Postcards from the U.S. #6 (New York)


«In my life, I’ll love you more»* or «All you got to do is swing»**

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Há um ano menos uns dias, escrevi um postal de Liverpool*** a que chamei ‘In my Life’*. ‘In My Life’ é uma canção dos Beatles. Saberão isso, certamente. Todos os postais de Liverpool, que escrevi então em Agosto de 2015, tinham como título uma canção dos Beatles. Fazia sentido, como é evidente. Recupero uma frase dessa canção, porque a ouvi hoje, quando passava em frente ao local onde John Lennon foi assassinado em 1980, a 8 de Dezembro. Ali perto fica o Strawberry Fields, uma área do Central Park que presta justamente tributo a John Lennon. É curioso ter sido ‘In My Life’ e não ‘Strawberry Fields Forever’# a música que ouvi ao passar por ali. E é curioso que um ano antes eu tenha escolhido esta mesma música para dar título a um postal em que falava dos sítios de que me recordo e que recordarei para sempre. É o mundo a fazer sentido, suponho eu, no meio do caos.
Por falar em música e em caos, hoje foi ‘Domingo no Mundo’## em toda a parte, exceto em Nova Iorque. Quando me levantei – tarde – e fui fumar um cigarro lá abaixo, parecia ser domingo também em Nova Iorque. Havia calma, um sol acolhedor e uma brisa que percorria suavemente a 27 st. East. Fumei o cigarro e reentrei no hotel. Falei com uma pessoa que não se compara a nenhuma outra, na minha vida (e sim, estou a citar de novo a canção dos Beatles) e quando voltei a sair, todo o domingo tinha desaparecido de Nova Iorque e, em vez dele, um dia qualquer da semana se tinha instalado, tal como o caos. Havia uma parada por ser o ‘Dia da Índia’. Tambores, música, carros alegóricos percorriam a Madison Avenue. O trânsito tinha-se tornado absolutamente indomável. Nada a fazer. O domingo tinha fugido para qualquer outra parte. Dele tinha apenas sobrado o sol e a brisa fina.

Comprei um maço de tabaco no Café 28, na 5ª Avenida com a 28 st East e nem vos digo o preço que paguei! Bebi um café mais à frente no Starbucks e atravessei a Avenida para o lado oeste. Esperava apanhar o autocarro turístico, no sítio do costume, na 32 st West com a 5ª Avenida. Esperei como se espera aos domingos, com vagar, embora, como disse, tivesse deixado de ser domingo em Nova Iorque. Quando finalmente apareceu o autocarro, pude seguir nele, a toda a volta da cidade até à Times Square, onde queria apanhar outro autocarro para o percurso da Uptown. Isto demorou imenso tempo e eu arrependi-me. Em Times Square, a confusão era ainda maior, como se fosse sexta feira à noite. Em Times Square é bem capaz de ser sempre sexta-feira à noite. O dia entretanto tinha começado a tornar-se cinzento, mas em Times Square, os enormes écrans brilhavam como sóis de várias cores – iluminando as pessoas que esperavam para comprar bilhetes para os espetáculos da Broadway. Lembrei-me do ‘Sound of Silence’ do Simon & Garfunkel: ‘and the people bowed and prayed to the neon god they made’### e foi aí que este domingo que não o foi, se tornou verdadeiramente musical.
Quando finalmente apanho o autocarro turístico para a Uptown já era tarde e eu já estava ligeiramente irritada. E devo dizer duas coisas: a primeira é que hoje era o último dos 3 dias do autocarro turístico (que vinha incluído no city pass que comprei ainda em Portugal) e eu queria aproveitar para ver aquela parte da cidade (antes de lá voltar, depois de amanhã, para visitar alguns dos museus do Museum Mile); a segunda é que se vierem a Nova Iorque não comprem nenhum bilhete para nenhum autocarro turístico. Andem de autocarro normal e de metro. Ficará mais barato, provavelmente, e certamente chegarão aos sítios muitíssimo mais rapidamente. Sobretudo não comprem nunca o bilhete dos autocarros do ‘city sightseeing’. Quem vos avisa, vossa amiga é. Acreditem em mim. O serviço é péssimo, as paragens são longe dos locais que queremos visitar e, mais importante ainda, a frequência dos autocarros é bastante baixa (se comparada com a de outras companhias). Mas adiante. Estavámos então sob os néons de Times Square, num domingo cinzento que mais parecia uma sexta feira, pela quantidade de carros e pela confusão do trânsito.
De Times Square o autocarro começou a subir a 8ª Avenida em direção a Central Park West. Passámos Columbus Circle, entrámos na Columbus Avenue e passámos pelo Lincoln Center, onde parece que há concertos de jazz gratuitos em alguns dias, à hora do almoço. A seguir passámos pelo local onde, como já disse Lennon foi assassinado. Depois por Strawberry Fields e continuámos um bom bocado acompanhando o Central Park, ouvindo o guia falar do tipo de pessoas que vivem no Upper West Side, pessoas famosas e ricas naturalmente. O guia vai apontando blocos enormes de apartamentos, com cara de custarem todo o dinheiro que ganharei na vida ou, muito provavelmente, bastante mais que isso, e vai mencionando nomes de atores, modelos, cantores… aquilo aborrece-me um bocado, confesso, mas é a Uptown e o Upper Side de Manhatan, portanto… percebo que ele faça o seu papel. Chegamos à majestosa catedral de St. John the Divine e o aborrecimento passa-me. É sabido que gosto de igrejas e esta é absolutamente bela e gigantesca.
Passamos a bela universidade de Columbia, e o fantástico Teachers’ College e o meu aborrecimento desvanece-se completamente. Entramos no Harlem. Apenas um bocadinho. É interessante como de uma parte da cidade onde vivem exclusivamente milionários se passa, rapidamente, para uma parte da cidade onde vivem os mais pobres. Uma parte da cidade em que habitam ainda maioritariamente os afro americanos. Vemos muito pouco de Harlem, mas assim mesmo percebem-se perfeitamente as diferenças. Confusão nas ruas, devido aos muitos vendedores ambulantes de toda a espécie de bugigangas. Casas velhas e a precisar de reabilitação. Miúdos que brincam na rua. Passamos o Hotel Theresa, o Mercado, o Centro cultural Malcom Shabazz Cultural Center (ou Malcom X, como é porventura mais conhecido o homem que lhe deu o nome) e o Apollo Theater, onde tocaram alguns dos nomes mais importantes da música afro americana, desde o soul, aos blues, ao jazz. Entre muitos outros, Duke Ellington tocou aqui. O mesmo pianista genial cuja estátua se encontra na esquina leste do Central Park. Claro que me lembro logo de outra música. Interpretada (entre várias outras versões como muitas vezes acontece no jazz) pela Duke Ellington Orchestra… ‘It Don’t Mean a Thing (If It Ain’t Got That Swing)’**
Com este swing na cabeça passo pelo Guggenheim, um edifício magnífico que depois de amanhã (hopefully) visitarei, de Frank Lloyd Wrigth, a seguir pelo MET – The Metropolitan Museum of Art, deixando para trás também o Jewish Museu, a National Academy Museum e mais alguns outros. Nova Iorque tem imensos museus. Seria preciso uma vida inteira para os ver todos, provavelmente. Continuamos agora pelo Upper East Side a percorrer o Central Park. Alcançamos o Plaza e vemos passar as charrettes puxadas por cavalos e o cheiro, convenhamos, é muito pouco Upper Side. Mas suponho que seja bastante romântico passear pelo Central Park desta forma. Como estou sozinha neste momento, nesta cidade, as carruagens e o possível passeio só me cheiram mal, na verdade. O autocarro encaminha-se de novo para as luzes e a confusão de Times Square. Chovem agora grossas gotas de água e os passeios refletem as cores dos écrans gigantes.
Molho-me um bocadinho, mas ando, assim mesmo, pelas ruas de Nova Iorque. Cheira a terra molhada e é um cheiro estranho numa cidade de betão e aço. Um cheiro estranho, mas bom, como se a cidade tivesse sido lavada.Tão bom como reentrar no meu quarto, depois de esperar tanto por autocarros. Amanhã será um dia melhor, tenho a certeza. Não vou esperar por autocarros, quando muito tomarei o metro e depois, talvez um outro barco. Amanhã será um dia melhor, de certez. All I’ve got to do is swing through it.
(Dedicado ao André, que a esta hora dorme do outro lado do mar, como dormirão quase todas as pessoas de quem gosto neste mundo, com a certeza que, ‘in my life, I’ll love you more’)
* ‘In My Life’, dos Beatles aqui: https://www.youtube.com/watch?v=-eCh3y5VROM
**’It don’t mean a thing’, de Duke Ellington e a sua orquestra aqui: https://www.youtube.com/watch?v=qDQpZT3GhDg
*** o Postcard from Liverpool a que me refiro pode ser lido aqui:https://aventar.eu/2015/08/14/postcards-from-liverpool-2/
#’Strawberry Fields Forever’, também dos Beatles, aqui: https://www.youtube.com/watch?v=8UQK-UcRezE
## ‘Domingo no Mundo’ é um album de Sérgio Godinho, de 1997
### ‘The Sound of Silence’, de Paul Simon and Art Garfunkel pode ser ouvido aqui: https://www.youtube.com/watch?v=4zLfCnGVeL4

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