Postcards from the U.S. #5 (New York)


‘What do you mean? «My people»?’… and ‘some of you call it jazz, but it is not jazz, it is blues’

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Ontem à noite cheguei tarde a casa. A casa quero dizer, aquela que é a minha casa por 8 noites em Nova Iorque, o The Evelyn, um hotel bonito, limpo, extremamente bem localizado, mas cujo elevador demora dois dias a trazer-nos do átrio, onde há sempre excelente jazz, até ao nono piso, onde me encontro. O meu quarto é espaçoso. Na cama caberiam umas 4 pessoas como eu, à vontade e deve ser uma das mais confortáveis camas em que já dormi na vida. A vista, porém, não é grande coisa. Dá para um prédio, igualmente alto e isso faz com que , pelas grandes janelas, não entre muita luz.
 
Cheguei tarde porque fui ao Bar 55, na Christopher st. Um bar de Jazz & Blues, muito recomendado, onde tocam habitualmente nomes muitíssimo recomendáveis do jazz e dos blues. O Bar 55 – que fica sem surpresa na West Village, ou na fronteira entre este bairro e o Greenwich Village – ao contrário dos grandes bares de jazz que eram (e ainda são) famosos nos anos 50, como o Village Vanguard, o Birdland e o Blue Note, é um clube despretensioso, onde a cerveja custa 7 dólares, barata para os padrões nova iorquinos, portanto. Decidi que, por muito que gostasse, não tenho dinheiro para os bares de jazz que se tornaram agora lugares turísticos. O Bar 55 não é um lugar turístico e agradeço aos céus por isso. Fica numa cave, fresca, tem um ambiente absolutamente nova iorquino e, ontem pelo menos, eu devia ser uma das poucas turistas que lá estavam. Sweet Georgia Brown* foi a cantora de blues que ontem animou a minha noite. E de que maneira. A banda que a acompanhava era excelente e não se pode pedir mais de um clube de jazz & blues, se não isto. Hei-de experimentar, antes de me ir embora, o Smalls. Para ouvir jazz e não blues, como ontem à noite.
 

O West Village merece maior exploração da minha parte. Assim como o Greenwich Village. Espero ter tempo para lá voltar. O ambiente é absolutamente diferente do que se vê no resto de Nova Iorque. Bairros. Cheios de cafés, restaurantezinhos, lojas pequenas, galerias e, claro, clubes de jazz. Jantei num restaurantezinho com pinta de francês. Jantei bem e all the things considered, não foi assim tão caro. Achei que merecia, depois de ter percorrido a pé a Brooklyn Bridge, desde Brooklyn até ao City Hall de Nova Iorque.
 
A ponte de Brooklyn é realmente bonita, mas foi preciso coragem da minha parte para a percorrer. Estava bastante calor e, bolas, o que andei em Brooklyn (para onde fui no autocarro turístico, de manhã, sobre a ponte de Manhatan) e o que andei depois em Nova Iorque, foi imenso. Brooklyn é também bastante bonito. Comparado com Nova Iorque, ali mesmo em frente, é bastante mais arejado, verde, com casas bastante mais baixas e pequenas lojas e cafés, muito simpáticos. Da ponte têm-se vistas absolutamente inesquecíveis do skyline da baixa de Nova Iorque. Cada passo é um suspiro maravilhado diante daquilo. O céu sobre Nova Iorque estava ontem particularmente bonito, com as nuvens baixas, extraordinariamente bem desenhadas. Esta paisagem vale uma vida inteira. Estou a exagerar, mas tudo em Nova Iorque apela ao exagero. Até o céu.
 
Ainda assim, não tem estado tanto calor, como estava em Toronto ou em Washington. Também agradeço por isso. A minha alergia ao calor agradece também e estou substancialmente melhor agora. A humidade também não é tanta como em Toronto. Apesar de tudo, Nova Iorque parece-me também mais arejada que aquela cidade canadiana, que, apesar da alergia, gostei bastante de conhecer. Passo uma boa parte do dia em Brooklyn. Quando entro na ponte devem ser umas quatro menos um quarto. Quando saio da ponte, perto do City Hall de Nova Iorque, alguns quilómetros e muita transpiração e duas garrafas de água depois, serão umas quatro e meia. Uns girassóis dão-me as boas vindas a este lado da ponte. Vou apanhar o autocarro turístico que demora horrores a chegar e que demora depois horrores a subir para a Midtown, passando por Chinatown, Little Italy (sítios onde ainda tenho de ir, absolutamente). Quando chegamos a Times Square já passa bastante das seis da tarde. No entanto, é agradável contemplar Nova Iorque do cimo do autocarro e ir apanhando o vento refrescante.
 
Em Times Square resolvo apanhar o Metro para o West Village. Perco-me um bocadinho, porque não é assim tão evidente que de um lado da rua fica a entrada para a Uptown e do outro (escondida, diga-se) a entrada para a Downtown. Ando ali a ver se a descubro e vejo umas pessoas sentadas num banco. Escolho uma ao acaso para lhe pedir direções. É um homem afro americano (isto é relevante, neste caso) e está acompanhado de uma rapariga…. aproximo-me e digo ‘excuse me, do you know where is…’ sou bruscamente interrompida por ele que agressivamente me diz ‘I do not know no shit. Go and ask your people!’… Fico hesitante momentaneamente com aquela agressividade totalmente inesperada, quando eu só queria direções e eeducadamente as pedi. Vejo os olhos do homem, ligeiramente alucinados e raiados de sangue e atrevo-me a responder: ‘what do you mean, my people?’. Ele olha para mim, fora de si – e eu completamente azamboada com a situação – e grita-me que lhe saia da frente. A rapariga faz coro com ele. Eu ainda arranjo forças para lhe dizer ‘I have the same right as you to be here but… ok, have a nice day’ e volto-me para seguir caminho quando um senhor ao lado me pergunta o que quero saber. Lá lhe digo, ainda assarapantada com o que acabou de acontecer, e ele dá-me as indicações.
 
Vou no metro a pensar ‘my people?’ que raio queria ele dizer com aquilo? No entanto, sei o que ele queria dizer com aquilo, é evidente. Nesta situação está também uma parte da América. Embora eu tenha pensado, por momentos, que estava num filme do Tarantino e que ia acabar esfaqueada e a escorrer sangue copiosamente para a valeta, apenas por ter ousado tentar perguntar direções!. O metro de Nova Iorque cheira mal, quer dizer, as estações. São pequenas, estreitas, escuras e cheiram mal. Nesta, quando entro, vejo porém a Alice a entrar do outro lado do espelho, com o coelho por testemunha. Tranquiliza-me a imagem. Bem vinda, penso, ao país das maravilhas.
 
O resto da tarde e da noite, já o contei, é passada em West Village. A Sweet Georgia Brown faz a minha noite valer a pena, como os céus de Nova Iorque fazem com que toda a gente sob eles seja, evidentemente, a minha gente. Ao contrário do homem de olhos raiados, não acredito que haja a minha gente e a gente dos outros. E em Nova Iorque, então, isso não faz absolutamente sentido nenhum, por muito que nas palavras do homem, estejam expressas outras estórias, outra História, outra América, ou a mesma.
 
*Sweet Georgia Brown em ‘Cherry Pie’ – https://www.youtube.com/watch?v=ejlLOsFLymw

Comments

  1. duarteO says:

    Brooklyn não fica em frente a New York.
    Brooklyn é New York.
    Brooklyn fica em frente a Manhattan, outro “grande bairro” de New York.
    New York: Manhattan, Brooklyn, Queens e Bronx.

    Perdoe se estou enganado.

  2. Faltou DuarteO acrescentar a New York Staten Island, o mais pequeno dos grandes bairros da cidade.
    Não conheço Washington DC e por isso li e não me pronunciei. de NYC adoro o Guggenheim, o MoMa e para ar fresco opto pelo Central Park sinto também um grande fascínio por West Village, Greenwich e existem maravilhosas igrejas na cidade, não apenas a católica que referiu, mas inclusive a porta de uma que está mesmo defronte da Wall Street e um pouco a norte da de são patrício existe outra com um trabalho de madeira espetacular.

  3. fleitao says:

    Our people. Your people. Faz impressão a, com excepções, agressividade dos negros. Têm certamente razões para isso, no passado esclavagista e no presente injusto. Este é um dos barris de pólvora dps Estados Unidos. Mas NY é um conjunto de filmes que vimos desde crianças. Concordo consigo.

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