Inconcebível no mundo moderno

Sobre o acidente em França que vitimou 12 emigrantes portugueses: Como é que possível (no mundo moderno) que pessoas conscientes e informadas dos perigos que correm em viajar dessa forma da Suiça para Portugal (15 pessoas em carrinhas comerciais de carga; alguns em carrinhas preparadas para 9 passageiros) paguem 400 euros (com carradas de voos low-cost diários providos pelas companhias aéreas low-cost) continuem a participar desse esquema criminoso de índole comercial movido por compatriotas nesse país?

A propósito: não serão esses esquemas tão ou mais vis que os esquemas que as máfias africanas elaboram no transporte de migrantes africanos para a Europa?

Comments

  1. doorstep says:

    Conheci de perto esse mundo…
    A maior parte dos tugas que ainda alimentam o negócio das “carrinhas” fá-lo por uma só razão: o medo invencível de voar.

    Depois há os que querem trazer carradas de coisas (a maioria das quais se compram em qualquer lidl), pois a tradição assim o exige.

    E depois há os que não podem apresentar-se nos nossos aeroportos porque já não pagam multas há um rôr de tempo…

    Enfim: vidas…


    • Depois de ter falado sobre o assunto com o meu sogro (emigrante na Alemanha nos anos 60, 70 e 80) fiquei a saber alguns desses motivos. Outros confesso que desconhecia.


  2. Uma viagem em autocarro comercial custa… bem menos. Não dá é para trazer marroquinaria.


    • A viagem em autocarro licenciado (quem nunca viu um Euroilnes?),com dois motoristas profissionais, entre a região de Paris e o norte de Portugal custa pouco mais de 100 euros. Ou seja, é bem mais barato. E, embora não se possa garantir a segurança a 100% (ninguém pode), é garantidamente mais seguro do que este esquema das carrinhas.


      • Até há bem pouco tempo Coimbra – Paris custava efectivamente um valor perto desse. Penso que a distância até Paris é superior à distância até Genebra, por exemplo

  3. Joam Roiz says:

    Depois da sua confissão, João Branco, apetece-me dizer-lhe que antes de escrever deve começar por se informar muito bem sobre as respectivas matérias. Postes como o seu só vêm descredibilizar o “Aventar”. Aliás, já de há algum tempo a esta parte, parece-me muito questionável a escolha de certos colaboradores feita pelos gestores do blogue.


  4. Joam, se acha que pode fazer melhor, tem o meu lugar à disposição.

    • Joam Roiz says:

      A parte final do meu comentário não era especificamente dirigida a si. De qualquer modo, se o João Branco é um dos gestores do blogue e o convite for a sério, será uma honra colaborar com o Aventar. No caso de, eventualmente, o João Branco residir em Coimbra ou nas proximidades, não me será difícil um encontro para conversarmos. Se o entender, poderá entrar em contacto comigo a partir das 15 horas através do telefone nº 239090284 Se isso acontecer, revelarei, naturalmente, a minha verdadeira identidade. Cumprimentos.


      • Sou natural de Aveiro, estudei e vivi durante 10 anos em Coimbra mas actualmente resido em Viseu. Posso contactá-lo assim como dar um salto a Coimbra nos próximos fins-de-semana.

        • Joam Roiz says:

          Aos fins de semana tenho mais dificuldades. Costumo sair de Coimbra. De qualquer modo, fico à espera do seu contacto. Muito obrigado pela sua resposta.


  5. Deduzo eu que não vai haver seguro algum que indemnize prejuízos ( das vitimas e do camião italiano ). Então, deduzo eu, que irão sobre o empresário (???) da firma de transportes (?). Os italianos, têm toda a legitimidade. MAS, os passageiros não terão a sua quota parte de culpa ao aceitarem ser transportados assim “á molhada” sem se questionarem se há condições de legalidade, em caso de acidente ?


    • É uma questão complicada. Se o transporte for dado como ilegal, não haverá imputação de responsabilidade civil ao empresário de transportes. Haverá sim ao condutor (o único sobrevivente) e possivelmente ao seu mandante\executor do transporte. O jovem não se escapará do crime de homicídio negligente mas decerto que também irá querer partilhar quota parte da culpa com a pessoa que o mandou executar o serviço.


  6. E já agora: à luz de qual legislação será julgado este crime? Portuguesa, Francesa ou Suiça?

  7. Joel Martins says:

    Introdução: Sou filho de emigrante, e eu próprio já fui emigrante várias vezes, ainda que em curtos espaço de tempo.
    Esta introdução serve para atenuar as críticas que se irão seguir pelo que vou escrever.

    Há 2 motivos muito simples, para isto acontecer:

    1. A capacidade de carga, tudo o emigrante quando vem de férias, trás a mala cheia de chocolates, rebuçados, e um salpicão comprado em Espanha. É certo que se podia comprar isto num qualquer intermaché, mas recordo-me da emoção de ver o que o meu trazia no saco, quando chegava de férias, ainda que fossem umas botas “made in portugal”, compradas em França, true story …..

    2. A comodidade, as “carrinhas” apanham os passageiros em casa, e largam em casa, muitos dos nossos emigrantes são de zonas remotas, e que ficam a centenas de km’s dos aeroportos.

    Passo a relatar a minha experiência, nos idos de 2001, entrei na universidade, como filho de emigrante sazonal, com rendimentos de +- 15000€, agregado familiar de 4 pessoas e 2 casas para sustentar não tem direito a bolsa, ao contrário dos filhos de empreiteiros e etc. Vi-me portanto, na obrigação de aceitar o convite do meu pai e ir trabalhar para França. Como o meu pai não tinha tempo para me ir buscar ao aeroporto, e como o meu francês era inexistente, a solução das carrinhas aparecia como a solução ideal.

    O Sr. que me transportou passou em minha casa as 8.30h, já andava a carregar passageiros e mercadoria desde as 6.00h, era o único condutor e ia fazer a viagem nop stop. Andamos mais uns tempos a carregar pessoal, e recordo-me de parar em Chaves para almoçar. Até aqui tudo muito bonito, quando se aproximou a noite, comecei a reparar que o motorista conduzia com um olho aberto e outro fechado, até que o passou a fazer com os 2 fechados. Olhei em redor e reparei que os meus companheiros de viagem eram misto de pessoal muito novo para ter carta, e pessoal numa idade de pré reforma, nessa altura todos a dormir tranquilamente. O meu instinto de sobrevivência e apesar da tenra idade responsabilidade, forçou-me a oferecer os meus serviços como condutor, numa primeira fase recusou, mas perante a minha insistência, dizendo que já tinha alguma experiência como condutor ( com 18 anos ??), o motorista lá acabou por me deixar conduzir. Ficou um bocado a avaliar a minha condução, e passado um bocado acordou a sobrinha para me fazer companhia, dizendo que ia dormir meia hora para descansar os olhos. O cansaço do homem era tanto, que a meia hora transformou-se em 6 horas de sono profundo, interrompidas apenas quando o acordei as portas de Paris, porque nem eu, nem a sobrinha tínhamos dinheiro para pagar as portagens. Passando um pouco, vários emigrantes estavam em casa, com os seus garrafões de vinho e água ardente, numa história que acabou bem, infelizmente conheço muitas que acabaram mal.

    Quanto a mim, fiquei com uma história para contar aos netos, e com certeza que não voltaria a usar estes transportes, nem eu, nem o meu pai, que proibi de o fazer.

    Estes não são os únicos perigos que os nossos emigrantes enfrentam nas viagens para Portugal. Enfrentam também a estupidez, que infelizmente nos nossos emigrantes é uma coisa muito generalizada. São incontáveis os casos de pessoas que fazem jornadas de trabalho de 10, 12, 14 e em alguns casos 16 horas, que depois chegam a casa e de imediato pegam no carro para rumar a Portugal, esta é uma triste realidade ….

    Para os emigrantes que possam estar a ler isto, uma grande abraço.


    • Excelente comentário Joel Martins. Farei questão de falar com os meus colegas de blog para ser publicado como Autor Convidado se não se importar…

      • joelvm says:

        O testemunho serve apenas para mostrar uma ponta do iceberg, do que é esta realidade. Estão autorizados a usar o texto como entenderem, é importante alertar para o perigo que são estes transportes.

    • doorstep says:

      Descrição mais fiel… só se fosse a Carla Romualdo a escrevê-la – e ainda assim não sei se não seria necessário tê-la vivido!

      Quanto às “directas” trabalho>estrada, tenho um amigo que sobreviveu a 4 acidentes em 7 anos, e que juntava ao cocktail um ingrediente suplementar: sandes de carne assada. O record dele estava nas 43 sandes comidas sem largar o volante, acompanhadas de minis qb – nunca disse quantas!!!!!!!

      Heróis do mar? Qual quê! Road warriors!