Crónicas Desportivas (2) – Sagan, o quebra-maldições

O Campeão do Mundo Peter Sagan voltou a vencer no difícil pavé da Flandres uma das suas provas fetiche: a clássica Gent-Wevelgem, uma das provas que serve de antecâmara às duras clássicas e provas por etapas de pavé e colinas da primavera (Liège-Bastogne-Liège, Amstel Gold Race, Paris-Roubaix, Fleche-Wallone; 4 dias de Panne). Sagan continua a confirmar que após um início de carreira a todo o gás no qual batia tudo e todos ao sprint, evoluiu para um  all-rounder disposto a vencer todas as grandes clássicas do calendário World Tour.

No que diz respeito à acidentada corrida da Flandres, os principais favoritos à vitória (numa clássica no pavé não se pode dizer que exista um ciclista que seja mais favorito que os restantes visto que a dureza dos sectores de paralelo e barro e as múltiplas variantes acidentais que podem ajudar a decidir o rumo da corrida como os furos ou as quedas; há ciclistas que gostam de correr estas clássicas junto às valetas para evitar a trepidação do paralelo; alguns dão-se bem, outros tem azar) mexeram no ponto-chave da prova a 35 km da meta, destacando-se então um grupo composto por Sagan Sep Vanmarcke, Fabian Cancellara (outros dos históricos no pavé) e Kuznetsov (ciclista que já se encontrava em posição adiantada) seguidos de um grupo composto por 3 dos outros favoritos: o sprinter francês Arnaud Demare (homem que à semelhança de Sagan, começa a tentar trilhar a sua evolução natural para all-rounder), o checo Zdenek Stybar (ciclista temível em qualquer clássica, seja no pavé, seja com chegada em colina) e o mítico Greg Van Avermaet, o homem que apesar de ter poucas vitórias nas grandes clássicas raramente não aparece na discussão das mesmas.

Se a rolar, dar um milímetro ao Superman Cancellara é dar-lhe um salvo conduto para acelerar rumo à vitória, se lhe juntarmos Vanmarcke e Sagan na frente da corrida, aquele grupo só poderia resultar numa locomotiva que teria de chegar junta à recta da meta. Prevendo um sprint final acirrado entre o eslovaco e o suiço (a Vanmarcke falta-lhe uma pontinha de speed na finalização das etapas para as vencer), foi o russo da Katusha quem disparou o primeiro tiro no sprint final e abriu caminho à vitória do homem da Tinkoff, actual campeão do mundo de estrada.

Com esta vitória, Peter Sagan conseguiu de certo modo pôr fim à maldição da camisola de arco-íris. Nos últimos 4\5 anos, gerou-se uma maldição contra o Campeão do Mundo em título, homem que tem direito a usar a camisola do arco-íris durante a temporada seguinte. Nos últimos anos, todos os campeões do mundo de estrada não conseguiram vencer provas de destaque no ano seguinte.  O português Rui Costa afirmou uma vez a este respeito que o campeão do mundo em título tem muitas dificuldades na temporada seguinte visto que ninguém lhe dá um palmo de terreno para atacar, nem mesmo quando, por exemplo, Rui Costa tentou atacar na Volta ao País Basco em 2014 numa etapa na qual o português já estava muito atrasado na classificação geral e por conseguinte já não ameaçava o líder da prova. Para a explicação, vejamos o histórico dos vencedores na temporada seguinte à vitória no Campeonato do Mundo:

  • Mark Cavendish era o melhor sprinter mundial em 2011. A locomotiva britânica dominou por completo o ano de 2011, vencendo nesse ano para além do Campeonato do Mundo, a classificação geral dos pontos da Volta à França, 5 etapas no Tour, 2 no Giro e 8 etapas noutras provas. O ano dourado de Cavendish levou inclusive a deixar a HTC-Columbia no final da temporada para ingressar no projecto britânico da Sky, sem contudo, ter levado consigo os seus habituais lançadores de sprint Edvald Boasson Hagen, Greg Henderson, Matthew Goss e o veterano Georg Hincapie. O ano de 2012 viria a ser desastroso para o foguete britânico, no qual, após quedas e lesões durante vários períodos da temporada e apesar de ter vencido 2 etapas no Giro e 1 no Tour, falhou a vitória nos seus objectivos que eram as vitórias nas classificações dos pontos no Giro e no Tour.
  • Em 2012, Phillipe Gilbert dominava há dois anos o mundo das clássicas. O  ano de 2011 seria até o melhor da carreira do belga (outro sprinter que modificou as suas características para se tornar all-rounder) com vitórias em etapas e na geral no Campeonato Belga de Estrada e Contra-relógio, Tour da Bélgica, Liège-Bastogne-Liège, Amstel Gold Race, Fléche-Wallone, San Sebastian, Quebec, Strade Bianchi, Brabantse Pijl, Tour da Valónia, numa etapa da Volta à França (que lhe valeu o uso da amarela por 2 dias) e Volta ao Algarve. 2013 haveria de ser penoso para o ciclista belga que sinceramente, nunca mais foi o mesmo desde o dia em que ganhou a camisola de arco-íris. Nesse ano haveria apenas de vencer numa etapa da Vuelta, falhando a vitória nas suas clássicas de predilecção apesar de ter feito sempre lugares no top-10 nas Ardenas.
  • O senhor que se segue é Rui Costa. O ano espectacular de 2013 (vitória na geral e em 2 etapas da Volta à Suiça, 2 vitórias em etapas de montanha no Tour, Vitória na Klásica Primavera, Campeonato Português de contra-relógio, 3º na geral da Volta à Romândia atrás de Stybar e Chris Froome; 9º no ranking mundial no final da temporada) seria sucedido por um 2014 (mudança da Movistar onde era um subalterno de corredores como Valverde ou Nairo Quintana para a chefia da Lampre) muito azarado no qual apenas voltou a revalidar a vitória na Suiça, passando ao lado, por pouco, das vitórias no Paris-Nice (2º), Montreal (2º), Volta ao Algarve (3º), Romândia (3º novamente), Giro da Lombardia (3º), Tour de Beijing (4º) e das prestações na Volta à França, edição da prova na qual desistiu por causa de um problema cardiopulmonar.
  • A Rui Costa sucedeu o polaco Michal Kwiatkowski, ciclista que emergiu na alta roda do ciclismo mundial em 2013 como um ciclista capaz de se tornar um dos grandes vencedores de clássicas e provas por etapas de uma semana. 2015 também se tornou um ano de não´s para o campeão do mundo em título. Vitória sensacional na inclinadíssima Amstel Gold Race na qual Kwiatkowski conseguiu violar a regra dos 6 (com um final disputado numa colina medonha, leia-se em dicionário velocipédico como “Muro” consta-se entre a elite do pelotão que só os primeiros 6 a virar a curva de acesso ao Muro de Cauberg-Valkenburg terão capacidades para disputar a vitória na prova visto que a inclinação média do Muro é de 5,8% (1200 metros) com rampas em certos pontos a roçar os 28%, o que deixa os ciclistas literalmente parados e obriga os que entrarem mais recuados a triplicados esforços para poderem vencer a prova. Convém também dizer que esta prova é palco para 30 colinas ao longo do percurso, sendo uma prova que os ciclistas costumam designar por “rasga pernas”. O polaco, conseguiu disparar vindo de trás para vencer a prova, falhando contudo os principais objectivos da temporada: Campeonato Mundial de contra-relógio (2º), Campeonato Polaco de Estrada (57º), Classificação Geral do Paris-Nice (2º), Volta ao Algarve (2º), Campeonatos do Mundo em Richmond (8º), Volta ao País Basco (8º), Fléche-Wallone (33º) e  Top 10 da Volta à França (desistiu).