição. Escusado será dizer que os desejados estão codificados. Ou seja, é pagar se queres ver. Azar. Mas vamos aos canais árabes.

Quase todos eles são religiosos. Até tenho um onde um boneco desenhado vai lendo o Corão. Sim, não estou a brincar, uma espécie de “batatinha” em versão desenhada e mal amanhada que vai lendo o Corão e se eu colocar o som bem alto tenho a certeza que a vizinhança se vai borrar de medo e chamar a polícia. Nem me atrevo a experimentar. Até que de repente surge um canal chamado “Arab Fun”. Temi o pior.

Pois então não é que o canal é assim a modos que…violador dos sagrados escritos do Corão mas abençoado pelo sagrado “mercado”. Em rodapé vão passando vários números de telefone para onde se pode ligar. E umas coisas escritas que, como já adivinharam, não faço a mínima ideia do que significam. Tudo isto com um arremedo de música pop árabe e uma rapariga sentada ao telefone. Para os nossos padrões ocidentais está vestida como se fosse para a neve. Já para os padrões árabes julgo que está em pecado pois os braços estão desnudos (abaixo do cotovelo) e as calças, verdade seja dita, são um pouco justas. Arab Fun é isto.

Alá seja Louvado.

Comments

  1. Ricardo Santos Pinto says:

    Não me digas que não te lembras do Adam Curry do Countdown. Que quase era violado quando, um dia, chegou ao Aeroporto de Lisboa para fazer um programa. Parece que é hoje um empresário de sucesso no mundo do audiovisual


  2. É pena não ter o Kadafi vivo. Os discursos dele demoravam uma tarde inteira; um mimo de eloquência.