Rua! Governantes sérios não aceitam presentes de empresas privadas


SdE

No meio de toda esta polémica das viagens pagas pela Galp, tenho apreciado bastante o moral de ferro dos dirigentes do CDS-PP que vieram a público comentar o caso. Até porque esta novela começou com o actual secretário de Estado dos Assuntos Fiscais envolvido em situações duvidosas, o que demonstra uma rara linha de continuidade numa pasta que mudou de partido. Uns aceitam viagens em condições suspeitas. Outros andam a brincar às listas VIP e aos vistos Gold. Adiante.

No Expresso podemos ler que o “Governo encerra polémica Galp com promessa de código de conduta”. Por mim podem fazer os códigos e as promessas que quiserem, mas neste momento estou mais interessado em saber, ao detalhe, em que condições aconteceram estas viagens. Rocha Andrade, João Vasconcelos e Jorge Oliveira, respectivamente secretários de Estado dos Assuntos Fiscais, da Indústria e da Internacionalização, foram convidados pela Galp para assistir a um jogo do Euro2016. No mínimo inclui viagem e entrada na partida, mas quer-me parecer que estas coisas incluem alojamento também. Hospitalidade ao mais alto nível. Sinal que a Galp pode e deve pagar mais impostos.

Tal como com os códigos de conduta feitos trancas à porta, estou-me nas tintas para o anunciado reembolso de pelo menos um dos secretários de Estado à Galp. Um governante que seja verdadeiramente sério não aceita presentes de empresas privadas com interesses directos na área que tutela, principalmente quando essa empresa tem um diferendo superior a 200 milhões de euros com o Estado. Isto é básico e, na minha opinião, restam apenas duas soluções: ou se demitem ou são mandados para o olho da rua. Que a direita viva bem com este tipo de promiscuidade é lá com eles. Um governo que se diz de esquerda não pode tolerar estes comportamentos.

Comments

  1. doorstep says:

    Mas não eram presentes, eram empréstimos!!! É que estes senhores – gente honesta, dada ao Futebol e provavelmente a Fátima – VÃO DEVOLVER!

  2. Afonso Valverde says:

    Claro, clarinho: Ou saem, ou são mandados sair.

  3. Concordo em absoluto.
    Há que quebrar a mentalidade do compadrio fácil que caracterizou todos os governos portugueses desde o 25 de Abril. Isto parece ser uma coisa de agora mas a verdade é que à 20 anos atrás era muito fácil encobrir estas palhaçadas. Hoje felizmente não. Basta uma pessoa com um smartphone estar sentada no estádio ao lado de um destes nabos para que tudo se saiba antes do fim do jogo. E ainda bem.
    Não interessa se o secretário de estado é do BE ou PAN que seja. Este tipo de comportamentos são inadmissíveis a qualquer nível da escada política. Se o PS está mesmo investido em mudar do partido “zig zag” que tem sido nas últimas 4 décadas, eis uma boa hipótese de o mostrar.
    A esquerda tem que dar o exemplo e com isso diferenciar-se de uma vez por todas da direita. Como diz e bem, a direita fez a paz com estas situações, como se pode ver pelas promiscuidades de Portas e Barroso (entre outras mais antigas e igualmente repugnantes), mas a esquerda tem o dever de se manter fiel ao que apregoa, pois de outra forma voltamos à alternância de mais do mesmo, uma sopa de caca que temos vindo a comer por mais de 40 anos.

    • Ricardo Almeida says:

      Impressionante. Mal acabei de escrever este comentário e eis que por toda a comunicação social se fala no novo tacho de Paulo Portas. Agora para uma petrolífera com a qual andou a lamber rabos enquanto estava ainda estava no governo. É que.. não dá.. nem se dão ao trabalho de disfarçar..

  4. Francisco Fernandes says:

    Qual a surpresa, nós já sabemos que todos têm preço, para chegar a deputado tem de aceitar tudo e ficar caladinhos, para chegar a convidado para o governo, nem se quer posso dizer, porque nesta democracia, tenho logo um processo em tribunal
    por calunia.

  5. João Costa Rodrigues says:

    Deixem lá isso, é a nossa cultura a nossa tradição, os VIPS só são VIPS porque nunca pagam nada, mas o povo até gosta, nesta coisa da corrupção ninguém dá cartas aos portugueses.

  6. A. Cabral says:

    Corria o ano de 2003, era o primeiro-ministro essa figura tão querida do PSD de nome Durão e de alcunha “O Cherne”, quando foi notícia que tal criatura tinha passado oito dias de férias de luxo à conta de um amigo que tem uma ilha paradisíaca no Brasil. Lia-se na comunicação social que “Durão Barroso viajou para o Brasil no passado dia 26 com a mulher, Margarida Sousa Uva, e os seus três filhos, o Luís, de 19 anos, o Guilherme, de 15, e o Francisco, de 14, e um grupo de amigos, entre os quais, o seu primo João Luís Barroso, que tem uma casa em Angra dos Reis e que já foi membro do Governo Federal Brasileiro”. E nem sequer teve de se incomodar com a viagem, foi de avião particular mais os restantes membros da distinta família.
    O mesmo cidadão exemplar da direita portuguesa, símbolo das suas virtudes, foi mais tarde notícia quando, já membro da Comissão Europeia, fez umas férias de luxo, um cruzeiro pago pelo banqueiro grego Spiro Latsis, desta vez na companhia da esposa. Não me recordo de alguma vez a direita ter pedido a demissão de tão viajada personagem. Da mesma forma que Marcelo disse que é bom ver “portugueses reconhecidos em lugar cimeiros”, quando o Cherne foi para a Goldman, temos que admitir que ficamos todos cheios de orgulho de ver o dito em locais tão luxuosos.
    A lista de penduras preencheria muitas páginas e no meio jornalístico são poucos os que não viajaram à conta de terceiros. Há algum tempo vários jornalistas foram ao Rock in Rio de Las Vegas por conta da EDP para dias depois saírem vários artigos muito elogiosos em relação àquela empresa em jornais muito puritanos como o Expresso. A verdade é que o turismo à conta de terceiros é uma prática nacional.
    Agora, muito de repente toda a gente parece desconhecer o país em que vivemos e vemos na comunicação social as putas velhas armadas em virgens puritanas.

  7. Neste assunto, a “transversalidade” de hesitações entre direita e certa esquerda só demonstra como estamos “adiantados” em matéria de demagogia ideológica e profundamente atrasados no domínio ético. E a inexistência de consenso quanto à recusa liminar de ofertas por parte de políticos e governantes é clara evidência do nosso “troglotismo” moral… Eis porque subscrevo inteiramente o seu texto, João Mendes.
    Estou a lembrar-me de um episódio (recente) quando a “prezada” ex-ministra Maria Luís se passou para o privado. Falou-se em incompatibilidades, necessidade de aprimorar legislação, normas, etc. ao que alguém recordou a realidade num dado país nórdico, creio que Suécia, onde não há normas para este fim. Perguntaram a um político de lá porque é que a legislação não cobre o assunto, ao que ele respondeu que não é preciso porque as pessoas tem “vergonha na cara” (a expressão foi outra, mas vai dar ao mesmo…).

  8. Carlo Magno says:

    Totalmente de acordo! Têm 2 alternativas!…. Ou rua!…..
    Ou rua!……

  9. Elsa Dourado says:

    Concordo plenamente!

Trackbacks

  1. […] Receber prendas de empresas privadas, quando o feliz contemplado é um governante em funções, é reprovável e não pode passar impune. Já um ex-ministro que, para além das coincidências que gravitam em torno da sua contratação […]

  2. […] seu voto, no plenário como nas comissões em que participa, configura uma manifestação de poder. Governantes sérios não aceitam presentes de empresas privadas. E isto vale para membros do governo, deputados e […]

  3. […] Não tão grave pela posição ocupada, mas igualmente promíscuo, foram três outras alegadas ofertas de passeios ao Euro2016, menos escrutinadas pela imprensa, ou não tivesse sido um dos seus grandes barões a alegadamente pagar a factura. Falo das viagens, bilhetes e refeições alegadamente pagas pelo empresário Joaquim Oliveira aos deputados do PSD Luís Montenegro, Luis Campos Ferreira e Hugo Soares. A minha fonte? A mais insuspeita possível: o Observador. […]

  4. […] Não tão grave pela posição ocupada, mas igualmente promíscuo, foram três outras alegadas ofertas de passeios ao Euro2016, menos escrutinadas pela imprensa, ou não tivesse sido um dos seus grandes barões a alegadamente pagar a factura. Falo das viagens, bilhetes e refeições alegadamente pagas pelo empresário Joaquim Oliveira aos deputados do PSD Luís Montenegro, Luis Campos Ferreira e Hugo Soares. A minha fonte? A mais insuspeita possível: o Observador. […]

  5. […] de Estado tinham sido agraciados com viagens e bilhetes para jogos do Euro2016, pagos pela GALP. Na altura escrevi – e mantenho – que governantes sérios não aceitam presentes de empre…. Mas o espectáculo a que ontem se assistiu no Parlamento, protagonizado por falsos moralistas e […]

  6. […] P.S. E Rocha Andrade, ainda é secretário de Estado? […]

  7. […] Governo aprova aumento de 25 milhões no imposto cobrado à Galp pelos contratos de gás natural com a Argélia e Nigeria. Já não há respeito por quem leva parlamentares a ver a bola. […]

  8. […] Governo aprova aumento de 25 milhões no imposto cobrado à Galp pelos contratos de gás natural com a Argélia e Nigeria. Já não há respeito por quem leva parlamentares a ver a bola. […]

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