Respect! Nós somos os improváveis


portugalhoquei.artigo

Confesso que todas as conquistas portuguesas me enchem de orgulho, sejam elas no desporto, na ciência, na cultura, na literatura, nas artes. Em todos os campos. Embandeirei em arco com as conquistas do futebol, desporto-indústria de milhões; como do atletismo e do hóquei em patins, desporto de milhares; como das artes marciais, desporto de tostões; como do desporto adaptado e as dezenas de medalhas de Lenine Cunha, desporto sem soldo.
Adoro destruir bestas negras, nem que seja à custa de ridicularizar bestas-quadradas. No futebol, foi a França; no hóquei em patins, a Espanha e a Itália, ambas despachadas, a seu tempo, com chapa seis.
Ontem, alguém me perguntava se eu ia “aventar” sobre a vitória no Europeu de Oliveira de Azeméis, talvez confundindo hóquei (o olímpico e a minha grande paixão em termos de desporto-pelo-desporto e sobre o qual, às vezes, escrevo nestas páginas) com uma variante da patinagem (sim, filiado na FPP, Federação Portuguesa de Patinagem) em que sempre fomos mais ou menos grandes, mas em cujos rinques não vencíamos um Europeu desde o século passado, em Paços de Ferreira, há 18 anos, jogo final a que assisti por obra e graça do responsável pela análise antidoping nesse jogo, o Dr. Pinto de Sousa, que me convidou para um admirável pica-no-chão, cozinhado pelas excelsas mãos de sua mãe, para, de seguida, nos deslocarmos até ao Pavilhão municipal da Capital do Móvel e para esse jogo final entre Portugal e a Espanha.
Respondendo ao repto, aqui estou eu a aventar, com a parcimónia que as musas me concederam em termos de escrita, ou não fosse a humildade o pior dos orgulhos, como afirmou no seu tempo La Rochefoucauld.
Faço-o de papo cheio, porque estamos apenas no início de uma época cheia: apenas houve uns europeus de futebol, de seniores e sub-17; há ainda a decorrer um europeu de sub-19 em que já batemos, na Alemanha, a selecção teutónica. E um europeu de atletismo com umas meninas lindas a conquistarem o Velho Continente e um hercúleo luso-búlgaro a conquistar o bronze a desfazer relvados com um peso que eu teria dificuldade em levantar… E umas artes marciais em que somos bons e, frequentemente, conquistamos pódios com a simplicidade dos mestres mundiais. E o Europeu de hóquei em patins, que ontem terminou em Oliveira de Azeméis com uma abada sobre a Itália, que era a titular europeia.
Digo que estamos no início, porque em Agosto vêm aí as Olimpíadas. E, como bons portugueses, já somos vencedores antecipados de pelo menos uma dezena de medalhas, mesmo no futebol em que o tal negócio de milhões ditou as regras à convocatória de Rui Jorge, obrigando-o a fazer quintas escolhas por obra e graça da ditadura financeira e de um estranhíssimo alheamento da FIFA no que ao futebol nos JO diz respeito, permitindo que os clubes vetem a participação de atletas na prova máxima do desporto global. Pudesse Rui Jorge convocar a plenitude de génios futebolísticos jovens, por certo que a medalha de ouro olímpica estaria bem mais perto. Mas, conhecendo Rui Jorge como conheço pelo seu passado de atleta e treinador, não tenho dúvidas de que vai com tudo, aproveitando até as dificuldades para sublimar os activos que lhe foi possível convocar, fazendo deles heróis, ainda que mais improváveis. Mas nós damo-nos bem com heróis improváveis, não é, Éder(zito)?!
Sim, esta posta era para ser sobre a grande vitória do hóquei em patins, ontem, na terra de Hermínio Loureiro, ele que também é Vice-Presidente da Federação Portuguesa de Futebol. E foi, à sua maneira, uma posta sobre a patinagem com bola, onde mais um quase quarentão pôde, finalmente, ostentar a medalha que perseguiu toda uma vida desportiva: ontem, foi Reinaldo Ventura, 38 anos, que assim respondeu à dispensa, até hoje incompreensível para mim, por parte do FC Porto, e que o ajudou a brilhar em Barcelos com uma conquista europeia de clubes, na presente época, e, agora, o título europeu pela sua / nossa selecção. No futebol, com a mesma idade, também outro ex-portista, Ricardo Carvalho, teve direito à sua medalha de ouro em Paris.
São muitas coincidências felizes neste ano de 2016. Nas respectivas selecções ou nos clubes, os portugueses distinguiram-se ao mais alto nível, não esquecendo Ricardinho e Madjer no que ao pontapé na bola diz respeito. Ou os atletas de boccia e os paralímpicos, os campeões dos campeões porque a vida foi ainda mais difícil para eles, não lhes deu oportunidades que deu a outros que fazem manchetes de jornais em todo o mundo.
Já agora, alguém, para além de uns malucos que um dia se lembraram de fazer vingar o hóquei paralímpico, sem condições e sem títulos de caixa alta, sabe que o hóquei de verdade, o olímpico, ousou constituir uma selecção de para-hóquei e participar no Campeonato da Europa, e o venceu, no Estádio Olímpico de Londres?
É, eu sei: são heróis improváveis. Por demais obscuros na singeleza de um desporto em que se paga para jogar. E, pronto, foi em 2015…
Mas, nesta hora de emulação, em que cantamos o hino em todas as esquinas, e passamos horas a ler entrevistas dos ídolos, prováveis e improváveis, saibam que há muito mais desporto – e muito mais medalhas – para além dos futebóis. Dos milhões que lidam com carreiras douradas. Da ostentação.
Há gente a suar sangue, suor e lágrimas, todos os dias, com ou sem deficiência, a lutar por um pouco de reconhecimento, de afecto. E, se temos, o Presidente dos afectos, Senhor Presidente da República, faça os trabalhos de casa e bora lá para uma festa global com todos aqueles que fizeram a diferença, em 2015 e 2016, para o desporto português. Se não houver comendas para todos, em nome da banalização, argumento que vou ler por aí na versão troll, dê-lhes um sorriso, um abraço. Às vezes, é o suficiente como estímulo.
RESPECT!

Foto, com a devida vénia, de aeiou.pt

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