Postcards from the U.S. #1 (Washington D. C)


‘Freedom is not free’ and a ‘stone of hope’

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De manhã, com o sol a entrar por entre as frestas dos estores das duas janelas do quarto, e depois de ter dormido algumas horas, o hotel parece-me muito menos mau que ontem à noite. No entanto, não é bom. É limpo e a cama é razoável e, já o disse ontem, tem ar condicionado. Chega para duas noites. Também não tem, como uma boa parte dos hotéis nos Estados Unidos, pequeno almoço incluído. Assim, saio do hotel e tomo o pequeno almoço no Starbucks mais próximo. Isto é um Starbucks em cada esquina, sempre idênticos, sempre com as mesmas coisas. O expresso é razoável, já o disse. E isso, por agora, tem de me chegar. Em frente ao hotel fica a Igreja dos peregrinos com uma torre muito alta e uma escultura bem bonita de Taras Shevchenko, poeta ucraniano. A estátua visa honrar o poeta que lutou pela liberdade no seu país. Porque está ali, não compreendo exatamente, mas, repito, é uma estátua bem bonita.
 
A área em redor do hotel, muito próximo de Dupont Circle, é afinal bastante agradável, com cafés e restaurantes e passeios largos e casas baixas. Aliás, os edifícios não são geralmente muito altos aqui. Batsante diferente de Toronto, a cidade e, seguramente, muito diferente de Nova Iorque. Basicamente a cidade vive de e para a política. Todas as instituições relevantes se concentram aqui: o tesouro, a casa branca, o banco dos Estados Unidos, o quartel-general do FBI, etc, etc, etc. Isso é dezenas de memoriais, a todos os presidentes mortos, a alguns senadores, a batalhas, a cientistas, a poetas estrangeiros como já se viu… Washington é a cidade da política e dos memoriais. Está visto.

 
Em Dupont Circle apanho o metro (a ‘red line’) para a Union Station. Ainda são algumas estações de distância. A Union Station é bonita e fresca e quando saio encontro logo o quiosque dos autocarros turísticos. Escolho uma empresa à sorte e lá vou eu. Começo com a linha vermelha que pasa basicamente por todos os museus da cidade (e são imensos). Os museus e os monumentos são todos gratuitos (salvo uma ou outra exceção), na maior parte das vezes no pressuposto ‘first come first served’, o que significa – dado que os bilhetes são limitados – que a esta hora em que inicio o meu passeio no autocarro turístico, já não deve haver bilhetes em lado nenhum. Assim – e porque tenho praticamente só o dia de hoje em Washington – tento ver o máximo de coisas possíveis a partir do autocarro. Passamos o Capitólio e a Biblioteca do Congresso que tenho mesmo pena de não ver. Ficará para outra altura, se houver alguma. Passamos o memorial do holocausto com a sua suástica quebrada à porta.
 
Entramos no National Mall, que concentra a Casa Branca, vários memoriais a ex-presidentes e a senadores e outras figuras políticas de relevo para a história dos Estados Unidos. Resolvo ver o Lincoln Memorial, afinal é já ali. O memorial é impressionante. Dá-me aquela sensação de já ter estado ali, tantas vezes o vi em filmes. O Abraham Lincoln lá está, ou melhor a sua gigantesca estátua, sentado na sua cadeira eterna. Tem um bocado ar de enjoado, penso eu, enquanto o examino a partir de várias perspetivas. Fico um bom bocado no Lincoln Memorial. Está fresco e é agradável. Quando saio, o sol é abrasador. Estão 37 graus mas ‘feels like 40’. Exatamente o que eu preciso para a minha alergia que entretanto piorou um bocado mais.
 
Avanço pelo parque verde e agradável, apesar do calor, até ao Memorial aos veteranos da guerra da Coreia. Várias estátuas de soldados que se reflectem no muro de granito preto, duplicando-as. Sento-me debaixo da árvore retangular (que também faz parte do memorial) à sombra. Devem estar também 37 graus à sombra. Olho em frente e vejo a inscrição: ‘freedom is not free’. Enfim. Devia ser. Mas para os Americanos seguramente não é. Principalmente a liberdade dos outros… quero dizer… mas, bom, estou de férias, esqueçamos isso por agora ou não).
 
Alheios ao preço que aparentemente se deve pagar sempre pela liberdade estão os pardais que se banham deliciados no pequeno lago que faz igualmente parte do memorial. Entretenho-me mais com os pardais do que com as estátuas dos veteranos, confesso. Quando me levanto continuo absolutamente transpirada. O calor aqui não é tão húmido como em Toronto e isso torna-o um pouco mais suportável, apesar de tudo. Continuo a caminhar pelo parque, pelas sombras, e chego ao Memorial que mais queria ver: o de Martin Luther King, Jr. O Memorial tem 3 pedras. Nas duas que formam a entrada – as montanhas do desespero – falta uma, que se encontra logo à frente: a pedra da esperança. Acho o memorial bonito, com vista para a Tidal Basin e para o também (como o de Lincoln) memorial a Thomas Jefferson. Bonito e muito luminoso nesta tarde que acabou de começar, cheia de calor. O memorial tem excertos de alguns dos discursos mais significativos de Luther King. ‘I have a dream’… ‘I have the audacy to believe…’. Fico inspirada e quando peço a alguém se me pode tirar uma fotografia levanto imediatamente o punho. ‘I have more or less the same dreams as Martin, ou melhor, Dr. Luther King’.
 
A seguir vou para a paragem do autocarro turístico e mudo depois, na paragem da ‘casa branca’ para a linha amarela. Saio na paragem da White House mas acabo por me baralhar e só a verei das traseiras… quer dizer, vi também a frente, ao longe, a partir do autocarro. Obama não está no backyard, que pena. Mas em vez dele há polícias com cara de muito poucos amigos. Ossos do ofício, suponho. Volto para trás, depois de ter fotografado umas 6 raparigas muçulmanas, aos gritinhos, com as traseiras de White House como pano de fundo. Gosto deste mundo. A sério que gosto. Desta mistura. Desta consequência da globalização (das outras não vamos falar, já disse que estou de férias…). Gosto que as pessoas não sejam tão estereotipadas como, frequente e apressadamente, temos a tentação de pensar que são. Apanho, então, a seguir a linha amarela, que não tem um percurso particularmente interessante, mas vai até Georgetown, um dos bairros mais antigos de Washington, agora um bairro da moda. A minha ideia era apanhar no Georgetown harbour o barco para um passeio pelo rio Potomac, mas quando lá chegamos são cinco e vinte e ainda queria fazer a linha azul até ao Pentágono. Não que se possa visitar, mas assim mesmo…
 
Deixo, portanto, a viagem de barco para trás. Talvez amanhã se me levantar cedo ainda lá vá. Sigo de novo em direção ao National Mall e ao impressionante ‘the Monument’ ou o monumento a Washington D. C., com 169,7 metros de altura é a estrutura mais alta da cidade. Eu disse que os edifícios nesta cidade são relativamente baixos. Apanho a linha azul às 18h. Estou completamente transpirada. A minha alergia, como já disse, piorou, apesar do protetor solar e de me ter embrulhado sempre numa echarpe para não apanhar sol diretamente sobre a pele. Agora dão-me até comichão. E estou mais vermelha e desconfortável. Mas, assim mesmo, vou à outra margem do rio Potomac ver o Pentágono. A minha máquina fotográfica decide morrer ali mesmo. Bom, também não é que se pudesse fotografas grande coisa. Mas assim mesmo uso a mais pequena que anda sempre na mala. Passamos também no cemitério de Arlington, o maior cemitério militar dos Estados Unidos. Parece realmente enorme, com colinas verdes e grandes relvados a perder de vista cobertos de pedras brancas. ‘Freedom is not free’, so they say.
 
Regressamos ao outro lado do rio, novamente para o distrito federal de Washington, a que dá mais jeito chamar cidade, embora não o seja, nem estado. Do outro lado do rio é já o estado da Virgínia. Washington é uma espécie de ‘ilha’ adminstrativa. O que faz algum sentido, já que alguma da sua área foi erguida sobre pantânos. Talvez em muitos sentidos isso ainda hoje se note (mas estou de férias e… não vamos falar sobre isso). O ‘Monument’ lá está, no mesmo sítio. Eu estou cada vez mais vermelha e com mais borbulhas que formam agora constelações. E tenho bastante comichão. Regresso à Union Station. Apanho de novo o metro, mas em sentido inverso ao de desta manhã. Saio em Dupont Circle, através de umas escadas rolantes que deixam as da estação do Chiado, em Lisboa, completamente envergonhadas pela sua pequenez, e vou comer a um restaurante francês – le Pain Quotidien – perto da rua do hotel. Le Pain Quotidien é uma cadeia internacional. Já comi nestes restaurantes, outras vezes, noutras cidades.
 
O empregado que me atende é muito simpático (aliás, so far, acho os americanos todos muitíssimo simpáticos) e a certa altura pergunta se tenho alguma alergia. Digo que acho que sim, que nunca tive isto e tal. Aconselha-me prontamente a ir à CVS Pharmacy na esquina da rua e aconselhar-me com o Pharmacist. Quando acabo de comer assim faço. De destacar que o rapaz me ofereceu um bolo de quejo e frutos vermelhos com o café. Eu disse que os americanos eram simpáticos. Entro na farmácia e sou atendida por um senhor com a voz igualzinha à do Samuel L. Jackson. Até dá gosto ouvi-lo falar. Diz que provavelmente é mesmo uma alergia ao calor que só se manifestou agora. Talvez devido à elevada humidade (disse-lhe que isto me tinha aparecido em Toronto). Recomenda-me uma pomada com cortisona e aloé vera e um anti-histamínico por 5 dias. Pago 10 dólares e qualquer coisa e espero que isto me passe daqui a uns dias. Em Nova Iorque para onde vou amanhã, de comboio, o calor é imenso também e a humidade uma constante, pelo que vejo algumas dificuldades pela frente. ‘Freedom is not free’, pois é. E eu não sou um pardal a chapinhar dentro de um lago num dia demasiado quente de verão. Não sou, mas tenho pena.

Comments

  1. muito bons estes postais….muito obrigado pela partilha.
    de facto os EE UU são um mundo á parte e já tinha essa sensação quando estive em NY há 3 anos….

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