Carta do Canadá – Setenta e um anos depois


Quanza

Navio Quanza, da Companhia Nacional de Navegação (imagem daqui)

No dia 6 de Agosto de 1945 os Estados Unidos da América arrasaram com uma bomba atómica a cidade japonesa de Hiroshima, assim retaliando o ataque que sofreram dos aéreos nipónicos sobre a sua base militar de Pearl Harbor. Aliado de Hitler, pouco depois também o Japão se rendia. Estava consumada a vitória dos aliados europeus  e americanos sobre o hediondo crime dos nazis alemães que, aliados também aos fascistas italianos e contando com a simpatia colaborante dos fascistas portugueses e espanhóis, ensombraram o século XX com milhões de mortos e fortaleceram o comunismo soviético.  Este, como se sabe, foi depois o fautor dum desastre sangrento e horrendo nos países que a Rússia agregou a si, a ferro e fogo, propagando depois o terror à China, ao Vietnam, à Coreia, a Cuba e  alguns países africanos, designadamente Angola.

Esse dia de Agosto ficou gravado em mim para sempre. Eu era pequena, andava na escola pública. Nesse tempo, nas escolas públicas içava-se a bandeira e cantava-se o hino logo de manhã. A Luanda chegavam barcos carregados de refugiados da Europa que ali ficavam o tempo necessário para rumarem à África do Sul, aos Estados Unidos da América e ao Brasil. Havia muitas crianças nessas levas de refugiados e nós, os pequenos, logo nos aproximámos delas. A guerra empolgou-nos de tal maneira que, quando os cônsules dos países aliados iam nos seus descapotáveis até à beira-mar para a bebida ao pôr do sol, alinhados na estrada nós, bracitos no ar, fazíamos o V da vitória. E os diplomatas traziam-nos braçadas de revistas, escritas em brasileiro, que eram para nós uma verdadeira cartilha.  Conhecíamos os personagens todos. De tal maneira que, quando teve lugar a manifestação de regozijo pelo fim da guerra, em frente ao Palácio do Governo, ficámos perplexos que um homem  dando sonoros vivas à Rússia, foi preso.  A Rússia não era aliada? Muitos anos depois, o Raúl do Duo Ouro Negro relatou idêntica perplexidade numa entrevista, mas mais saborosa: confessou que tinha ficado curioso acerca daquela “ruça”, pelos vistos de mau nome, por quem o outro gritava.  O que nos rimos os dois, em pleno PREC, com essa recordação de infância…  Angola era assim.  Na casa dos meus pais havia criados negros, como era de uso em todas as casas. Um deles, o da cozinha, era o Miranda, o meu grande herói porque abanava o fogão de lenha por longos minutos, com o mesmo braço, sem se cansar.  Eu achava o máximo. O Miranda tinha um filhote da minha idade, que a minha mãe tratou de baptizar na igreja e pôr na mesma escola que eu frequentava. Era o Sérgio. Muito engraçado, muito maroto, fazia rir toda a gente. Ficámos grandes amigos. Naquela manhã de 6 de Agosto de 1945, ouvi os mais velhos comentarem, com ar preocupado, a bomba atómica sobre Hiroshima. Tive medo. Dali a bocado, no areal da praia junto à qual morávamos, desabafei a aflição com o Sérgio.  E adiantei que era bem capaz de lá vir bomba igual para nós. O Sérgio ficou em completo silêncio todo o dia. Mas depois do jantar, o Miranda, com o Sérgio pela mão, plantou-se diante da senhora da casa e participou que iam dormir ao musseque porque queriam morrer junto da família.  Surpreendida, minha mãe quis saber o porquê daquela decisão. O Miranda contou o que o filho lhe tinha dito, o Sérgio repetiu tintim por tintim o que lhe contei. E é que não houve argumentos que tirassem a bomba da cabeça do Miranda.   Voltou no dia seguinte, com o Sérgio pela mão, e regressámos à rotineira paz. Eu é que fiquei a arder com um castigo.

Quis o destino que, no Canadá, eu fosse amiga duma família japonesa, os Yamazaki, de que uma matriarca de 92 anos, a Tamiko, Tami para os amigos, vive no mesmo prédio que eu. O pai era armador de pesca e viviam, felizes e com abundância, numa ilha em frente de Vancouver,  na costa do Pacífico. O chefe da família tinha estado na guerra entre a Rússia e o Japão, no final do século XIX, e tinha várias condecorações. Quando o imperador do Japão passou por Vancouver, convidou todos os homens japoneses da comunidade para um banquete.  Tudo parecia idílico. Mas, dali a uns tempos, o Japão celebrou um pacto com Hitler, tal como a Itália de Mussolini havia feito.  Colónia inglesa nesse tempo e a fazer o saco para entrar na guerra contra a Alemanha, o Canadá não esteve com meias medidas: congelou todos os bens móveis e imóveis de japoneses residentes  no  território, fechando a maior parte em campos de detenção e pondo centenas doutros a trabalhar na agricultura da província de Alberta.  Medida preventiva que durou  o período de guerra, sendo de assinalar que os bens só foram devolvidos nos anos 90 do século passado pelo governo de Brian Mulroney que, em nome do país, lhes pediu desculpa. Muitos dos mais velhos já tinham morrido ou estavam a terminar os seus dias e por isso foram os seus descendentes que receberam os bens congelados, ao câmbio actual e com juros. Os Yamazaki passaram por tudo isto, saíram de casa para sempre com uma mala de roupa cada um. Excepto a mãe que pôs a sua roupa nas malas dos outros e levou consigo dois sacos de arroz. O arroz é, para os orientais, o que o pão é para nós: alimento básico e sagrado. Foram colocados numa herdade de Alberta e ficaram ao serviço dos donos dela, nos campos de beterraba, nas searas a perder de vista.  E ainda hoje não mostram ressentimento ou ódio.  São, todos eles, duma grande doçura, duma impecável cortesia nipónica. Uns são budistas  outros são evangélicos, todos optaram por viver sem ódio. Os lavradores tinham dois filhotes, o Keith e a Marylou. Podemos imaginar o que seria um lugarejo perdido no Canadá, há 71 anos. Grande deve ter sido o entusiasmo dos garotinhos com a chegada daquela família estrangeira. E muito mimo devem ter recebido dela. Em 2011, a Tami recebeu, aqui em Toronto, um telefonema assombroso: um homem chamado Keith, que se tinha dado à paciência de telefonar a todos os Yamazaki que constam da lista telefónica, deu-lhe a maior felicidade. Veio vê-la, com uma braçada de rosas, e encheu-a de perguntas, quis saber de todos daquela família, um por um.  Dali a nada, a irmã estava a telefonar dos Estados Unidos, e chorou de alegria.

Considero um privilégio ter encontrado este exemplo de bondade e bom carácter, de humildade e inteligência.  Há 20 anos que lido com esta família que, positivamente, me adoptou. Desde há 20 anos que eles se habituaram a comer queijo, azeitonas, sardinhas, caldeiradas, cozido à portuguesa, bacalhau, caldo verde  e pastéis de nata. No vinho é que não entraram.  De tal sorte que, numa manhã de Natal, um amigo meu de Ponte de Lima se abraçou à Tami a dizer-lhe: “A senhora é tão nossa amiga, gosta tanto das coisas portuguesas que já pode pedir a nacionalidade portuguesa”.  E a Tami, muito séria: “Não posso, Amaro. A Maria diz que quem não gosta de vinho não pode ser português”.

O Canadá recebeu milhões de refugiados de todos os países martirizados do mundo.  Aqui,  estão livres e seguros, respeitam e são respeitados. Penso que o viver pacífico deste país vem justamente destas pessoas que não querem ver repetidos na terra escolhida os crimes e erros dos seus países de origem.  Dou comigo a desejar que o mesmo aconteça a todos os refugiados espalhados pelo Médio Oriente, Turquia e Europa. Para que haja paz.

Comments

  1. José Gravato says:

    A vida é feita disto!

  2. Anónimo says:

    A bomba atómica quando o Japão já estava derrotado.
    A Guerra Fria. A intimidação. O terrorismo.
    A descolonização e o neo colonialismo.
    A Indonésia, a Coreia, o Vietname, o Afeganistão, a Palestina, o Chile.
    A queda da URSS. A queda do Muro.
    A Guerra à volta da Europa. O assalto aos recursos alheios. A queda da Europa.

    O escravo a atear o lume. A bebida ao pôr do Sol.
    A bela vida da minoria incolor, à custa do trabalho e dos recursos da maioria colorida.
    Os índios alcoólicos mantidos em reservas.
    A vida é feita disto?

    Onde é que se vendem estes óculos, que pintam a miséria cor de rosa, e nos fazem acreditar no Pai Natal?

    • Nightwish says:

      “A bomba atómica quando o Japão já estava derrotado.”
      Estava, mas nunca se iria render sem uma invasão com muito mais mortes.

    • À custa do trabalho e dos recursos da maioria colorida poderia levar-nos a uma longa discussão, sobre exploração de recursos e trabalho. Mas de facto era a bela vida de uma minoria incolor. Conheci-a e não o nego, apesar de ter tido mais faltas que alguns deserdados de hoje têm. O que mais me impressionou quando cheguei a Portugal e passeei pelos campos de arroz do Mondego foi a vida dura e difícil daqueles incolores. É que nunca tinha visto, coloridos ou incoloridos, trabalharem tanto, mas a vida é realmente feita disto. Nunca tinha visto, por exemplo, esconder um ovo no borralho da lareira para se comer à noite que o patrão fechava a despensa. Cá. Porque lá o criado tinha a chave. Mas a vida é isto, também. Da miséria de uns, dos privilégios de outros, e das pontes onde uns e outros se poderiam ou poderão encontrar, distribuir e partilhar. Não se trata de pintar de cor de rosa mas descobrir os nós que precisam de ser desatados. Resta saber qual a sua postura: atar ou desatar esses nós.
      Não vi neste post fazer a apologia da bomba atómica!
      Espero que consiga, à noite, dormir descansado, depois de comprar ao desbarato a roupa com que se veste, e de pôr a carregar a bateria de lítio do seu smartphone, privilégio conseguido à custa da escravatura das crianças, que as faz desejar a escravatura de atear o lume.

  3. Anónimo says:

    Na 2ª Guerra, com os filmes, com a bomba atómica, até parece que foram os EUA que venceram tudo e todos.
    Na Síria, os EUA, França, e Israel, ajudam os terroristas, com treino, armas e financiamento. Mas vão aldrabando as notícias, caluniando a Síria e os Russos, para parecer que as derrotas dos terroristas se devem aos esforços dos EUA.

  4. anónimo says:

    Passados 71 anos a mentira persiste.
    Dizem que a História é escrita pelos vencedores.
    Acredita quem não pode ou não quer ver.
    Na Europa, a História está a ser escrita pelos derrotados.

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